Em suma, o contrato social requer uma relação de filiação como membro de uma sociedade.
Teóricos do contrato social escrevem como se isso presumisse somente uma
escolha racional livre na primeira pessoa do singular. De fato, pressupõe uma
primeira pessoa do plural que já tenha aceito o ônus de pertencer à sociedade.
Mesmo no caso norte-americano, em que foi tomada uma decisão de adotar
uma constituição e criar uma jurisdição ab initio, ainda assim é verdade que uma
primeira pessoa do plural estava envolvida nessa elaboração. Isso é reconhecido
no próprio documento. "Nós, o povo (...)." Que povo? Ora, nós, que já
pertencemos à sociedade cujo vínculo histórico agora está reproduzido na lei. Só
faz sentido o contrato social na hipótese de haver algum tipo de "nós" précontratual.
Sendo assim, quem deve ser incluído no contrato? E por quê? E o que
fazemos com aquele que decide não participar? A resposta óbvia é que os
fundadores da nova ordem social já fazem parte dessa relação contratual: já se
concebiam como uma comunidade por um longo processo de interação social
que permitiu ao povo determinar quem deveria ou quem não deveria tomar parte
em seu futuro.
Além disso, o contrato social só faz sentido se as gerações futuras forem
incluídas. O propósito é estabelecer uma sociedade duradoura. De uma vez só,
portanto, surge aquela rede de obrigações não contratuais que vincula os pais aos
filhos e os filhos aos pais, e que assegura, quer queira quer não, que dentro de
uma geração a sociedade seja afetada pelos membros sem direito a voto, pelos
mortos e pelos nascituros, que contarão com algo diferente do que um mero
contrato entre os vivos se os direitos forem respeitados e o amor for digno.
Mesmo quando surge, como nos Estados Unidos, uma ideia de "nacionalidade
eletiva", para que os recém-chegados possam escolher pertencer, aquilo que é
escolhido não é exatamente um contrato, mas um compromisso na qualidade de
membro, cujas obrigações e privilégios transcendem qualquer coisa que possa
estar incluída em um acordo passível de anulação.
Não pode haver uma sociedade sem essa experiência de adesão à qualidade
de membro. É isso que me permite considerar os interesses e as necessidades de
desconhecidos como assuntos que me dizem respeito; que me permite
reconhecer a autoridade das decisões e das leis a que devo obedecer, mesmo que
estas não estejam ligadas diretamente aos meus interesses; que oferece um
critério para distinguir entre os que têm direito ao benefício dos sacrifícios que a
minha qualidade de membro exige de mim daqueles que são intrusos. Retiremos
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COMO SER UM CONSERVADOR
De TodoLIVRO ESCRITO POR ROGER SCRUTON. O filósofo político inglês Roger Scruton construiu sua reputação ao empregar a sua inteligência na reflexão e divulgação do pensamento conservador. É um pensador que sabe conjugar de forma exemplar um raciocínio pr...
