MINHA TRAJETÓRIA [PT 3]

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Era o meu primeiro encontro com "dissidentes": pessoas que, para meu espanto posterior, seriam os primeiros líderes democraticamente eleitos da Tchecoslováquia pós-comunista. Senti uma afinidade imediata em relação a essas pessoas. Nada tinha maior importância do que a sobrevivência da cultura nacional. Privadas do progresso material e profissional, os dias eram preenchidos com uma meditação forçada sobre o seu país e o passado, e sobre a grande "Questão da História Tcheca" que preocupava os tchecos desde o movimento de renascimento nacional no século XIX. Eles eram proibidos de publicar; as autoridades ocultaram a sua existência para o mundo e decidiram remover os seus vestígios dos livros de história. Por essa razão, os dissidentes eram acentuadamente conscientes do valor da memória. Suas vidas eram um exercício daquilo que Platão definiu como anamnesis: trazer à consciência as coisas esquecidas. Algo em mim reagiu imediatamente a essa ambição pungente, e estava ao mesmo tempo ansioso para unir-me a eles e fazer com que o mundo conhecesse a sua situação. Reconheci que anamnesis também descrevia o significado da minha vida.

Assim começou uma grande ligação com a rede de contatos extraoficial na Polônia, Tchecoslováquia e Hungria pela qual eu aprendi a ver o socialismo de outra maneira — não como um sonho de idealistas, mas como um sistema real de governo imposto de alto a baixo e mantido pela força. Despertei para a fraude cometida em nome do socialismo e senti a obrigação imediata de fazer algo a respeito. Todas as leis elaboradas pelo Partido Trabalhista britânico, que propunham organizar a sociedade para o bem maior de todos ao controlar, marginalizar ou proibir algumas atividades humanas naturais, ganharam outro significado para mim. Fui bruscamente tomado de surpresa pela impertinência de um partido político que se propunha confiscar todas as indústrias daqueles que as criaram, abolir as gramáticas escolares às quais devia a minha educação, forçar a fusão das escolas, controlar as relações nos locais de trabalho, regular as jornadas de trabalho, constranger os trabalhadores a se filiarem ao sindicato, proibir a caça, expropriar a propriedade de seus donos e outorgá-la ao inquilino, coagir as empresas a se venderem para o governo por um preço imposto, policiar todas as nossas atividades mediante o trabalho de órgãos paraestatais projetados para nos fiscalizar para o politicamente correto. E vi que esse desejo de controlar a sociedade em nome da igualdade expressava exatamente o mesmo desprezo pela liberdade humana que encontrei no Leste Europeu. Havia, de fato, essa coisa chamada "sociedade", mas era formada por indivíduos. Indivíduos devem ser livres, o que quer dizer livres das pretensões insolentes daqueles que desejam reprogramá-los.

Minhas aventuras no mundo comunista coincidiram com outra peripécia em casa — a criação de uma revista dedicada ao pensamento conservador, a Salisbury Review, nome que era uma referência ao grande primeiro-ministro cuja grandiosidade está no fato de ninguém saber nada a seu respeito, apesar de ele ter ocupado tal cargo por quase vinte anos. A Salisbury Review era administrada quase sem capital e, durante certo período, tive grande dificuldade em convencer alguns conservadores acerca da minha capacidade para fazer a revista. Minha intenção original era estimular o debate intelectual em relação aos conceitos do pensamento político moderno e, desse modo, afastar o conservadorismo da economia de livre mercado. Contudo, as coisas tomaram um rumo explosivo quando Ray Honey ford, diretor de uma escola em Bradford, enviou-me um artigo defendendo a integração das novas minorias via sistema de ensino e lamentando o isolamento das famílias paquistanesas cujos filhos ele se esforçava para ensinar. Publiquei o texto e imediatamente a polícia do pensamento ficou sabendo. Ray Honey ford era um professor justo e consciente que acreditava ser o seu dever preparar as crianças para uma vida responsável na sociedade. Foi confrontado com a questão de como fazê-lo quando as crianças são descendentes de camponeses muçulmanos do Paquistão e a sociedade, inglesa. O artigo de Honey ford tornou público o problema, assim como a solução que propunha, de forma honesta: integrar as crianças no ambiente cultural secular, protegendo-as das punições aplicadas nas aulas da pré-escola no madraçal local; entrementes, isso contrariava os planos de seus pais de mandá-los para o Paquistão sempre que lhes convinha. Honey ford não via sentido na doutrina do multiculturalismo e acreditava que o futuro do nosso país dependeria da habilidade para integrar as minorias recentemente chegadas mediante um currículo comum nas escolas e um estado de direito secular que pudesse proteger