O jovem estagiário decidiu averiguar o estranho barulho que escutara atrás das árvores. Parecia como coisas pequenas sendo derrubadas no solo. Viu arbustos se mexerem. Porém, quando se aproximou, não havia ninguém. Para sua surpresa, percebeu um punhado de frutas frescas e algumas castanhas empilhadas sobre o chão.
- Tem alguém aí? - perguntou Lucas, olhando ao redor.
Sua voz se dissipou no vento, e apenas as árvores e os pássaros faziam-lhe companhia. Com a fome que sentia, decidiu ignorar o perigo naquele instante. Não queria mais saber quem ou o quê havia feito aquilo. Simplesmente, devorou cada noz e fruta suculenta que suas mãos sujas de terra puderam pegar.
As nozes crocantes eram deglutidas como se fossem um manjar turco, amaciadas pela suculência doce das frutas carnosas que lambuzavam seus dedos finos e trêmulos. Seu corpo reagia, espalhando uma sensação de prazer e satisfação a cada mordida e sabor que envolvia suas mucosas. Foram breves minutos no paraíso que fizeram-no esquecer, por um momento, sua lamentável e perigosa situação de sobrevivência. Comer novamente, após tanto tempo de inanição, havia-lhe dado um novo ânimo para continuar. Era como se tivessem ligado os seus sentidos em uma tomada elétrica.
Depois de satisfeito, limpou a boca com a manga da camisa. Lucas levantou-se com mais energia e olhou adiante, para averiguar melhor o terreno onde estava. Percebeu que, a poucos quilômetros, erguia-se uma grande massa de terra e rochas em direção ao céu. A Montanha estava próxima, e conseguia enxergar uma abertura feito uma caverna, a algumas centenas de metros acima da base.
- Isso só pode ser loucura! - falou consigo mesmo.
Ficou pensando em várias possibilidades, pois ele tinha que tomar uma decisão, que poderia ser definitiva, para o sucesso ou fracasso de sua existência. Em toda a sua vida, sempre executara as ordens dos outros. Primeiro, dos seus pais, depois, dos professores e colegas. Até do seu falecido orientador de estágio no laboratório de Zoologia. Seria a primeira vez em toda a sua vida que tomaria as decisões por si mesmo.
"A floresta me alimentou, salvou a minha vida. Eles querem que eu encontre e mate o dragão. Mas, será que é isso mesmo o que eu quero?" Pensou.
Sem nada a perder, caminhou em direção à montanha, resignado por acreditar que suas visões na noite anterior não haviam sido meras alucinações lisérgicas.
Mesmo tendo passado por dias de privação de sono e comida, sentia-se mais forte e confiante, como se a floresta estivesse do seu lado. Para evitar o confronto direto com a criatura, escolheu caminhar embrenhado-se na mata, abaixo das copas das árvores, de modo a dificultar sua localização pelo céu. Com sua breve experiência em monstros, chegou à conclusão de que o dragão só atacava em áreas abertas, como descampados, clareiras e beiradas de rios.
Ficou pensando no que faria quando chegasse à caverna:
"Vai ver, eu consigo atirar uma pedra nele enquanto me extirpa as vísceras!" Pensou, achando graça da ironia sobre sua provável morte. "Ou, talvez, eu esteja ficando louco, mesmo..."
Seguiu por uma trilha de animais que se projetava, fechado-se progressivamente em direção à montanha. Estava cada vez mais difícil atravessar os obstáculos que surgiam pelo caminho, como troncos caídos, galhos espinhosos e teias de aranhas gigantes. Lucas temia as aranhas. Porém, já estava se acostumando a conviver com elas. Sentia-se dotado de uma estranha coragem e força que brotavam das profundezas de sua alma e de seu corpo expurgados. Eram sentimentos que nunca havia experimentado antes.
Olhando pelo canto do olho, percebeu um movimento atrás de si, alguns metros abaixo. Já não dava tanta importância às sensações de presença e de vultos na floresta, e não ligou muito naquele momento. Ele estava focado na suposta missão que deveria cumprir para conseguir sair vivo da floresta. Sobreviver era a sua meta, mas não a sua certeza.
O dia estava mais quente, e o suor lhe encharcava as costas. Porém, conforme se elevava ao topo da montanha, o vento soprava mais forte e a subida ficava cada vez mais íngreme. Chegou um momento em que só foi possível continuar agarrando-se nas raízes das árvores. Já não sentia mais as pontas dos dedos, e seus músculos doíam em cãibras cheias de ácido lático.
De repente, ele pisou em falso, e uma pedra grande rolou, caindo ruidosamente no pé da montanha. A abertura do covil estava logo acima de sua cabeça, e o barulho da rocha se partindo despertou a atenção do voraz predador.
O monstro reptiliano saiu da escuridão da caverna, alçando voo montanha abaixo. Por sorte, não percebeu a presença de Lucas, que estava agarrado às raízes a menos de dois metros da entrada.
Em tempo, antes que o dragão voltasse, o jovem concluiu com dificuldade a sua escalada, e adentrou correndo na escuridão do covil. Num primeiro momento, não conseguiu enxergar muita coisa. Entretanto, conforme avançava e acostumava seus olhos ao breu, ficou horrorizado com a quantidade de crânios e ossos de animais, espalhados pelo chão. Era um cemitério formado pelos restos alimentares do monstro. Mas não era só isso. Lucas ficou encantado com o que viu mais adiante.
A alguns metros caverna adentro, jaziam várias pilhas ao redor de uma montanha de moedas e objetos de ouro, como taças, pratos e joias com pedras preciosas. Rubis, esmeraldas, topázios e diamantes reluziam refletindo os raios de luz que atingiam o fundo do covil. Parecia uma verdadeira mina de tesouros de uma antiga história de piratas.
Lucas sentiu-se embriagado pelo brilho de tanta riqueza! Nunca vira tanta preciosidade acumulada em um só lugar. De onde viera aquilo tudo? Quantos não morreram na cobiça por toda aquela fortuna?
O jovem estagiário deixou-se hipnotizar pelo brilho dourado do tesouro, como um sonho terrível que tornava-se na mais improvável e magnífica realidade.
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O que Lucas fará diante de todo este tesouro?
Como ele vai agir quando o dragão voltar?
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Muito obrigada por acompanhar esta aventura dark fantasy! ;-)
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Floresta Negra
HorrorVencedor de 18 prêmios literários na Plataforma Wattpad! Floresta Negra é um thriller de terror, suspense e dark fantasy, com mistério e tensão do início ao fim. A história começa em um vilarejo rural na borda de uma imensa floresta, onde coisas ma...
