Os genocidas influenciados por tal luta não receberam qualquer menção nos escritos de Louis Althusser, Gilles Deleuze, Michel Foucault e Jacques Lacan, apesar de um desses genocídios ter se iniciado naquele exato momento no Camboja comandado por Pol Pot, um membro do Partido Comunista francês educado em Paris. É verdade que só alguém criado no mundo anglófono poderia acreditar, como eu acreditei em decorrência de 1968, que a alternativa política para o socialismo revolucionário é o conservadorismo. Mas quando eu estava lecionando na Universidade de Londres descobri que os meus colegas se opunham a um homem que definiam com essa mesma palavra. O conservadorismo, diziam-me, é o inimigo não apenas dos intelectuais, mas também de todo o mundo que trabalha para uma divisão justa da renda social e de todos que "lutam pela paz" contra o imperialismo americano. Meus colegas eram complacentes com a União Soviética, cujas dificuldades, provocadas pelo "cerco capitalista", ainda não tinham sido superadas, apesar das necessárias eliminações dos elementos contrarrevolucionários. Havia, contudo, uma alternativa ao socialismo revolucionário de Lenin que acreditavam ser capaz de remediar as deficiências do modelo soviético: o humanismo marxista da New Left Review. O Birkbeck College, onde eu lecionava, iniciou as atividades no início do século XIX como Instituto de Mecânica e respeitou o desejo do fundador George Birkbeck de oferecer aulas noturnas para pessoas que trabalhavam o dia inteiro. Por isso, eu tinha tempo livre durante o dia e o utilizava estudando para o exame de admissão na advocacia, imaginando que era questão de tempo até que necessitasse de uma nova carreira. Birkbeck era um bastião seguro para o establishment de esquerda. Seu guru de destaque era o comunista Eric Hobsbawm, cujas histórias sobre a revolução industrial permanecem como o trivial das escolas. Seu método era o da "longa marcha pelas instituições", o que significava reconstruir a Grã-Bretanha de acordo com um modelo socialista. Ao preparar-me para a advocacia e ao estudar a lei inglesa tal como era antes da contaminação inoculada pelas Cortes Europeias e anterior às mudanças constitucionais introduzidas a esmo por Tony Blair, obtive uma visão completamente diferente de nossa sociedade. A justiça do common law destinava-se a uma comunidade construída a partir do nível mais inferior, mediante a garantia oferecida pelos tribunais para todos os que viessem a se apresentar de mãos limpas. Essa percepção permaneceu comigo, desde então, como uma narrativa de origem. No direito inglês, há normas jurídicas e casos de precedentes que datam do século XIII, e os progressistas considerariam isso um absurdo. Para mim, era a prova de que o direito inglês é propriedade do povo inglês, não uma arma dos governantes. Essa reflexão é do tipo que encontramos nos livros de história de Hobsbawm. As realidades políticas atuais tinham pouquíssima relação com a comunidade instituída, evocada por Lord Denning em seus precedentes jurídicos ou tão claramente visível no direito fundiário e em nossa lei de trustes. Recordo-me vividamente da surpresa que senti ao aprender que, de acordo com a nossa lei de sociedades anônimas, as empresas são obrigadas a gerar lucro. Como esse lucro,na "Ingsoc" da década de 1970, foi permitido e, para bem dizer, exigido? Naquela época, toda a administração estatal do país parecia estar dedicada a manter o ritmo constante do declínio cultural e econômico na esperança de alcançar a sociedade nova e igualitária em que todos teriam o mesmo, visto que ninguém teria coisa alguma. De fato, para muitas pessoas de temperamento conservador, no final dos anos
de 1970 parecia que a Grã-Bretanha estava pronta a renunciar a tudo o que era
importante: o orgulho, a iniciativa, os ideais de liberdade e de cidadania e até
mesmo suas fronteiras e a defesa nacional. Era a época da Campanha pelo Desarmamento Nuclear, e a "paz ofensiva" soviética que pretendia desarmar a Aliança Ocidental com o trabalho dos "idiotas úteis", como Lenin celebremente os descreveu. O país parecia estar chafurdando em um sentimento de culpa coletiva, reforçado por uma crescente cultura de dependência. Para os políticos de esquerda, "patriotismo" se tornara um palavrão. Para os políticos da direita, nada parecia importar, salvo o ímpeto de fazer parte da nova Europa, cujos mercados nos protegeriam das piores consequências da estagnação do pósguerra. O interesse nacional foi substituído por interesses escusos: dos sindicatos, das autoridades políticas e dos "capitães da indústria". A situação era especialmente desencorajadora para os conservadores. Edward Heath, líder só no nome, acreditava que governar era capitular: estávamos entregando a economia para os gestores, o sistema educacional para os socialistas e a soberania para a Europa. A velha guarda do Partido Conservador concordava amplamente com ele e se uniu na escolha de Enoch Powell como bode expiatório, o único entre eles que divergia publicamente