mulheres e meninas de um tipo de violência do qual era uma testemunha aflita. Tudo o que Ray Honey ford disse é, agora, a doutrina oficial dos principais partidos políticos: tarde demais, naturalmente, para atingir os resultados que esperava, mas, apesar disso, não tão tarde para mostrar que aqueles que o perseguiram e que cercaram a sua escola com falatórios vazios de "Ray -cista" nunca sofreram, como ele sofreu, por sua participação no conflito. Não obstante o seu tom frequentemente exasperado, Ray Honey ford era um homem profundamente gentil que estava preparado a pagar o preço da verdade em uma época de mentiras. Foi demitido e o magistério perdeu um dos representantes mais humanos do espírito público. Esse foi um exemplo de um expurgo stalinista contínuo executado pela autoridade de ensino criada para remover todos os sinais de patriotismo de nossas escolas e apagar a memória da Inglaterra do registro cultural. Dali em diante, a Salisbury Review foi rotulada como uma publicação "racista" e a minha própria carreira acadêmica foi posta em xeque. Os conflitos em que me envolvi nos anos seguintes deixaram bem claro para mim quanto havia deteriorado o nível do debate público na Grã-Bretanha. Na esquerda, não parecia haver qualquer resposta às enormes mudanças introduzidas pela imigração em massa, exceto para pintar como "racista" qualquer um que tentasse debater o problema. Esse crime se assemelhava ao delito de ser um emigré na França Revolucionária ou um burguês na Rússia de Lenin: a acusação era a prova da culpa. E, ainda assim, ninguém nos dizia qual era o crime. Lembrei-me do comentário do escritor Daniel Defoe, na época da Lei do Papismo de 1698, de que "as ruas de Londres estão repletas de homens robustos preparados para lutar até a morte contra o papismo, sem saber se era um homem ou um cavalo". Fiquei ainda mais surpreso ao descobrir que esse defeito intelectual elementar tinha invadido completamente os departamentos de Ciência Política das universidades e que o mundo intelectual estava agitado diante da presença, em nosso meio, de "racistas", cuja conspiração jamais poderia ser descoberta e cuja natureza jamais poderia ser claramente definida. Ser qualificado como racista me deu uma vaga ideia do que teria sido, noutros tempos, pertencer a uma minoria desprezada e perseguida. Após um episódio particularmente assustador em que fui perseguido depois de uma palestra pública na Universidade de York, e as subsequentes calúnias da BBC e do jornal The Observer, decidi deixar o mundo acadêmico e viver dos meus escritos. Nessa época, 1989, o muro de Berlim caíra e eu poderia retornar para a Tchecoslováquia, onde fui preso e de onde fui expulso em 1985. Junto com amigos e colegas, abri uma empresa de relações governamentais que, ao longo de alguns anos funcionando aos solavancos, garantiu uma pequena renda. Observando a natureza volátil das novas democracias, vim a perceber vividamente quão desimportantes são as eleições como parte da democracia, se comparadas às instituições permanentes e ao espírito público que responsabiliza os políticos eleitos. A regra no Leste Europeu, logo após o colapso do comunismo, era a de um grupo de aventureiros formar um partido político, vencer uma eleição baseada na força de promessas grandiosas e, depois, privatizar para eles mesmos tudo o que fosse possível, antes de serem varridos do poder na eleição seguinte. Para meu espanto, porém, a União Europeia decidiu ampliar o alcance dentro dessas novas democracias. A ordem jurídica baseada no mercado da burocracia de Bruxelas ajudou a preencher o vácuo legal criado pelo comunismo e, por causa disso, foi calorosamente recebida. Nesse meio tempo, em virtude das cláusulas imprudentes do Tratado de Roma em relação à liberdade de circulação de pessoas, houve uma maciça emigração de categorias profissionais e a perda de jovens qualificados oriundos de países que deles precisavam desesperadamente. Por esse motivo, a pauta política de "ampliação" tornou-se controversa em toda a Europa e voltei à polêmica naquilo que se sucedeu. Aquelas experiências ajudaram a convencer-me de que a civilização europeia dependia da manutenção das nossas fronteiras nacionais e de que a União Europeia, uma conspiração para remover as fronteiras, tornou-se uma ameaça para a democracia na Europa. Mediante o trabalho dos tribunais europeus e a configuração de sua legislação, a União Europeia criou uma classe política que não é mais responsável pelo povo — uma classe simbolizada pela baronesa Ashton, uma ex-apparatchikl da Campanha pelo Desarmamento Nuclear que nunca se candidatou a qualquer eleição na vida e ascendeu politicamente atuando em órgãos paraestatais por indicação do Partido Trabalhista e em organizações não governamentais de esquerda até se tornar a encarregada responsável pelas