13 de novembro. Segunda-feira.
A semana de provas finalmente chegou, eu não me sentia preparada, passei o final de semana todo com a cabeça enfiada no meio daquele livro tentando desvendar os desenhos e poesias da Lucia. Nada parecia fazer sentido, absolutamente nada, eu olhava aqueles traços malfeitos como se tivessem sido desenhados por uma criança. Os desenhos eram feitos a giz, lápis, carvão e tinta, olhar aqueles traços horríveis me deixava incomodada. A maioria dos desenhos continham elementos padronizados, como rosas quebradas e sem vida, uma garotinha triste, mas que as vezes estava furiosa e um homem mal, pelo menos era a o que eu interpretava, estava sempre destruindo as cores e os traços dos desenhos. As poesias não falavam nada, elas mostravam algo, mostravam algo além do significado das palavras, como se tivessem escondendo um grande segredo. E eu descobri o que? Sentia que aquilo era tudo, que precisava mostrar para alguém, ter outras interpretações sobre aquele livro, mas não podia fazer isso, isso não me pertence.
O livro está em minha mochila. Não consegui deixar ele no quarto, aonde esconderia? Laura e Leta mexem em tudo, conhecem cada canto, cada compartimento "secreto". Laura esconde revistas de coreanos nus e Leta esconde maconha e bebidas, não teria espaço para o livro que roubei.
Aquela garota do sofá se chama Roberta, encontrei ela no Facebook. Imagino que ela deve estar desesperada nesse momento. Que coisa feia, Rebecca.
***
Fui para a escola, uma prova me esperava.
Laura me cutucou, ela estava sentada atrás de mim. Tentei não olhar, mas ela não parava de encher o saco. Olhei por cima do ombro e vi a expressão de desespero dela, a prova encima da mesa, o gabarito em branco e três canetas encostadas no estojo com estampa de K-pop. A prova começou já faz tempo e eu nem sequer li uma pergunta. A sala de aula estava cheia, murmúrios de desespero e pessoas tossindo loucamente, tudo o que se pode esperar da semana de provas que pode definir se você passa ou não de ano.
"Que foi?", perguntei com o olhar.
"Me ajuda!", foi o que o olhar dela disse.
"Não, não dá!", respondi e voltei a me concentrar na prova.
***
Foi difícil, muito difícil. Consegui responder as perguntas, mas tenho certeza de que errei no gabarito. Laura não parava de me xingar, me puxou pelo braço na saída da sala de aula e começou a fazer drama, deixei ela falando sozinha e fui para o refeitório. Hoje é dia de sanduíche de peito de peru e suco de uva. Entrei na fila, estava extensa e tensa, quando chegou minha vez peguei o sanduíche e suco. Vi Laura no final da fila, ela conversava com alguém no celular, ainda estava irritada, nem me olhou.
Sentei em uma mesa no fundo do refeitório, tinha alguns nerds sentados, tentando parecer invisíveis. Ali no meio daquelas pessoas eu me senti bem, eles não estavam eufóricos porque tenho certeza de que estudaram, apenas conversavam sobre coisas legais. Notei alguns olhares caindo sobre mim, mas eles eram tímidos demais para puxar conversa e eu sou aparentemente antipática demais, posso assusta-los. Mas quem se importa? Me levantei e sentei no meio dos nerds, a conversa acabou. Lá estavam três meninos e uma menina.
-Eu estava me sentindo sozinha ali – falei para o grupo que parou a conversa ao me ver sentar.
Eles não falaram nada, ficaram se entreolhando. O refeitório estava bem barulhento, comecei a me sentir um pouco mal, como se tivesse um cubo de gelo em meu estomago.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Fuja.
Mystery / ThrillerLucia Remis desapareceu nas imediações do Internato Primavera. Suas amigas estranharam, pois, todos seus pertences ainda estavam no quarto, elas ligaram para a polícia e o local virou um ninho de repórteres. Tudo indica se tratar de um sequestro. Re...
