Quando os revolucionários franceses irromperam no palco da política mundial,
foi com a declaração de que dali em diante não seria mais a soberania, ou a lei,
ou a divindade que comandariam a lealdade do cidadão, mas a nação. O abade
Sieyès, no panfleto insuflador O que é o Terceiro Estado? de 1789, exprimiu a
questão de maneira sucinta: "A nação existe antes de tudo, ela é a origem de
tudo. Sua vontade é sempre legal [...]. Qualquer que seja a forma que a nação
quiser, basta que ela queira; todas as formas são boas, e sua vontade é sempre a
lei suprema." Vinte anos mais tarde e dois milhões de mortos depois, quando a
vontade da nação francesa foi disseminada pela Europa pelas conquistas de
Napoleão, ficou claro que uma concepção de vida política completamente nova
adentrou a consciência dos europeus. Em todo o continente, movimentos
nacionalistas conclamavam as pessoas para preparar-se para a guerra contra as
monarquias locais e as comunidades imperiais, incitando-as para uma ação em
conjunto em nome de ideias fictícias de raça e de consanguinidade, defendendo
uma língua em oposição a outra, e um modo de vida contra o do próximo, e, em
geral, desestabilizando tudo o que restou para ser desestabilizado depois da
desordem provocada por Napoleão.
A devastação resultante foi descrita por Adam Zamoy ski, em Holy Madness
[Santa loucura], e foi objeto de comentários infindáveis de historiadores em
busca das origens das duas guerras mundiais. No momento em que a paz foi
estabelecida após 1945, com a Alemanha em ruínas e os Estados-nação do Leste
Europeu sob rígido controle soviético, uma espécie de consenso foi surgindo entre
a nova classe política — categoria que foi incumbida de reconstruir as nações
derrotadas. Segundo esse consenso, a Europa foi dilacerada pelo nacionalismo e
o futuro do continente poderia ser garantido somente se as lealdades nacionais,
que provocaram tanta beligerância, fossem serena e discretamente substituídas
por outra coisa. O que exatamente essa outra coisa devia ser, isso era uma questão diferente, e esse problema foi enterrado tão profundamente no processo
de integração europeia que não é mais possível responder a ela.
Entretanto, a reação contra o nacionalismo era correta? Respondendo
laconicamente à minha indagação: nacionalismo, como uma ideologia, é
perigoso apenas à medida que as ideologias são perigosas. Ocupa o espaço
deixado vago pela religião e, ao fazê-lo, estimula o verdadeiro crente a venerar a
ideia nacionalista e a buscar nesta concepção aquilo que ela não pode oferecer
— o propósito último da vida, o caminho da redenção e o consolo para todas as
aflições. Essa é a ideia nacional tal como Siey ès a evocou e tal como aparece na
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COMO SER UM CONSERVADOR
RandomLIVRO ESCRITO POR ROGER SCRUTON. O filósofo político inglês Roger Scruton construiu sua reputação ao empregar a sua inteligência na reflexão e divulgação do pensamento conservador. É um pensador que sabe conjugar de forma exemplar um raciocínio pr...