relações internacionais; em outras palavras, a ministra das Relações Exteriores do nosso continente. A própria Comissão Europeia aprovou leis que não podem ser anuladas pelos parlamentos nacionais, após discussões a portas fechadas entre burocratas que nunca precisam responder por suas decisões. A tentativa cômica de redigir uma constituição para a Europa produziu um documento muito extenso e, como não poderia deixar de ser, complicado e totalmente ininteligível. O preâmbulo conseguiu excluir a religião cristã da ideia de Europa, enquanto o resto do documento — que visava muito mais a ampliar os poderes das instituições europeias do que estabelecer os limites — foi calculado para eliminar a democracia. Visto que o legado da Europa para o mundo consiste em dois grandes bens, o cristianismo e a democracia, não causa espanto que a União Europeia não possua mais o aval do povo europeu, mesmo que tenha criado uma rede de clientes, cujo suporte sempre pode contar. Em um certo momento da década de 1980, encontrava-me no Líbano visitando as comunidades que estavam se esforçando para sobreviver diante da tentativa brutal de Hafiz al-Assad de criar uma Grande Síria. As experiências lá obtidas me despertaram para duas verdades vitais sobre o mundo no qual vivemos. A primeira é que fronteiras não são estabelecidas ao desenhar linhassobre um mapa, como fizeram franceses e britânicos ao término da Primeira Guerra Mundial. As fronteiras surgem do aparecimento das identidades nacionais, que, por sua vez, requerem que a obediência religiosa venha depois do afeto pela pátria, pelo território e por fixar uma comunidade. Além disso, como o exemplo do Líbano ilustra de várias maneiras, a democracia sempre correrá perigo em lugares onde as identidades são confessionais e não territoriais. A segunda verdade gravada em mim era que, pela mesma razão pela qual o islã põe a religião acima da nacionalidade como teste de filiação, o islamismo representa uma ameaça à ordem política. Isso é particularmente verdade em relação ao islamismo da Irmandade Muçulmana e de seu antigo líder Say y id Qutb, para quem, na disputa entre a sharia e o mundo moderno, é o mundo moderno que deve sucumbir. Em resposta à tragédia libanesa, escrevi um pequeno livro — A Land Held Hostage [Uma terra mantida refém] — em que defendo a antiga ordem libanesa. Defendi a constituição libanesa elaborada para fomentar uma identidade nacional localizada acima das identidades confessionais que separavam as aldeias entre si, e uns aos outros, ao longo de todo o território que compartilham. Adverti a respeito das ambições do Hezbollah, o "Partido de Deus", que tentava estabelecer uma rede regional de poder xiita sob a égide da Síria e do Irã. O conflito entre sunitas e xiitas passou a dominar a região e o meu fútil apelo em defesa da antiga ordem libanesa não serviu para nada. Essa experiência, todavia, ensinou-me que a civilização não pode sobreviver se continuarmos a nos curvar aos islamitas. Posteriormente, defendi essa posição em The West and the Rest [O Ocidente e o resto], um livro publicado em 2002 em resposta às atrocidades do 11 de Setembro; ao escrevê-lo, passei a ver que, por mais preciosas que sejam as fronteiras, ainda mais valiosa é a civilização que nos permitiu perceber as fronteiras nacionais. Essa civilização está fundada no cristianismo, e é por ver o nosso mundo sobuma perspectiva cristã que sou capaz de aceitar as vastas mudanças que o abalam. Aceitação vem do sacrifício: esta é a mensagem transmitida por tantas obras memoráveis de nossa cultura. Na tradição cristã, os principais atos de sacrifício são a confissão e o perdão. Aqueles que confessam, sacrificam o orgulho, visto que aqueles que perdoam, sacrificam o próprio ressentimento, renunciando pelo perdão algo que era caro aos seus corações. Confissão e perdão são hábitos que tornaram possível a nossa civilização. O perdão só pode ser oferecido sob certas condições, e uma cultura de perdão é a que introduz tais requisitos na alma individual. Podemos perdoar àqueles que nos ofenderam somente se eles reconhecerem a própria culpa. Não chegamos a esse reconhecimento por dizer "sim, é verdade, fiz isso mesmo". O perdão exige penitência e remissão. Por intermédio de tais atos de auto-humilhação, o autor de uma injustiça aniquila-se para a vítima e restabelece a igualdade moral quepermite o perdão. Na tradição judaico-cristã, tudo isso é bem conhecido e incorporado nos sacramentos da Igreja Católica Romana, bem como os rituais e a liturgia do Yom Kippur. Herdamos dessas fontes religiosas a cultura que nos permite confessar as faltas, compensar as vítimas e sustentarmos uns aos outros em todas as questões em que a livre conduta pode prejudicar os que em nós depositam confiança.

COMO SER UM CONSERVADORHistórias para pegar e não largar. Descubra agora