você vai me ver na faculdade e vai se lembrar de que eu já fui como você. você vai querer segurar meu braço, estender uma conversa sobre as mesas do refeitório, pedir desculpas por tudo. eu também vou querer, e vou tentar dizer que a gente erra feio às vezes. não erra? nas suposições, nas fantasias, nessa de ir querendo ser de alguém sendo que este alguém não quer ser nosso. e que tá tudo bem, não tá? porque a gente vai errar bastante nessa vida ainda. eu vou quebrar a cara até entender que eu preciso e mereço alguém completo, mas mesmo que eu entenda, vou errar de novo
e de novo
e de novo
porque é assim o ciclo da humanidade. se fôssemos tão bons em evoluirmos, já não estaríamos imunes à indiferença de outra pessoa?
é que dói. a rejeição. o 'preferir o outro'. o 'seguir outro caminho' que não com a pessoa que você gosta e deseja. e dói porque fomos programados para aceitar que o outro existe para caber na nossa caixinha, naquilo que a gente quer e espera, nas expectativas amorfas que na verdade não passam de problemáticas que construímos internamente.
a-outra-pessoa não tem nada a ver com o que idealizamos. idealizar alguém é como criar um bicho: em algum momento, ele cresce, se expande e mata você. e se você aceita a idealização que cria, você sofre. porque a outra pessoa está lá na frente e você está aqui atrás. ele nem sabe se quer um relacionamento e você já está afoito pela ideia de amar e ser amado.
tanta. coisa.
que precisa ser reavaliada, pensada com carinho e com um pouquinho mais de verdade/honestidade.calma, respira.
como eu ia dizendo
você vai me ver na faculdade e eu vou lembrar que errei com você. mas que você, igualmente, errou comigo. e nessa da gente jogar a culpa um em cima do outro, vai existir um momento em que eu pedirei desculpas sinceras por tentar um caminho que não dava pra nós. eu te afastei de tudo da minha vida para me preservar, mas queria dizer na verdade que te tirar do meu círculo social foi mais uma tentativa de preservação do que qualquer outra coisa. não queria continuar alimentando este monstro que é a idealização.
muita gente está sofrendo por relações não-recíprocas porque o monstro da expectativa deita, dorme e acorda nas pessoas. porque muitas delas alimentam-no diariamente, através do contato, da falta de honestidade e do desconforto que é estar sozinho.
eu tive que admitir a mim mesmo que estava em paz e que estava tudo bem ficar sem você, ficar sem outra pessoa, ficar sem alguém. que estava tudo bem se eu acordasse e não tivesse nenhuma mensagem de bom dia para massagear meu ego. que estava tudo bem ir à praia sozinho, ir ao cinema sozinho, fazer qualquer outra coisa sozinho.
a idealização cria um monstro em nós que, crescido em certa dimensão, fica difícil voltar atrás.
eu voltei a tempo. e voltar a tempo requereu que eu tivesse que te afastar. para me entender e entender todas as minhas demandas. para me certificar de que eu tinha errado por idealizar que você fosse a pessoa que me serviria como escape, afeto e alento; que você era tão bom, mas tão bom, que os outros não seriam tão bons assim.
mas me enganei. tem outros tão bons como você. e outros caminhos. e outras relações que não quero nem vou idealizar.daqui um tempo, ao esbarrar contigo pelos corredores da faculdade, eu vou dizer que tá tudo bem se a gente dizer que falhou. e que tá tudo bem desviar a rota do orgulho para tentar entender em qual ponto crucial houve o choque, a queda e a ruptura.
que rompemos e não seremos como antes, se é que fomos algum dia.
e que poderemos nos perdoar por tantas coisas que ficaram entaladas na garganta, mas que morreram antes mesmo da gente ter tentado qualquer coisa.Fonte: de um poeta
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Entre Linhas E Reticências (...)
FantasyEdit 1. Esse livrineo me acompanha a uns anos, nele contém escritos que descrevem algumas fases da minha vida e outros que só me tocaram. Ele acompanha alguns leitores também, e quando eu não puder mais adicionar textos ele ainda vai estar aqui pra...