Enzo chegou a empresa horas depois de eu ter deixado a cafeteria, com uma cara pensativa, totalmente imerso em pensamentos; adentrou meu escritório, e fiquei esperando que ele dissesse qualquer coisa.
_diga alguma coisa, meu filho, por favor! – pedi aflito.
_ela mora numa casa tão pequena... – murmurou, e eu senti um aperto no peito – em um bairro tão longe daqui...
_você viu se ela passa algum tipo de dificuldade? – indaguei sentindo-me subitamente angustiado – algo lhe falta, ou ao menino?
_não... Aparentemente não... Quando chegamos, ela foi dar banho no Lorenzo, e eu lhe pedi agua, insisti para pegar sozinho, para não atrapalha-la e a convenci! Na geladeira há uma lista de alimentos saudáveis, e um cronograma de horário em que o menino toma certas vitaminas, ela também!
_vitaminas? – ele afirmou – de que tipo?
_do tipo que eu tomava durante a recuperação daquela pneumonia! – foi preciso – as dispensas estavam razoavelmente abastecidas, a geladeira também... Apesar de pequeno, é bem organizado... A estrutura é boa, talvez um pouco antiga... Pai, não podemos fazer nada?
_por enquanto não! – falei e bufei irritado – se ao menos tivéssemos alguma... – meu celular tocou, o desgraçado estava tocando desde cedo, e eu o estava ignorando, mas ao ver o nome de Pietro na tela, atendi rapidamente – Cristian!
_mas que diabos, você não atende esse celular? – bradou irritado – estava quase pegando um voo pra enfiar o maldito aparelho no seu rabo! – ele respirou fundo – tenho noticias...
_fale, por favor! – pedi ansioso.
_esta sozinho? – indagou.
_estou com meu filho! – respondi – estamos a sós!
_verifiquei sua linha, não esta grampeada, então é seguro falar! – informou-me, e a julgar pelo tom e o termo da conversa, fiquei tenso – Antonella, pode ser sua filha!
_repete isso... – pedi incrédulo na informação.
_verifiquei tudo da vida dela, claro que foi por debaixo dos panos, ela surgiu do nada num orfanato, no mesmo dia em que Elizabeth foi raptada, seus documentos não existiam, e nem nada do tipo! Ela foi passada para uma família qualquer, sem qualquer tramite judicial, e toda a papelada dela surgiu da noite para o dia! – começou – infelizmente não consegui amostras de sangue, pois teria que estar ai, e só poderei estar com vocês nas próximas semanas! E tem mais... Cristian... Esse “mais”, não é bom...
_fale Pietro, jogue logo toda a merda no ventilador!
_o garoto é filho do padrasto dela! – relevou e meu mundo caiu – você sabe o que significa...
Claro que eu sabia o que significava, ela era jovem, com um filho, emancipada, morando sozinha... Poderia ter sido uma decisão impensada, jamais cogitei a possibilidade de um estupro.
_a vizinha deles, o denunciou, anos atrás... Relatou que desde que se mudou para lá, ouvia as discussões dele, e presenciara varias surras que a pobre menina recebia, mas ninguém na vizinhança jamais denunciou, por ser idosa, sua denuncia não foi levada tão a serio, e o filho da puta era um poker face de primeira classe, sempre negando tudo! – rosnou no celular, visivelmente transtornado – foi preciso um flagrante, numa noite ele chegou bêbado, e segundo relatos dessa vizinha, a garota começou a gritar implorando por ajuda, chegou até a sair da casa, mas ele a pegou no quintal e continuou a surrá-la com um taco de golfe, uma viatura passava na rua, e o prendeu em flagrante! Levaram ele para a delegacia, e ela para o hospital, onde ficou na UTI por duas semanas, e então foi descoberto o abuso e que ela estava grávida! Todos os vizinhos foram indiciados por cumplicidade, acobertamento da agressão e negliencia ao prestar socorro, e foram todos convidados a se retirarem da cidade!
Ficamos em silencio por um período, Enzo estava tão chocado quanto eu, e isso era extremamente claro, ambos não sabíamos como reagir a isso, ao saber do passado dela, sentia-me cada vez mais um lixo impotente por não poder fazer nada.
_como ela conseguiu a emancipação? – meu filho indagou, enquanto eu permanecia catatônico.
_quando ela saiu da UTI, um dos policiais já havia avisado uma delegada da delegacia da mulher, e a própria delegada tomou o caso para si, providenciou tudo para que o padrasto fosse preso, e bem, sabemos o que acontece com estuprador na cadeia... Ninguém gosta dessa raça imunda... Ele morreu com 32 facadas pelo corpo, mas os detentos esconderam a arma do crime, e o deixaram no banheiro, quando descobriram o corpo, já não tinha mais o que fazer!
