ADEUS MÃE - TRAUMAS E PERDÃO (PARTE 2)

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– Filho, sou eu, a sua mãe.– Mãe? Pensei que você estava morta, você está muito machucada?– Estou sim filho, não consigo me levantar, minhas pernas estão muito feridas, estou sangrando muito. Você está bem?– Estou sim, eu tive sorte, assim que eu vi que as pessoas estavam agindo de forma estranha, eu fechei a porta para ninguém entrar.– Graças a Deus filho, você fez muito bem, por um breve momento eu também achei que você estava morto. Você não consegue abrir a porta?– Infelizmente não. Está tudo escuro aqui dentro e não me lembro onde eu coloquei a chave. Está escuro ai também mãe?– Sim, a força foi desligada em toda a estação, eu também não consigo ver nada.– Mãe, você sabe onde está a tia? Ela havia saído antes da confusão ter começado. Você acha que ela não conseguiu sobreviver?– Ainda não sei Breno. Eu não consigo ouvir mais ninguém. Acho que realmente só nós dois permanecemos vivos. Filho, eu não sei se conseguirei sair viva desse lugar, não sei se verei seu rosto novamente. Então eu gostaria de te contar uma coisa, não posso morrer com esse peso em minha alma, durante anos eu venho carregando essa culpa em mim...– Mãe, não precisa pedir desculpa por nada, eu sempre te amei, não a nada pra se desculpar comigo..– Sim filho, é necessário, eu preciso tirar essa angustia da minha alma, preciso me livrar dessa dolorida dor dentro de mim..– Não estou entendendo mãe? O que aconteceu? Pela sua voz você parece um pouco nervosa? O que está te assustando mãe?– Não é fácil pra mim......eu nunca fui muito de revelar meus sentimentos.....sei que poucas vezes eu lhe disse que te amava.....mas quero que saiba que sempre te amei, você é a minha maior riqueza filho..– Por favor mãe, não se culpe por isso, não fique triste por essa razão, eu sei que você sempre me amou, você sempre foi muito boa comigo...– Filho, você me promete que não importa o que eu lhe disser, você vai me perdoar?...– Claro mãe, claro que te perdoarei, mas o que você está querendo me dizer? O que é tão difícil assim pra você me contar?....– Ah Breno, tenho medo da sua reação, mas sei que é necessário, não da mais para ficar te escondendo isso....– Escondendo o que mãe? O que houve? Não tenha medo, eu te amo, nunca deixarei de te amar, pode me contar....– Filho......eu não sou a sua mãe verdadeira......– Você o que?.....Você não é a minha mãe?.....Como assim? Eu não sou seu filho? Mas....Neste momento, um doloroso silêncio permanece por alguns segundos, Breno está em choque pelo que acabou de escutar. O coração de Nayane acelera de tensão por finalmente ter tido coragem de fazer essa revelação, mas Breno não quer acreditar no que acabou de ouvir, pois é um peso muito grande pra ele suportar, e inevitavelmente a Nayane começa a chorar....– ...Mas se você não é minha mãe, então quem você é? Ela está viva? E porque você me fez acreditar nessa mentira em todo esse tempo? Porque meu pai nunca me contou a verdade?..– Breno....a sua verdadeira mãe está morta....ela morreu quando você tinha menos de um ano. Eu era a amante de seu pai. Quando ele largou a sua mãe e veio morar comigo, ele trouxe você junto com ele, e eu cuidei de você como se você fosse o meu verdadeiro filho. Te amei, te eduquei, te tratei como uma boa mãe.....mas quando eu descobri o que seu pai tinha feito com a sua verdadeira mãe, eu o abandonei....por isso nos separamos antes da morte dele....– Mas o que meu pai fez? Então você também mentiu sobre a separação de vocês....então me diga a verdade....o que ele fez?...– ..ele matou a sua mãe....– Meu pai matou a minha mãe?....Você tem certeza disso?..