Motivos para tentar (Narrador)

174 27 8
                                        

4 meses depois

Ezra encarou a Hanna sentada de frente ao computador como se as coisas estivessem normais. Talvez, há muito tempo, quando ele era um bebê recém-nascido e era capaz de sorrir, as coisas sim, eram normais. Não agora que ele não tem se quer o melhor amigo para dividir os comentários mais bobos e engraçados possíveis. O primeiro sinal de que havia dado tudo errado teria sido, com certeza, ele ter cometido um homicídio e ser a culpa de um suicídio. Ele estava tão fechado em si mesmo depois da perda de Draco. Haviam criado milhões de teorias sobre o porquê o garoto havia cometido aquele ato horripilante. Ele falava sobre, enquanto Hanna estava pedindo seu silêncio. Ele suportava a presença da garota que jurava ser o cúmulo da razão dele não ter mais com quem conversar.

─ Já entrou alguma vez no blog do Draco? ─ Hanna perguntou enquanto digitava no google. Mas, mesmo assim, se recusava a colocar as mãos nas coisas de Malfoy que eram presentes no abrigo de Ezra. Ela falava e falava sobre isso, mas Ezra parecia não se importar, ou talvez seu senso de lealdade superasse sua aversão. Ele estava tão silencioso e sozinhos quanto um navio no oceano Pacífico. ─ Ezra?


─ O que quer? ─ Rebateu em tom quase tão áspero quanto a língua de um gato. Em defensiva Hanna ficou quieta e negou com a cabeça como se pedisse para que ele ignorasse. E ele ignorou. Então a garota com medo do que estava por vir começou a lentura. O blog pessoal de Draco havia apenas 7 visitas, e mesmo assim era lotada de diversas cartas e diálogos. Era a única coisa que ele deixou para os amigos.
Hanna não está mais com Caleb. Percebeu tarde demais que o garoto em que realmente amava e que queria passar o resto da vida estava morto a sete palmos de chão.

" Querida, Hanna.

