2 Âmbar

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Olhei-me no espelho uma última vez, antes de gritar frustrada e tirar a roupa o mais rápido que eu conseguia. Já fazia duas horas desde acordei, e estava procurando a roupa ideal para a entrevista, mas nada parecia servir, aproveitei o horário para preparar e tomar um café reforçado, não sabia que horas voltaria. O celular tocou avisando que estava na hora, desesperada peguei uma calça jeans qualquer, uma camisa preta, um blazer azul escuro e calcei meu vans preto, amarrei o cabelo num coque frouxo, peguei minha mochila e corri.

_Dinda estou indo! – avisei pegando as chaves de casa.

_e Lorenzo? – perguntou da cozinha.

_está dormindo, ele demorou a dormir, creio que eu volte antes que ele acorde! – falei já saindo.

_boa sorte! – gritou.

_valeu!

Desci correndo as escadas do prédio, não poderia esperar a eternidade que o elevador demorava para chegar ao meu andar, então usei as escadas mesmo. Corri para o ponto de ônibus mais próximo, na esperança de que ele ainda não tivesse passado: doce engano. Quando cheguei na parada, ele já ia longe, então tomei folego e corri na direção oposta, rumo ao metrô. Desviada como podia das pessoas, graças a alguma entidade desconhecida, eu tinha reflexos excelentes, possibilitando assim minha corrida sem grandes interrupções, quando cheguei na entrada, desci correndo, quase pulando os degraus. Parei para respirar, e vi o trem chegando na estação, corri, passando na catraca, e entrei no vagão lotado, procurando por um lugar para me segurar.
Apesar de estar lotado, o trem me faria chegar mais uns 15 minutos mais cedo, dando-me tempo para me recompor. Quando cheguei a estação sai do trem o mais rápido que pude, seguindo o fluxo. Rapidamente consegui chegar a rua, e então respirando fundo, caminhei em direção a Casttle, rumo a bendita entrevista de emprego.
Quando cheguei a empresa, estranhei, e fiquei completamente sem chão ao ver tantos jovens ali, provavelmente estariam ali pelo mesmo motivo que eu, a concorrência era enorme. Suspirei e me aproximei da recepcionista.

_olá, eu vim para a entrevista para a vaga de jovem aprendiz! – falei mostrando a ela a carta que recebi.

_ah, ola! Você pode pegar o elevador e descer no decimo terceiro andar, e procurar pelo secretário do senhor Castellamare, seu nome é Antony!

_oh, obrigada...

_bem senhorita, cuidado para não se misturar aos alunos, eles estão em um tour pela empresa! – declarou sorridente – a propósito, sou Miracely!

_Antonella! – respondi já indo em direção ao elevador – segura pra mim, por favor! – pedi ao ver a porta se fechando, mas o homem ali dentro, o segurou, entrei e respirei fundo – obrigada!

_disponha! – falou e me ofereceu um sorriso amigável.

O elevador tinha espelhos em todas suas laterais, e aproveitei para me dar uma última checada no meu estado, afinal eu precisava estar minimamente apresentável. Quando ajeitei última mexa de cabelo rebelde, fitei pelo espelho o homem atrás de mim, alto, de pele alva, cabelos avermelhados lisos e repicados, usando uma camiseta estampada da Marvel e um blazer, então notei que o mesmo me observava fixamente, e meu foco foi direto para seus olhos: âmbar.

_mais um gene recessivo... – comentei tentando ser simpática.

_é tão raro... – respondeu ainda fitando-me.

O elevador parou do nada, nos deixando ali. Por um segundo pensei que tinha enguiçado ou algo do tipo, mas o homem atrás de mim, suspirou pesado.

_droga! – resmungou.

_o que houve? Sabe porque paramos? – perguntei olhando as horas.

_hoje é dia 7, todo dia 7 de cada mês a empresa faz treinamento de emergência, os elevadores ficam parados por 15 minutos! – informou-me.

_o que? – perguntei aflita – desse jeito vou me atrasar para a entrevista... – choraminguei sentindo meu animo despencar.

_entrevista? – perguntou curioso – desculpe-me se pareço curioso, mas que entrevista seria essa?

_ah, para a vaga de jovem aprendiz! Eu recebi uma carta, fui selecionada para fazer a entrevista... E essa é uma oportunidade e tanto... – comentei por alto – gostaria de trabalhar, mas ainda não tenho permissão, sabe eu sou emancipada e realmente gostaria de uma vaga de emprego, mas para isso precisaria conversar com alguém importante de dentro... E isso é meio que impossível... – dei de ombros, sem graça por estar falando demais para um estranho que sequer sabia o nome – então vim para esta vaga mesmo!

_e porque você quer trabalhar? A faixa etária disponível para a vaga é de 15 a 18, e se você se encaixa é realmente jovem... – falou distraidamente – o que a motiva o desejo de trabalhar?

_eu tenho alguém que precisa de mim... – murmurei pensando no meu pequenino dormindo.

_ah compreendo, para ajudar seu pai ou sua mãe... – indagou levemente, e eu sorri, com a facilidade que tinha para admitir a verdade.