do consenso do pós-guerra. Nos anos sombrios da década de 1970, quando a cultura de repúdio se espalhou pelas universidades e pelas elites formadoras de opinião, parecia que não havia caminho de volta para o grande país que defendeu a nossa civilização com êxito em duas guerras mundiais. Assim, em meio ao desânimo, Margaret Thatcher surgiu à frente do partido como que por um milagre. Lembro-me bem do júbilo que se disseminou pela Universidade de Londres. Afinal, havia alguém para odiar! Após todos aqueles anos lúgubres de consenso socialista, esquadrinhando os cantos insípidos da sociedade britânica, visto que os sombrios fascistas eram o que de melhor se poderia encontrar como inimigo, um demônio real entrava em cena: uma líder do Partido Conservador, não menos, que tinha o topete de declarar o seu compromisso com a economia de mercado, com a iniciativa privada, com a liberdade do indivíduo, com a soberania nacional e com o estado de direito — em suma, com tudo aquilo que Marx tinha repudiado como uma "ideologia burguesa". E a surpresa foi que ela não se importava em ser odiada pela esquerda, deu o melhor do que tinha para isso, e era capaz de trazer o povo com ela. Nunca engoli totalmente a retórica de livre mercado dos thatcheristas, mas simpatizava profundamente com as razões de Thatcher. Ela queria que o eleitorado reconhecesse que a vida individual pertencia a cada um e que a responsabilidade de vivê-la não poderia ser exercida por qualquer outra pessoa, menos ainda pelo Estado. Thatcher esperava libertar o talento e a iniciativa que acreditava ainda existirem na sociedade britânica, apesar das décadas de conversa fiada igualitária. A situação que herdou era simbolizada pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico Nacional (CDEN), criado em 1962 por um governo conservadorh fraco, para gerir a decadência econômica do país. Composto por figurões da indústria e do serviço público, o "Neddy ", como era conhecido o CDEN, dedicou-se a perpetuar a ilusão de que o país estava em "mãos seguras", de que havia um plano, de que os administradores, políticos e líderes sindicais estavam nisso juntos e trabalhando para o bem comum. Foi oexemplo perfeito do sistema político britânico do pós-guerra, que tratou dos problemas nacionais nomeando comitês compostos pelas pessoas que os causaram. A ideia que regia o Neddy era a de que a vida econômica consistia na gestão das indústrias em funcionamento, e não na criação de novas empresas. Harold Wilson, Edward Heath e James Callaghan fiavam-se no Neddy para confirmar a crença que compartilhavam de que, caso a situação fosse mantida por tempo suficiente, as coisas dariam certo e qualquer culpa recairia sobre o sucessor. Por outro lado, Margaret Thatcher acreditava que, tanto nos negócios quanto na política, a responsabilidade terminava por aqui. Em uma economia livre, a pessoa importante não é o administrador, mas o empreendedor — aquele que assume e enfrenta os riscos do negócio. Se Thatcher fosse bem-sucedida em substituir uma economia de administração estatal e de interesses escusos por uma de empreendedorismo e risco poderia, naturalmente, colocar a primeira em xeque. Ao liberar o mercado de trabalho, poria a economia em uma escalada ascendente. O resultado de longo prazo, contudo, foi a emergência de uma nova classe gerencial, visto que as multinacionais agiam com as ofertas públicas de aquisição, os privilégios legais e seus lobistas transnacionais, de quem os pequenos empresários e empreendedores são os inimigos. Aqueles que contestavam esse novo modelo gerencial (sou um deles), não obstante, deveriam reconhecer que aquilo que é ruim nesse modelo é precisamente o que era ruim na velha economia corporativista que Thatcher pretendia destruir. Quando ela afirmou que os empreendedores criavam coisas, ao passo que os gestores públicos as sepultavam, logo ficou evidente que ela estava certa, uma vez que todas as consequências da cultura de gestão estatal estavam ao nosso redor. Digo que isso logo havia ficado evidente, mas não para a classe intelectual, que continua até hoje muitíssimo devotada ao consenso do pós-guerra. A ideia do Estado como uma figura paterna benigna, que aloca os ativos coletivos da sociedade para o lugar onde são necessários, e que está sempre presente para nos retirar da pobreza, da doença ou do desemprego, manteve-se no primeiro plano da ciência política acadêmica na Grã-Bretanha. No dia da morte de Margaret Thatcher, eu estava preparando uma aula de Filosofia Política na Universidade de St. Andrews. Estava interessado em identificar o que o texto recomendado identificava como algo chamado de a Nova Direita, associado pelo autor a Thatcher e Reagan, como uma investida radical sobre os membros vulneráveis da sociedade. O autor supunha que a principal incumbência do governo é a de distribuir a riqueza coletiva da sociedade entre seus membros e que, em matéria de distribuição, o governo é deveras competente. O fato de que a riqueza só pode ser distribuída