Jantar em família

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Morte.

Depois de todo esse tempo consigo enxergar algumas fases que passamos por conta de uma perda catastrófica.

Negação:

É como o meu pai. Agente nega que está cansado e precisando de ajuda. Nega sem querer acreditar naquele fato mesmo que esteja na nossa frente. Tudo isso porque o tormento é tão inimaginável que chega a ser impossível torná-lo verdadeiro.

Raiva:

Harry ou até eu mesmo. Sentindo raiva das pessoas, tentando achar um culpado. Culpando nós mesmos. Sentimos tanta raiva que causamos dor a nós mesmos fisicamente para tentar amenizar a dor interna que é muito maior. Muito pior.

Barganha:

Gina e Percy, talvez até o Jorge. Começamos a correr atrás de respostas onde em troca receberemos conforto e segurança. Inventamos diferentes maneiras de obter a sanidade novamente, queremos nos sentir vivos de novo mesmo que seja numa mentira que criamos para nós mesmo e que insistentemente tentamos torná-la verdade.

Quando isso falha vem o...

Desespero:

Minha mãe. Cujo o desespero é tanto que ela própria morreu dentro de si mesma.

Existe em algum lugar, alguma forma mirabolante que nos ensine a continuar vivendo?

Mesmo que você se mantenha vivo. A dor chega ser tão aguda que não nos deixa respirar e daí, é que você percebe que ainda sobrevive.

Daí vem a...

Aceitação:

É nisso que quero que minha mãe chegue. Deixar a dor de morte partir da mesma forma que chegou.

Mas como?

Ela está na cozinha fazendo coisas automaticamente. Corta legumes. Coloca na panela. Mexe. Já está tão acostumada a fazer as coisas mecanicamente que nem nota o que faz. De repente ela vira o rosto e olha a mesa da cozinha. Passa os olhos em cada cadeira, como se tivesse visualizando cada membro da família, sentindo o vazio da dor de não ter a mesa completa nunca mais.

Uma mesa completa?

xx

Toquei a campainha da casa dela e esperei ela atender a porta. Tinha um discurso pronto na ponta da língua.

Ela abre a porta e assim que vê que sou eu, sorri largamente. Não precisamos de cumprimento, não é necessário solenidades.

Se eu a beijasse ali, ela retribuiria?

– Mione, antes que você faça um discurso enorme de como essas missões me deixam doente, que devia parar de realizá-las agora, eu vim te dizer que não posso. Não quando eu posso salvar minha mãe. Eu tive uma ideia e quero que me ajude.

Ela suspirou erguendo os ombros e respondeu:

– Me diga o que quer que eu faça.

xx

– Carlinhos poxa! Custa vir para cá um fim-de-semana se quer? – eu implorava olhando meu irmão sentado na sala de sua casa pela lareira.

– Rony, eu trabalho de fim-de-semana – ele respondeu tentando meu convencer de que não podia atender meu pedido.

– Aposto que tem algum dia de folga, pode conversar com seu patrão – ele coçou a cabeça pensativo – Pela mamãe Carlinhos.

– Nesse fim-de-semana? – perguntou sendo convencido.

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