_não tenho pais... Mas tenho um filho, e meu menino precisa de mim! – revelei, vendo sua expressão perplexa e sua boca formar um pequeno “o” – Lorenzo, é seu nome, e ele é a razão pela qual eu levanto todos os dias... A pensão que meu pai adotivo nos deixou não é muito, mas vou levando...

_entendo... – murmurou – ele tem quantos anos?

_um... Em alguns meses fará dois! – comentei com o típico orgulho de mãe e empolgada, peguei o celular no bolso e procurei uma das milhares fotos com meu príncipe, para mostrar ao estranho – esse é o homem da minha vida...
Virei-me e ergui o celular mostrando uma foto mais recente nossa, onde Lorenzo estava sentado em minhas costas, quando eu estava deitada no chão, ambos sorriamos. O estranho também sorriu e seus olhos refletiram uma emoção que deixou-me comovida.

_ele é lindo... E tem seus olhos... – comentou fazendo-me rir.

_sim, sim! – concordei – enquanto estou aqui, minha adorável e salvadora vizinha cuida dele para mim... Como já terminei a escola, estou estudando em casa para prestar vestibular e entrar na faculdade...  Enquanto isso, tento arrumar um emprego, para complementar a renda...

_entendo... – ele puxou o celular do bolso – você me mostrou o seu menino, vou lhe mostrar o meu... – virou o celular em minha direção e vi uma versão sua mais jovem.

_está brincando? Este é seu filho? – perguntei incrédula e ele afirmou – se você não me dissesse, diria que é seu irmão caçula! – o estranho gargalhou e sua risada me contagiou, levantando meu animo por algum motivo.

_sim, é meu garoto, Enzo... – informou-me guardando o celular. O elevador moveu-se e voltamos a subir – ah, deve ter acabado!

_céus, agora fiquei nervosa! – comentei sem graça e respirei fundo – vamos lá! – falei para mim mesma.

_você vai conseguir! – encorajou-me e sorriu – aliás, meu nome é Cristian... – falou assim que a porta se abriu.

_Antonella... – respondi já saindo, enquanto ele permaneceu ali, deixando-me ainda mais curiosa, iria subir mais? Será que era alguém importante? Deixei tudo de lado e fui para a sala de recepção, onde havia um homem negro, lindo de morrer, alto, forte, com terninho sob medida instruindo demais jovens – com licença... – chamei ganhando sua atenção imediata e um sorriso – desculpe incomodar, vim para a entrevista da vaga de jovem aprendiz...

_ah, é comigo mesmo! – informou-me – sou Antony, e irei entrevista-los, sente-se, estou apenas aguardando a ordem para iniciar! Sente-se ali...

Antes de me sentar, dei uma rápida verificada com quem eu iria concorrer e sinceramente, tremi igual vara de bambu verde na ventania, sentei-me rapidamente, com medo de minhas pernas falharem e me derrubarem ali mesmo. Todos estavam bem vestidos e alinhados, com roupas caras, de marca, acessórios da moda, fazendo eu me sentir ainda mais deslocada; Mas não iria baixar a cabeça, eu tinha um motivo para estar ali. Respirei fundo e esperei.
Um a um, os candidatos foram sendo chamados, e as horas iam se passado. A fome ameaça chegar, mas o nervosismo a expulsava.  Após entrevistar 8 candidatos, Antony avisou que faria uma pausa, pois seu chefe, o CEO da empresa o estava chamando. Todos permanecemos ali, pois ao final de todas as entrevistas, ele anunciaria os nomes dos que ficariam com as vagas, e imediatamente os encaminharia para o RH. Quando ele voltou, chamou os 5 que estavam na minha frente, e pulou-me, chamando o jovem que havia depois de mim, e assim seguiu até o fim.
Meu chão sumiu dos meus pés, e eu tentava não deixar transparecer meu desespero total. Ele havia passado meu nome, e as entrevistas estavam chegando ao fim, o que significava que eu sequer teria uma chance. Para sair dali com o mínimo de dignidade possível, levantei-me discretamente e fui ao banheiro. Lavei o rosto e tentei conter as lagrimas do fracasso, tinha de ser forte, e eu seria forte. Esperaria até o último minuto e então se não fosse aprovada, iria levantar a cabeça e ir embora com toda dignidade com a qual cheguei.
Arrumei o cabelo e sai do banheiro, mas acabei esbarrando em alguém, e meu pobre smart fone foi ao chão, e senti minha alma trincar juntamente com a tela, que estilhaçou.

_desculpe... – me desculpei sem graça, pegando os caquinhos do meu celular.

_oh, não, eu que devo me desculpar! – falou a pessoa, que ao levantar, reconheci ser Cristian – perda total? – indagou olhando para o meu celular, o qual tratei de guardar rapidamente, para evitar vexame maior.

_não! – respondi simplesmente, e antes que eu pudesse falar qualquer outra coisa, um jovem que estava perto de mim na fila, apareceu no corredor.

_ei olhos claros, o entrevistador acabou de chamar você! – anunciou.

Gelei dos pés à cabeça.






Cheguei chegando Pandinhas!
Comentem e deixem a estrelinha!
Bjinhos.

Laços de SangueHistórias para pegar e não largar. Descubra agora