capítulo 12: te ensino a lutar

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- Iam me matar de fome - disse Simon.

Estava deitado no chão da cela, a pedra fria sob as costas. Mas daquele ângulo, podia ver
o sol pela janela. Nos dias que se seguiram à transformação de Simon em vampiro, quando pensava que jamais voltaria a ver a luz do sol, se pegou pensando incessantemente nele e no céu. Sobre como a cor do céu mudava durante o dia: sobre o céu claro da manhã, o azul quente do meio-dia, e o tom de cobalto da escuridão do crepúsculo. Deitava-se acordado na escuridão, uma procissão de azul marchando por seu cérebro. Agora, deitado de costas na cela sob o Gard, imaginava se a luz do sol e tantos azuis lhe haviam sido restituídos só para que pudesse passar o desagradável resto da vida neste pequeno espaço com apenas um corte do céu visível através da janela de grade na parede.

- Você ouviu o que eu disse? - Levantou a voz. - se aquela mulher não voltar o Inquisidor vai me matar de fome. Nada de sangue.

Fez-se um barulho de movimentação. Um suspiro audível. Então Samuel falou:

- Ouvi. Só não sei o que quer que eu faça a respeito. - Fez uma pausa. - Sinto muito, Diurno, se for de alguma ajuda.

- Na verdade, não - disse Simon. - O Inquisidor quer que eu minta. Quer que eu diga a ele que os Lightwood estão compactuando com Valentim. Aí ele me mandaria para casa. - Rolou de bruços, as pedras arranhando sua pele. - Deixe para lá. Não sei por que estou contando isso tudo. Você provavelmente não faz ideia do que estou falando.

Samuel emitiu um ruído, algo entre uma risada e uma tossida.

- Na verdade, sei sim. Conheci os Lightwood. Fazíamos parte do Ciclo juntos. Os Lightwood, os Wayland, os Pangborn, os Herondale, os Penhallow. Todas as boas famílias de Alicante.

- E Hodge Starkweather - disse Simon, pensando no tutor dos Lightwood. - Ele também fazia, não?

- Fazia - disse Samuel. - Mas a família dele não era nada respeitada. Hodge se mostrou promissor outrora, mas temo que jamais tenha correspondido às expectativas. - Fez mais uma pausa. - Aldertree sempre detestou os Lightwood, é claro, desde que éramos crianças. Não era rico, inteligente ou bonito, e, bem, eles não eram muito gentis com ele. Acho que ele nunca superou.

- Rico? - disse Simon. - Pensei que todos os Caçadores de Sombras fossem pagos pela Clave. Como... sei lá, num regime comunista ou coisa do tipo.

- Teoricamente, todos os Caçadores de Sombras são justa e igualmente remunerados - disse Samuel. - Alguns, como aqueles com posições mais altas na Clave, ou aqueles com grande responsabilidade, os que comandam um Instituto, por exemplo, recebem um salário maior. E tem também aqueles que vivem fora de Idris e optam por ganhar dinheiro mundano; não é proibido, desde que paguem uma fração para a Clave. Mas... - Samuel hesitou - você viu a casa dos Penhallow, não viu? O que achou? Simon tentou recuperar a lembrança.

- Muito chique.

- É uma das melhores casas de Alicante - disse Samuel. - E eles têm outra, uma mansão no campo. Quase todas as famílias ricas têm. Veja bem, para os Nephilim, existe outra maneira de adquirir riqueza. Eles chamam de "espólio". Qualquer coisa que pertencesse a um demônio ou a um integrante do Submundo morto por um Caçador de Sombras se torna propriedade deste. Então se um feiticeiro rico transgride a Lei e é morto por um Nephilim...

Simon estremeceu.

- Então matar integrantes do Submundo é um negócio lucrativo?

- Pode ser - disse Samuel, amargo -, se você não ficar escolhendo muito quem mata. Dá para entender por que há tanta oposição aos acordos. Atinge o bolso, ser obrigado a ter cuidado com o assassinato de membros do Submundo. Talvez tenha sido por isso que me juntei ao Ciclo. Minha família nunca foi rica, e ser menosprezado por não aceitar dinheiro de sangue... - interrompeu-se.

Filha de ValentineHistórias para pegar e não largar. Descubra agora