caso antes tenha sido criada parecia escapar à sua observação. Naturalmente, Thatcher não era uma intelectual, e tinha por motivação mais o instinto do que uma filosofia elaborada. Pressionada por argumentos, ela pendia muito rapidamente para a economia de mercado e ignorava as raízes mais profundas do conservadorismo na teoria e na prática da sociedade civil. Seu comentário breve de que "essa coisa de sociedade não existe" foi alegremente apoderado pelos meus colegas de universidade como prova de seu individualismo crasso, de sua ignorância sobre filosofia social, e de sua fidelidade aos valores da nova geração de empresários que poderiam ser resumidos em três palavras: dinheiro, dinheiro, dinheiro. Efetivamente, o que Thatcher quis dizer naquela ocasião era bastante verdadeiro, embora seja o oposto do que disse. Quis dizer que a sociedade existia, mas que não era equivalente ao Estado. A sociedade é formada por indivíduos que se associam livremente e formam comunidades de interesse que os socialistas não têm o direito de controlar nem qualquer autoridade legal para proibir. No entanto, expressar-se dessa forma não era o estilo de Thatcher, nem era o que os correligionários esperavam dela. O que o público britânico queria, e tinha, era o tipo de político instintivo que as pessoas poderiam ver dirigindo-se à nação, não importando se tivesse ou não um cabedal adequado de argumentos abstratos. Há de se entender que Thatcher sentira os ventos do escárnio intelectual que ao seu redor e se protegeu atrás de uma guarda pretoriana de conselheiros econômicos versados em "soluções de mercado", "economia pelo lado da oferta", "soberania do consumidor" e assim por diante. Entretanto, aqueles slogans da moda não apreendiam o núcleo de suas crenças. Todos os seus discursos mais importantes, assim como as suas políticas imperecíveis, provinham de uma consciência de lealdade nacional. Ela acreditava no país e nas instituições, e as via como a personificação dos afetos sociais cultivados e acumulados ao longo dos séculos. Família, associação civil, a religião cristã e o common law estavam integrados em seu ideal de liberdade sob a lei. A desvantagem é que ela não tinha uma filosofia com que pudesse articular esse ideal, de modo que o "thatcherismo" veio a simbolizar um tipo de caricatura do pensamento conservador criado pela esquerda com o objetivo de ridicularizar a direita. Não que Thatcher não tivesse influência sobre os seus críticos esquerdistas. Ela mudou tanto as coisas que foi impossível ao Partido Trabalhista enroscar-se novamente nas teias de aranha vitorianas: a Cláusula IV (o compromisso com uma economia socialista) foi retirada do estatuto e emergiu uma nova classe média do partido, sem nada preservar da antiga ordem do dia além do desejo da classe alta e a crença de que o modo de fazê-lo seria proibir a caça à raposa, o que consumiu 220 horas no Parlamento durante o governo de Tony Blair (que se permitiu apenas dezoito horas de discussão antes de decidir pela entrada na guerra no Iraque). Na época, porém, o que era percebido mais intensamente não era o impacto de Thatcher na política interna, mas a sua presença no cenário internacional. O compromisso com a Aliança Atlântica e a prontidão para estar lado a lado com o presidente Reagan em oposição à ameaça soviética alteraram completamente a atmosfera no Leste Europeu. De repente, pessoas que tinham sido humilhadas e subjugadas pela rotina totalitária ficaram sabendo que havia líderes ocidentais preparados para pressionar por sua libertação. John O'Sullivan argumenta vigorosamente que a presença simultânea de Reagan, Thatcher e do papa João Paulo II nos mais altos cargos políticos foi a causa do colapso soviético.3 Minha própria experiência confirma essa tese. Foi nessa época que experimentei um novo despertar político. Durante os anos de 1970, trabalhei com um grupo de amigos para criar o "Grupo de Filosofia Conservadora", com a intenção de reunir parlamentares, jornalistas conservadores e acadêmicos para discutir os fundamentos da cosmovisão que partilhavam. Em seguida, em 1979, escrevi The Meaning of Conservatism [O significado do conservadorismo] — uma tentativa impetuosa de contrariar a ideologia de livre mercado dos think tanks thatcheristas.i Queria recordar aos conservadores que existe essa tal sociedade, e que sociedade é a razão de ser do conservadorismo. Acreditava que "liberdade" não era uma resposta clara ou adequada para a pergunta a respeito do que os conservadores acreditavam. Assim como Matthew Arnold, considerava que a "liberdade é um cavalo muito bom para cavalgar, mas para levar algures". Não havia me preocupado em imaginar, durante os anos de ascensão de Thatcher, o que aconteceria com o nosso mundo, ainda confortável e seguro, caso todas as liberdades básicas fossem suprimidas. Estava encasulado na falsa segurança de uma ilha introspectiva sem conhecimento a respeito do império do medo e da negação que os comunistas implantaram muito perto de nós, a Leste.
