Uma conversinha com Morte

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Quando voltei à casa de Cas, limpa como nunca, não senti remorso algum por ter torturado Anna. Era necessário. Eu estava meio certa quando disse que era impossível que a ex-anja-agora-demônia nos desse alguma informação. Era impossível para o resto do mundo, mas não para mim. Eu era especial, eu conseguiria. Só havia uma forma de arrancar a verdade dos lábios de Anna: tortura. Não é correto usar de dons assim para obter suas informações, mas é preciso. Eu realmente precisava saber onde encontrar Lúcifer. Eu precisava matá-lo. Eu tinha a forma, eu tinha a arma, eu tinha a informação.

O que poderia dar errado?
Talvez tudo.

Mas apenas talvez. Eu não sabia o que aconteceria. Não sabia como esconderia a verdade de Dean Winchester, meu pai. Não sabia como ia me livrar de tudo que envolvesse ser uma demônia até lá. Eu apenas sabia que levar aquele peso nas costas era preciso, era necessário. Era uma questão de vida ou morte, e eu estava disposta a pagar o preço.

Se fosse preciso, eu morreria junto com Lúcifer e Sam. Se fosse preciso, eu daria minha vida para tirar a dele. Eu faria de tudo, tudo mesmo. Chegaria a romper as barreiras do impossível e chegaria a criar novas Leis da Existência. Eu faria qualquer coisa.

Entrei pela porta da frente, que não era bem uma porta, estava mais para uma cortina de missangas. Entrei na sala que Castiel normalmente usava para relaxar, e inspirei o ar, com todo o seu cheiro de madeira, poeira, chá e essência humana. Entrar ali agora era como voltar no tempo: Eu tinha quinze anos, e saía pela porta do corredor. Mostrava a Cas sua nova casa, falava com imponência, um falar duro e respeitável. Estava maravilhada pela presença dele e mantinha a postura de instrutora. Me vi falando que precisava dormir, e me vi deixando-o. Quando enxerguei minha imagem saindo pela porta, até senti o aroma de shampoo, condicionador e sabonetes que havia usado para banhar Castiel.

Era uma viagem no tempo. E, convenhamos, eu adorava os filmes de ficção científica.

Irrompi pelo corredor, a passos calmos e demorados. Senti o piso duro sob meus pés descalços. Eu tinha até esquecido que estava só de camisola. Passei as mãos pela parede, analisando a tinta que descascava um pouco.

Olhei para a porta do banheiro, e depois para a cozinha. Entrei.

A cozinha da casa de Cas tinha cheiro de chá, cheiro de homem e cheiro de vida. Olhei para o bule em cima da mesa, e a caneca branca na qual ele bebia chá de camomila há cerca de uma hora antes. Analisei-a por completo e saí, deixando que um pouco do cheiro de chá repousasse em minha roupa.

Andei novamente pelo corredor, inspirando o ar empoeirado dos quadros da parede. Sentia o piso gelado e as paredes ásperas nas pontas de meus dedos. Respirava fundo e piscava lentamente. Era como num filme, era engraçado. Tudo parecia estar em câmera lenta, e eu me encaminhava para a porta ao fundo, onde ficava o quarto de Castiel.

Observei a maçaneta, provavelmente de prata. O hippie deveria ser mesmo rico. Analisei sua superfície gelada quando a envolvi em minha mão esquerda. Apoiei a cabeça na porta de madeira e girei a maçaneta.

Quando entrei, tudo estava quieto. Castiel havia retirado os lençóis de sangue e substituído por novos, já que estava deitado serenamente entre travesseiros brancos como a neve. Ele olhava para o teto, observando algumas palavras escritas em caneta permanente, em uma letra perfeitamente linda e redonda. Eu sabia o que dizia: "Anjo do Senhor". Eu já dormira naquela cama, e já analisara aquelas três palavras. Pareciam ter muita importância para Cas, pois seus olhos azuis como o mar estavam vidrados na tinta preta.

Morte estava sentado na poltrona preta, que combinava bem com ele. Sua calma assustaria qualquer um que entrasse ali, mas não a mim: ele não me ceifaria nem que Deus pedisse. Aliás, era tão velho quanto o próprio Deus, e quase igualmente poderoso. Ele podia ser Morte, mas para existir a morte, primeiro deveria existir a vida. Então, Deus viera primeiro. Morte disse uma vez que poderia ceifar Deus, e eu suponho que seja uma das raríssimas coisas das quais ele duvida ao menos em um ponto quase imperceptível. Era tão velho quanto o próprio Deus, talvez um segundo, ou até um milésimo de segundo mais novo. Deus provavelmente tinha mais poder, algum que Morte não poderia usar ou não compreendia mesmo com toda sua vasta sabedoria sobre o universo todo, sobre cada coisa existente. Ele era Morte, e tinha um poder incontestável. Ele era Morte, e gostava de fast food. Ele era Morte, e era muito sábio. Ele era Morte, e naquele momento pareceu incompreensivelmente humano, mas foi só por um segundo, ou um milésimo de segundo, ou um bilhonésimo de segundo, talvez até menos.

Um anjo em minha vidaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora