Acordei com o barulho da minha campainha e olhei para o relógio da mesa de cabeceira... Já passa do meio dia. Levantei-me a esfregar nos olhos, enquanto me enfio desajeitadamente dentro de umas calças que estavam algures no chão do quarto. Abri a porta a bocejar e quando abri os olhos vi-a à minha frente e paralisei.
"Desculpa... não queria acordar-te. Só vim devolver o casaco... ontem acabei por me esquecer."
"Tudo bem... não faz mal." Aceitei o casaco.
"Então... até depois." Virou-se para voltar para a sua porta.
"Abi!" Chamei, sem saber muito bem o que vou dizer.
"Sim?"
"É... eu ia à lavandaria do prédio hoje... lavar roupa. Queres vir? Quer dizer, aquilo consegue ser aborrecido quando se vai sozinho."
"A que horas?"
"A que horas é que te dá jeito?"
"Tanto faz." Encolheu os ombros.
"Então... eu acho que vou só tomar banho e comer alguma coisa. Depois eu bato à tua porta."
"Está bem." Sorriu e abriu a sua porta.
"Até já."
"Até já..." Sorriu de novo e senti-me derreter. Oh god... isto não é bom.
Ponto de vista da Abi
Acabei de lavar a loiça do almoço e ouvi bater à porta. Peguei no cesto com a minha roupa e dirigi-me à porta.
"Estás pronta?"
"Aham... vamos." Respondi, enquanto tranco a porta de casa.
Não sei exatamente como me sentir perto dele... tenho a sensação de que deixei que ele soubesse demasiado de mim... eu não gosto de me abrir demais com as pessoas, e o facto de ele saber de tanto deixa-me desconfortavelmente confortável... porque ele já sabe de tudo o que há para saber, por isso é confortável não ter nada a esconder... e aquilo que eu não lhe contei, ele acabou por descobrir.
Está mais calado hoje. Parece mais pensativo do que o costume... se é que o conheço há tempo suficiente para saber qual é o costume dele.
Colocou o seu cesto em cima de uma das bancadas e começou e separar a roupa sem dizer uma palavra.
"Está tudo bem?" Acabei por perguntar, enquanto fazia o mesmo.
"Sim..." Olhou para mim de relance e sorriu de lado. "Porque é que não haveria de estar?"
"Não sei... pareces estranho." Encolhi os ombros.
"Estou só com sono... e meio envergonhado por ontem... eu não tinha de me ter metido na tua vida daquela maneira. Bater-te à porta a meio da noite... não fui razoável. Tu já parecias assustada e tenho a certeza que um quase desconhecido a bater-te à porta de madrugada não era exatamente o que estavas a precisar."
"A sério? Achas isso?"
"Tenho a certeza..." Deixou escapar uma risada que pareceu de nervoso miudinho.
"Eu acho que ajudou..."
"Achas?" Largou a peça de roupa que tinha na mão e olhou para mim.
"Acho... já lá iam anos desde a última vez que senti que alguém se estava a preocupar... se é que sequer alguma vez alguém se preocupou a sério."
"E não achas meio estranho essa preocupação vir de alguém que mal conheces?" Encolhi os ombros em resposta.
"Não acho que seja estranho... nós temos percursos semelhantes e acho que isso te faz identificares-te comigo... além disso, um dia também já te mudaste para aqui... e estavas sozinho... acho que só estás a tentar evitar que eu esteja sozinha como estiveste."
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Vizinhança
Short StoryTudo começa quando Abigail chega ao seu novo apartamento, prestes a recomeçar toda a sua vida com pouco mais do que o essencial para viver. Mas algo tenta impedí-la de deixar o passado para trás das costas e viver um futuro mais brilhante.