Uma visita à Polônia e à Tchecoslováquia em 1979 despertou-me para a realidade. Encontrei em primeira mão aquilo que Orwell percebeu quando combateu ao lado dos comunistas na Guerra Civil Espanhola e que retratou em imagens reveladoras no livro 1984. Vi tornarem-se realidade as obras de ficção que inundavam as mentes de meus colegas marxistas. Entrei em Hobsbawmiak e senti o feitiço maligno de um mundo totalmente desiludido. Fui convidado para proferir uma palestra em um seminário particular em Praga. Esse seminário foi organizado por Julius Tomin, um filósofo local que tirou partido dos Acordos de Helsinque de 1975, que supostamente obrigava o governo tchecoslovaco a apoiar a liberdade de informação e os direitos básicos estabelecidos pela Carta das Nações Unidas. Os Acordos de Helsinque eram uma farsa usada pelos comunistas para identificar potenciais desordeiros, ao passo que apresentavam uma fachada de governo civilizado para os intelectuais crédulos do Ocidente. Entretanto, fui informado de que o seminário do dr. Tomin era realizado com regularidade, que minha participação seria bem-vinda e que estavam realmente me aguardando.
Cheguei ao local, após caminhar por aquelas ruas silenciosas e desertas nas quais os poucos transeuntes pareciam ocupados com algum negócio oficial obscuro e onde slogans partidários e símbolos desfiguravam cada edificação. A escada do prédio também estava deserta. Por toda parte o mesmo silêncio expectante pairava no ar, como se fora anunciado um ataque aéreo e a cidade se protegesse da destruição iminente. No lado de fora do apartamento, porém, encontrei dois policiais, que me abordaram ao tocar a campainha e exigiram documentos. Dr. Tomin apareceu e houve um desentendimento, no decorrer do qual fui empurrado escada abaixo. Entretanto, a discussão prosseguiu e consegui abrir caminho novamente, passar pelos guardas e entrar no apartamento.
Encontrei a sala repleta de pessoas e o mesmo silêncio expectante. Percebi que teríamos, sem dúvida, um ataque aéreo, e que eu era esse ataque aéreo. Naquela sala estavam os exauridos remanescentes da intelectualidade de Praga — velhos professores de coletes surrados; poetas de cabelos longos; estudantes com cara de calouros que tiveram negada a entrada na universidade em virtude dos "crimes" políticos cometidos por seus pais; padres e religiosos à paisana; romancistas e teólogos; um aspirante a rabino; até um psicanalista. Em todos vi as mesmas marcas de sofrimento abrandado pela esperança e a mesma avidez desejosa por um sinal de que alguém se importasse o bastante para ajudálos. Todos pertenciam, descobri, à mesma profissão: fornalheiro. Alguns alimentavam fornalhas em hospitais; outros em blocos de apartamentos; um na estação ferroviária, outro em uma escola. Alguns trabalhavam onde não havia caldeira para alimentar a fornalha e essas caldeiras imaginárias passaram a ser para mim um símbolo apropriado da economia comunista.
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COMO SER UM CONSERVADOR
DiversosLIVRO ESCRITO POR ROGER SCRUTON. O filósofo político inglês Roger Scruton construiu sua reputação ao empregar a sua inteligência na reflexão e divulgação do pensamento conservador. É um pensador que sabe conjugar de forma exemplar um raciocínio pr...
