Amatis
Ao fim da tarde, Luke e Clary tinham deixado o lago para trás, e caminhavam sobre um gramado alto, amplo e aparentemente infinito. Aqui e ali, havia subidas mais leves em colinas cheias de pedras pretas no topo. Clary estava exausta de tanto subir e descer colinas, uma após a outra, os sapatos escorregando na grama úmida como se fosse mármore engordurado. Quando deixaram os campos para trás e chegaram a um estreito caminho de terra, estava com as mãos sangrando e sujas de grama.
Luke ia na frente dela, com passadas determinadas. Ocasionalmente apontava itens de interesse com uma voz sombria, como o guia turístico mais deprimido do mundo.
— Acabamos de cruzar o Plano Brocelind — disse ele enquanto escalavam uma subida, um conjunto de árvores se estendendo na direção oeste, onde o sol estava baixo. — Essa é a floresta. Antigamente, os bosques cobriam quase toda a terra baixa do país. Desmataram boa parte para abrir espaço para a cidade, e para se livrar de bandos de lobisomens e ninhos de vampiros que se agrupavam nela. A Floresta Brocelind sempre foi um esconderijo de integrantes do Submundo.Continuaram silenciosamente enquanto o caminho serpenteava pela floresta por diversos quilômetros antes de fazer uma curva abrupta. As árvores pareciam se afastar conforme uma elevação se revelava à frente eles, e Clary piscou quando andaram em torno de uma colina alta — a não ser que seus olhos estivessem enganando-a, havia casas ali. Pequenas fileiras brancas de casas, organizadas como uma vila de anões.
— Chegamos! — exclamou Clary, e correu para a frente, parando apenas ao perceber que Luke não estava ao seu lado.
Virou-se e o viu no meio da estrada empoeirada, balançando a cabeça. — Não — disse ele, indo em sua direção. — Não é a cidade.— Então é uma vila? Você disse que não havia vilas por aqui...
— É um cemitério. É a Cidade dos Ossos de Alicante. Você achou que a Cidade dos Ossos fosse o único jazigo perpétuo que temos? — Ele parecia triste. — Esta aqui é a necrópole, o lugar onde enterramos os que morrem em Idris. Você vai ver. Temos que passar por aqui para chegar a Alicante.
Clary não ia a um cemitério desde a noite em que Simon tinha morrido, e a lembrança a fez estremecer conforme passava pelas fileiras estreitas que costuravam os mausoléus como laços brancos. Alguém cuidava do local: o mármore brilhava como se recentemente esfregado e a grama estava cuidadosamente cortada. Havia muitas flores brancas aqui e ali nos túmulos; primeiramente achou que fossem lírios, mas tinham um aroma apimentado, desconhecido, que a fez se perguntar se seriam específicas de Idris. Cada tumba parecia uma casinha; algumas até tinham portões de metal ou arame, e os nomes das famílias de Caçadores de Sombras entalhados nas portas. CARTWRIGHT. MERRYWEATHER. HIGHTOWER. BLACKWELL. MIDWINTER... Ela parou em um: HERONDALE. Voltou-se para Luke.
— Esse era o nome da Inquisidora.
— É o túmulo da família dela. Veja — apontou.
Ao lado da porta havia letras brancas entalhadas no mármore cinza. Eram nomes. MARCUS HERONDALE. STEPHEN HERONDALE. Ambos tinham morrido no mesmo ano. Por mais que Clary detestasse a Inquisidora, sentiu alguma coisa se contorcer dentro de si, um sentimento de pena que não conseguia conter. Perder o marido e o filho, em datas tão próximas... três palavras em latim estavam sob o nome de Stephen: AVE ATQUE VALE.
— O que significa isso? — perguntou, olhando para Luke.
— Significa “Saudações e adeus”. É de um poema de Catulo. Em algum momento virou o que os Caçadores de Sombras dizem em funerais, ou quando alguém morre em batalha. Agora vamos, é melhor não pensar muito nessas coisas, Clary. — Luke pegou o ombro da menina e a levou gentilmente para longe do túmulo.
Talvez ele estivesse certo, pensou Clary. Talvez fosse melhor não pensar muito em morte ou em morrer agora. Tentou distrair o olhar enquanto passavam pela necrópole. Estavam quase ultrapassando os portões de ferro no final quando ela viu um mausoléu menor, surgindo como um cogumelo branco à sombra de um carvalho folhoso. O nome acima da porta se destacou para ela como se tivesse sido escrito com luzes. FAIRCHILD.
— Clary... — Luke tentou segurá-la, mas ela já tinha ido. Com um suspiro, ele foi atrás, até a sombra da árvore onde ela estava hipnotizada, lendo os nomes dos avós e bisavós que nunca soube que tinha. ALOYSIUS FAIRCHILD. ADELE FAIRCHILD, NASCIDA NIGHTSHADE. GRANVILLE FAIRCHILD. E abaixo de todos: JOCELYN MORGENSTERN, NASCIDA FAIRCHILD.
Uma onda de frio se abateu sobre Clary. Ver o nome da mãe ali era como revisitar os pesadelos que às vezes tinha, nos quais estava no enterro da mãe e ninguém sabia dizer o que acontecera, ou como sua mãe havia morrido.
— Mas ela não está morta — disse ela, olhando para Luke. — Ela não está...
— A Clave não sabia disso — falou gentilmente.
Clary arfou. Não podia mais ouvir a voz de Luke ou vê-lo à sua frente. Diante dela erguia- se um sopé desigual, com túmulos saindo da terra como ossos quebrados. Uma lápide preta surgiu diante dela, com letras tortas esculpidas: CLARISSA MORGENSTERN, 1991 — 2007. Sob as palavras um desenho de criança malfeito mostrava uma caveira com olhos enormes. Clary cambaleou para trás com um grito. Luke a segurou pelos ombros. — Clary, o que foi? O que há de errado? Ela apontou. — Ali... olha... Mas não estava mais lá. A grama se estendia diante dela, verde e lisa, os mausoléus brancos e limpos, em fileiras organizadas. Clary virou-se para olhar para Luke. — Vi minha própria lápide — disse. — Dizia que eu ia morrer, agora, este ano. — Estremeceu.
Luke parecia austero.
— É a água do lago — disse ele. — Você está começando a ter alucinações. Vamos, não temos muito tempo.
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Filha de Valentine
Fanfiction-Você não sabe nada sobre mim -Sei sim -não, não sabe Porque nessa história nada é o que parece.