Capítulo 5- O Estábulo

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Emma respirou fundo, aliviada. Mas como Regina poderia sequer cogitar que ela trairia aqueles que estavam na mesma situação que a sua, ajudando em parte naquela matança descomunal? A comandante parecia desesperada por ajuda. Afinal, por que motivo Regina queria libertar a mãe de Emma?

Claro, ela queria derrubar o Comandante de Auschwitz, o qual Emma ainda não conhecia. Mas isso não justificava o fato de que ela estaria libertando e ajudando uma judia, duas, na verdade, porque ela estava dentro desse jogo também. De um momento para outro, Emma viu-se não mais furiosa, mas preocupada com Regina. O que o alto comando faria com ela se soubessem que a morena era suspeita de traição? Ainda mais agora, que ela trabalharia e moraria nos seus estábulos?

- Trouxe uma sopa pra você. Não é bom que coma tanto de uma vez só, bem, na suas condições....- Regina pausou. Não queria mais ressaltar o físico de Emma, nem tocar em tudo que ela havia passando. Por algum motivo, queria o bem da garota.- Desculpa, é o meu instinto de médica falando mais alto,

- Você é doutora? O que está fazendo no campo então?- Emma devia ter guardado a sua colocação para si, mas acabou falando assim mesmo. Não queria ofender a comandante, mas com a aparência e determinação de Regina, ela poderia muito bem ter uma carreira incrível no hospital em que ela quisesse.

- Bom, eles não gostam da ideia de uma mulher cirurgiã, apesar de todos os meus esforços eu não consegui me realizar como queria. Então aceitei o trabalho aqui, como comandante e, bem, pesquisadora...- a médica respirou fundo, passando toda a sua trajetória como um flash na sua cabeça. Será que tinha realmente encontrado o caminho para se realizar e se destacar na sua profissão? Com pacientes sendo usados contra a sua vontade? Provavelmente não, o que a causou uma raiva repentina.- Mas eu não perguntei sobre o que você passou, Emma, e queria que fizesse o mesmo quanto a mim.

- Está bem. Podemos recomeçar...- Emma se babava enquanto comia, feito uma criança. Tinha dificuldade até mesmo de falar, em meio aos suspiros de satisfação em estar comendo algo quentinho. Estava em paz.- Estou pronta para trabalhar, Dr. Mills.

-Ótimo! Trouxe essas botas aqui, vai precisar delas no lugar dessas sandálias horríveis. Vou te levar ao estábulo...- alcançou os calçados para Emma, que serviram perfeitamente. Ela levantou-se e destrancou o porta, fez um sinal para que o guarda abrisse a grade do corredor.- Ah, e quase ia me esquecendo do mais importante. Use isso no seu uniforme, é de extrema importância. Se sair sem ele, terá graves problemas, entendeu? E em público, sempre me chame de Herr Comandante- Emma assentiu com a cabeça. Prendeu o broche que dizia "subordinado Herr Comandante" em alemão, com certa tristeza que guardou para si. Mais um broche para tacha-la, que deveria ser colocado em cima da sua estrela amarela de judia. Ela ainda tinha sorte de não usar a estrela de homossexual.

Continuaram caminhando pelo longo corredor pouco iluminado, que lhe causava calafrios. Seus pés seguiam Regina exatamente no risco que ela andava, seguiu cabisbaixa, torcendo para que não fosse observada pelos demais guardas.

Seus pulmões encheram-se de ar quando saíram do prédio. O dia parecia mais bonito do que ela recordava, com um céu azul. Podia muito bem ser um dia comum límpido, ou simplesmente era algum tipo de esperança que brotava ali.

Chegaram a um grande portão que guardava o galpão de pedra. Uma estrutura que Emma jamais vira em qualquer fazenda ou haras. Mas quando entraram no estábulo, ficou sem entender o porquê de estar com muito menos cavalos do que comportava.

- Herr Comandante, porque tantas baias estão vazias?- questionou.

- Por causa do canhões. São muito pesados, o alto escalão decidiu que seriam puxados pelos cavalos para poupar os homens. Uma lástima. A guerra leva tudo.- Emma quis chorar, mas conteve-se. Pensar em quantas pessoas perderam as suas vidas de maneira covarde não era o suficiente, agora quantos animais devem ter sido sacrificados por tudo aquilo, fuzilados e deixados para apodrecer.

No Amor e na GuerraOnde histórias criam vida. Descubra agora