Eu to dizendo palavras bonitas e melancólicas porque você me tornou mais presunçoso do que eu costumava ser. Não que dormir com a porta do dormitório destrancada e no tapete, por não querer arrumar a cama, que está intacta desde a última vez que transamos, te torne uma má pessoa. Se duvidar, ainda deve ter sêmen pelo cobertor azul que você arrastou numa noite fria para meu quarto. Eu não te odeio por ter partido meu coração. Eu te odeio por ter acabado com a expectativa de vida que eu havia conseguido imaginar quando você entrou na minha vida. Na verdade, vir para Rosewood apenas fudeu minha vida. Quer dizer, quando eu cheguei aqui eu era o garoto desejável. As garotas gostavam do sotaque britânico, amavam passar a mão em meu cabelo preto, eu senti que poderia esquecer meus pais por mais que momentâneo fosse. Ah! Antes que eu me esqueça, deixe eu falar sobre meus pais. Como já é de perceber eu sou britânico, intuitamente deve ter imaginado que meus pais também são e que moravam junto a mim em Londres. Bom, está enganada. Eu fui emancipado aos 13 anos porquê meus pais decidiram que era muito dificil cuidar de mim, já que fui um erro de cálculo. Um deslize. Eles nunca me amaram, Hanna. Nem do dia que eu nasci até o de minha morte, cujo acredito que já tenha acontecido para você estar lendo meu blog. Mamãe nunca me deixou chama-la de mamãe, porque ela nunca desejou um filho para que eu lembrasse ela constantemente sobre isso. Meu pai já pelo contrário, sempre preferiu que eu lembrasse ele sobre isso, assim foderia de camisinha com a vizinha. Que sempre pareceu muito bem casada com o Mr. Harris. Mark, se estiver lendo isso e ainda estiver junto da vadia de sua esposa, eu sinto muito por todas as vezes que ela fugiu na madrugada para trepar com meu pai na garagem de minha casa. Na primeira vez que eu os vi junto eu estava procurando meu telescópio que misteriosamente sumiu da varanda de meu quarto. Se estiver se perguntando sobre barulhos, sim, havia muitos. Ela gemia como uma cadela. Mas eu era inocente demais para entender que barulho era aquele... continuando. Doris, a vizinha, estava transando com papai dentro da Ferrari que eu nunca pude tocar. Eu chorei, sabe? E comecei a gritar porque ele estava fazendo aquilo com minha mãe. Porque casamento é amor eterno, certo? E eles são casados, então deveriam se amar eternamente. "Por que você está fazendo isso com a mamãe? Por quê papai?" Bom, minha mãe acordou e quando chegou a garagem ela viu os dois nus pelo vidro embaçado do carro. Meu pai me culpa até hoje pelo divórcio deles.
Dois anos depois eles me mandaram para Londres, eu achei que ela iria depois. Mas não. Eu fiquei numa casa imensa. Sozinho. Por cinco anos. A vizinha era professora, então sempre estudei em casa, afinal, tinha dinheiro para caralho sendo depositado sempre em minha conta.
Já assistiu o filme Esqueceram de mim? Então, eu estou preso dentro da repetição madilta desse filme. A diferença é que meus pais nunca voltaram pra casa e ninguém nunca se preocupou com isso. Ninguém nunca me amou. Eu tive que a conclusão que o humano é mortal por sentir demais aquilo que é perigoso. Quer dizer. Quando se vai ao zoológico há uma placa grande e amarela de perigo em todas as celas de animais. Sabemos que o gorila é perigo e por isso não entramos na jaula dele. Quem desafia a um gorila que pesa uma tonelada? Ninguém! Mas e sobre o amor? Por quê não há uma placa grande e neon dizendo o qual perigoso é amar alguém? Por quê mesmo sabendo todos os riscos nós desafiamos esse sentimento de merda? Nós gostamos de ser destruídos.
Quando VOCÊ, Hanna Marin, disse para mim que me amava no dia 22 - 04 - 2012. eu pensei. "Talvez eu possa abrir mão de todo o meu ego, todas as conclusões e teorias que criei e ama-la." Eu levei mais dois dias para olhar em seus olhos e dizer que você era a única coisa que me fazia acreditar que eu poderia ser feliz algum dia. Eu quase me dereti sobre a neve, ao me perder nos teus azuis oceânicos (olhos). "Eu também" você disse. Eu me senti tão feliz diante daquilo que quando cheguei no corredor não liguei pros gêmeos de frente ao meu quarto. Eu, carinhosamente pedi licença. Mas os DiLaurentis continuaram na minha frente. Dava pra ver em seus olhos a mesma raiva que sentiam quando me doparam no camp e me obrigaram a virar Draco. Eu apanhei tanto naquele dia, Hanna. Eles me fizeram ficar de cueca e chutaram minhas bolas cada vez que eu aclamava para me deixarem ir embora. Óbvio que William mandava-os fazer aquilo. Mas agora não havia mais William, o garoto sumiu. O que eles queriam de mim? Isso mesmo, respostas! Mas eu não podia dar o que eles queriam. Então eu apanhei, tanto que a pele dos meus joelhos se estoraram. Sim, é por isso que Alex me viu na farmácia as 5 da manhã. (Eu sei que estava comprando teste de gravidez para Spencer). Naquela mesma semana meu melhor amigo começou a dar surtos psicológicos e a professora que me dava aula em Londres morreu em um atentado quando foi em Israel. Mas eu ainda tinha motivos pra continuar, eu tinha você, e você era tudo que eu precisava.
Até que em uma noite tudo acabou. Ainda lembro da maquiagem escorrendo por suas bochechas quando disse que ainda amava Caleb. Eu não respondi. Você sabe disso, não sabe? Você escutou todos os murros que eu dei na coitada da porta. Cada foto que rasguei. Cada mínima coisa que eu quebrava porquê havia um pouco de você naquilo. Eu já estava quebrado mesmo. Derrepente todas nossas boas lembranças sumiram e tudo se transformou em dor. Olhar para você doía. Pensar em você doía. Mas o que mais doía era saber que você não é e nunca foi minha. Porque eu, Hanna, eu sempre fui seu. Bom, eu fui na festa da Alison, mas você sabe disso. Você estava lá com seu namorado. Sabe por que eu sumi? Porque me drogaram e o Ezra não estava lá para socar todos eles. Eu sei que o Toby viu e que o Alex cochichou com ele sobre me ajudar, mas ninguém movimentou um músculo para me salvar dos trogloditas que estavam colocando pílulas da felicidade na minha boca. Naquele dia eu parei de pestanejar, a droga me fazia esquecer você e isso era tudo que eu precisava. Esquecer sem ser esquecido. Amar as vezes é deixar ir e deixar ir é aceitar o qual insuficiente você é. Eu não tenho mais motivos pra viver. Eu não tenho motivos pra tentar."

Snow || EzriaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora