A VERDADE NO SOCIALISMO [PT 2]

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Se uma pessoa me prejudica, tenho queixa contra ela: quero justiça, vingança

ou, pelo menos, um pedido de desculpas e uma tentativa de fazer as pazes. Esse

tipo de descontentamento se dá entre mim e a pessoa, e, se agirmos

corretamente, pode ser a oportunidade para uma aproximação. A maneira de

pensar do jogo de soma zero não se dá assim. Não parte do dano, mas do

desapontamento. Busca por algum êxito contrastante a que possa atribuir

ressentimento. E só funciona quando prova para si mesma que o sucesso do outro

foi a causa do próprio fracasso. Os que depositaram as esperanças em algum

estado de bem-aventurança futura acabarão, na maioria das vezes, por

apresentar queixas transferíveis desse tipo, e as carregam por aí, prontos para

atribuí-las a todas as satisfações observadas, e a culpar o bem-sucedido com o

intuito de explicar o próprio fracasso, que de outro modo seria inexplicável.

Os gregos acreditavam, ao destacar-se acima do nível medíocre permitido

pelos deuses invejosos, que o indivíduo adulto provoca a ira divina — essa é a

culpa da hubris. Ao acreditarem nisso, podiam, livres de culpa, nutrir

ressentimento. Poderiam exilar os cidadãos mais destacados ou condená-los à

morte acreditando que, ao fazê-lo, estavam apenas cumprindo o julgamento dos

deuses. Dessa maneira, o grande general Aristides, que foi um dos maiores

responsáveis pela vitória contra os persas em Maratona e Salamina,

cognominado "o Justo" pela conduta exemplar e abnegada, foi condenado ao

ostracismo e exilado pelos cidadãos de Atenas. Plutarco registrou que um eleitor

iletrado, que não sabia quem era Aristides, foi até este e pediu-lhe que escrevesse

esse nome no caco de cerâmica para que pudesse votar. Sem identificar-se,

Aristides perguntou ao cidadão se aquele Aristides, em quem votaria, o havia

ofendido. "Não", foi a resposta, "e eu nem o conheço, mas estou farto de ouvir

em todo lugar a respeito do 'Justo'". Após ouvir o cidadão, Aristides, que era

justo, escreveu o próprio nome no caco de cerâmica.

Pessoas cautelosas podem não concordar com Nietzsche de que o

ressentimento é o ponto de partida das emoções sociais. Reconhecerão, todavia,

sua onipresença e propensão a reforçar as esperanças e a inocular a peçonha

pelos usos da falácia do jogo de soma zero em próprio proveito. As maneiras de

pensar desse jogo parecem surgir espontaneamente nas comunidades modernas

onde quer que se façam sentir as consequências da concorrência e da

cooperação. A Revolução Russa de outubro não atingiu somente o governo de

Alexander Kerensky. Alvejou o bem-sucedido, aquele que teve êxito em se

destacar de seus contemporâneos. Em cada área e em cada instituição, os que se

COMO SER UM CONSERVADORHistórias para pegar e não largar. Descubra agora