– Sim Breno....isso aconteceu em uma discussão entre eles, o relacionamento dos dois já vinha a um bom tempo sendo marcado por brigas e desentendimentos, mas ela não queria aceitar o divórcio, seu pai também escondeu isso de mim, quando eu descobri a verdade eu não consegui mais viver ao lado dele sabendo de tudo isso. Ele havia me dito que tinha se separado dela, ele mentiu pra mim.....sei que é difícil pra você aceitar isso, eu ia lhe revelar a verdade assim que começamos a morar juntos, depois que seu pai faleceu....mas não tive forças, tive medo da sua reação. Por favor filho, não sei se ainda eu posso te chamar de filho.....mas me perdoe. Não quero morrer com essa maldita culpa dentro de mim....não quero mais sofrer por causa disso..Nayane não segura as lágrimas e continua chorando muito. Não foi fácil pra ela ter que contar sobre tudo isso. E para Breno, saber que seu pai matou a sua própria mãe é um baque muito pesado pra sua alma. E com uma profunda dor em seu peito, ele diz pra Nayane:– Não posso te impedir de me chamar de filho, pois também não conseguirei parar de te chamar de mãe.....sei que você e meu pai agiram errado, mas não posso negar que você sempre me amou e cuidou muito bem de mim, e vejo que você foi sincera ao se confessar comigo, e se arrepender do que fez, então não precisa mais chorar de dor, não sofra mais por isso.....eu te perdoo mãe.....eu te perdoo...– Filho....obrigada filho, muito obrigada mesmo, você não sabe o quanto isso foi importante pra mim, minha alma se sente mais leve agora, obrigada por aceitar meu pedido de perdão....eu te amo filho....eu sempre te amarei..– Você está perdoada mãe, você cumpriu a sua missão, você reconheceu o seu erro, eu senti a sinceridade em seu coração. Agora podemos nos encontrar novamente, e peço que me abrace com toda a sua força, eu agradeço por você ter cuidado de mim por todos esses anos, apesar de tudo, nunca faltou amor dentro de você..Neste momento, Nayane percebe uma forte luz surgir e desaparecer rapidamente dentro do quarto. E logo em seguida, a porta do quarto de Breno se abre lentamente, Nayane assustada chama por seu filho:– Breno? Você encontrou a chave filho? Está tudo bem? O que foi essa luz ai dentro?..Com muito sacrifício, ela tenta se rastejar até o quarto, quando no mesmo instante, de forma milagrosa, todas as luzes se ascendem novamente. O coração de Nayane se abala com a visão que ela tem.....uma grande tristeza cai sobre ela, o semblante de espanto lhe machuca por dentro, seu coração estremece de uma profunda dor.....ela vê o seu próprio corpo caído morto ali no corredor, no mesmo lugar onde ela havia perdido a consciência quando toda a confusão havia começado, e percebe que estava morta durante todo esse tempo..Desesperada ela vai se arrastando com as poucas forças que tem pra dentro do quarto de Breno, ela chama por ele mas ele não responde, ao entrar no quarto ela se depara com Breno morto ao lado da cama, ainda estava com os olhos abertos sem vida, olhando para ela, todo machucado, com marcas de agressão em seu rosto, e do outro lado do quarto ela percebe mais três corpos completamente desfigurados, e um deles é o da sua irmã.– Mas como isso é possível? – Pensa Nayane chorando muito..Com muita tristeza ela segue em direção dele, lentamente ela fecha os seus olhos e o abraça bem forte pela última vez, o único som que se ouve na estação é o seu choro de lamentação, sabendo que chegou o momento da despedida.Ao perceber e aceitar a sua morte, e entender a razão de tudo isso ter acontecido, de seu processo de redenção pessoal, surge dentro dela uma estranha paz, uma sensação de conforto, um sentimento de ter cumprido um objetivo, de ter realizado algo que faltava para ela poder descansar em paz.Depois disso ela levanta as mãos e se entrega aos céus em um rápido feixe de luz, na esperança de poder encontrar o seu filho mais uma vez no reino celestial, sabendo que agora partirá em paz, sem culpa, sem mágoa, sem pecado..Logo após a sua partida, inexplicavelmente as luzes se apagam novamente, o silêncio volta a predominar por todo lugar, toda a estação foi completamente dizimada, muitas vidas perdidas, muitos sonhos sepultados, agora não resta mais nada a não ser a solidão, mas Nayane conseguiu o seu perdão, finalmente partiu sem o peso que tanto a machucava.Descansará em paz agora ao lado de seu filho, o filho que ela tanto amou.

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