A palavra "liberal" mudou muitas vezes de significado. É atualmente utilizada nos
Estados Unidos para designar aqueles que seriam descritos como "de esquerda"
em termos europeus — pessoas que acreditam que o Estado deve usar seus
poderes e recursos para igualar os destinos dos cidadãos, e que aceitam um
maior papel do Estado na economia e na regulação da vida comum, mais do que
seria naturalmente endossado pelos conservadores. Entretanto, esse uso do termo
"liberal" é, de fato, contrário ao uso feito durante o século XIX quando os
partidos liberais começaram a difundir a mensagem de que a ordem política
existe para garantir a liberdade individual e que a autoridade e a coerção só
podem ser justificadas se exigidas pela liberdade. Neste capítulo, quero explicar
em detalhes a verdade no liberalismo, concebido dessa forma, como a filosofia
que pressupõe a liberdade do indivíduo como uma das finalidades, talvez a
principal delas, do governo, e que ao buscar esse propósito diferencia a política
das formas religiosas de ordem social.
A forma religiosa de ordem social nos é apresentada na Bíblia hebraica e no
Alcorão: é uma ordem em que as leis são baseadas em prescrições divinas e as
funções terrenas são ocupadas por delegação da divindade. Olhadas de fora, as
religiões são definidas pelas comunidades que as adotam e a sua função é uni-las,
protegê-las contra distúrbios externos e garantir o progresso da reprodução. Uma
religião é fundada na piedade, que é o hábito de se submeter às ordens divinas.
Esse hábito, uma vez criado, justifica todos os juramentos e promessas, atribui
santidade ao casamento e apoia os sacrifícios necessários tanto na paz quanto na
guerra. Por essa razão, comunidades com uma religião comum têm uma
vantagem na luta pela terra, e todos os territórios povoados de nosso planeta são
lugares onde alguma religião dominante, em algum momento, demarcou e
defendeu seus direitos. Essa é a história narrada no Velho Testamento.
A ordem política, ao contrário, é aquela em que a comunidade é governada
por leis feitas pelos homens e por decisões humanas sem alusão às ordens divinas. Religião é uma condição estática; política, um processo dinâmico. Ao
passo que religiões exigem submissão inconteste, o processo político oferece
participação, discussão e elaboração de leis fundadas na concordância. Assim
tem sido na tradição ocidental, e, em grande parte graças ao liberalismo, essa
tradição foi mantida diante da constante tentação a que assistimos hoje em dia
entre os islâmicos, na forma mais vociferante, de renunciar à árdua tarefa de
solução conciliatória e refugiar-se em um regime de ordens inquestionáveis.
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COMO SER UM CONSERVADOR
OverigLIVRO ESCRITO POR ROGER SCRUTON. O filósofo político inglês Roger Scruton construiu sua reputação ao empregar a sua inteligência na reflexão e divulgação do pensamento conservador. É um pensador que sabe conjugar de forma exemplar um raciocínio pr...