_e ela? – perguntei debilmente – quem deu o suporte necessário para ela enfrentar essa merda e seguir a gestação?
_ninguém... – suspirou pesado – a promotoria concedeu a ela a emancipação, mas legalmente não podia intervir na gravidez, seria violar os direitos humanos... Pelo que descobri, sua santa protetora, é a mesma vizinha idosa, que fez a denuncia contra o padrasto! Revirei todo o passado dela, mas a velhinha esta limpa!
_não importa! – Enzo declarou subitamente – pai, nada disso importa, ela pode ser Elizabeth, ou melhor, ela é Elizabeth! – afirmou convicto – precisamos de um teste de DNA!
_o garoto tem razão... Poderiamos fazer um sem ela saber, um fio de cabelo, saliva, uma gotinha de sangue... Então quando a tivéssemos a certeza de que ela é mesmo sua filha, contaríamos a mesma! Não seria justo, falar antes, criar uma falsa esperança... Essa menina já passou por muita coisa Cristian!
_tudo bem... – murmurei imerso em minhas angustias – podemos tentar conseguir algo...
_perfeito! – Pietro concordou – vou ligar para uma amiga, ela vai facilitar as coisas para você no laboratório! Preciso desligar, Cristian, consiga isso o mais rápido possível!
_claro... – a ligação encerrou e eu permaneci como estava.
Minha mente não processava a informação, minha menina... Minha doce e indefesa menina tinha sido deflorada a força... Por um monstro... Alguém que devia protegê-la... E pior que isso, a tinha engravidado; provavelmente tentou fazê-la sofrer um aborto, espancando-a, ao descobrir da gravidez. Quantas vezes aquele maldito a tinha tocado? A tinha surrado? E ninguém fez nada.
Nada.
Malditos.
Filhos duma prostituta.
Levantei-me revoltado, e lancei meu computador longe, urrando irado, chutei a cadeira onde estava sentada, lançando-a na mesa que usava para as refeições no escritório, tudo nela e inclusive ela, caiu no chão, quebrando o vidro temperado. Andei de um lado para o outro, nervoso: Iria matar cada um deles, aqueles merdas. Descobriria onde cada um deles estavam e mataria eles, simples assim. Malditos.
_p-pai? – olhei para meu filho, encontrando-o pálido, e com os olhos arregalados, ofegando um pouco.
A realidade me atingia com golpes precisos, com pontaria precisa; respirei fundo e tentei me acalmar, não queria que meu filho tivesse uma crise de pânico, como ele tinha quando eu ficava assim.
_respire, Enzo... – pedi – desculpe-me... – passei as mãos no cabelo puxando-os de leve – eu me exaltei! Desculpe... – ele assentiu ainda pálido, mas já respirando normalmente.
As crises de pânico de Enzo começaram, depois que sua mãe morreu, no dia em questão eu fiquei em choque, sem saber o que fazer, completamente fora de mim, e com isso, acabei esquecendo-me do meu filho, que presenciou meu surto de fúria, e entrou em pânico. Desde então, eu não podia gritar, me exaltar de alguma forma com ele por perto, pois o mesmo ficava nervoso; quando criança: ele chorava; agora já jovem: tinha dificuldades para respirar e se não conseguisse se acalmar, acabava desmaiando, para o meu total desespero.
_e-eu vou para casa... – ele murmurou levantando-se, ainda pálido, me fazendo sentir ainda mais culpado. Merda! Eu tinha que me manter no controle.
_eu levo você! – informei pegando meu blazer caído no chão.
_não precisa... – falou, mas era notório que ele não estava em condições de dirigir.
_não estou perguntando nada! – declarei por fim – vamos!
O meu dia tinha acabado. Levei Enzo para casa, e fiquei trabalhando de lá, ou pelo menos, tentando trabalhar de lá, pois meu pensamento voltava a todo momento para Antonella e todo o seu passado sombrio e doloroso. A vida não fora justa conosco, porém além de injusta, foi cruel com minha menina.
Minha menina.
Não poderia afirmar se ela era mesmo minha Elizabeth, porém no meu coração, algo já crescia por ela; e mesmo que não fosse, faria de tudo para que a pobre menina nunca mais sofresse na vida. Não iria permitir isso.
Enzo não desceu para o almoço, alegando estar sem apetite, porém notei que seu aspecto doentio ainda não havia melhorado, e pensei comigo mesmo: se ao anoitecer, ele não melhorasse, iria leva-lo ao hospital.
Para minha infelicidade, não precisei esperar até o anoitecer, pelo entardecer, fui ao seu quarto, e o encontrei prostrado de joelhos no banheiro, ofegante. Me abaixei rapidamente, e levantei seu rosto com as mãos, o mesmo estava banhado em lagrimas.
_Enzo! – o chamei com urgência. Ele soluçou alto, tremendo, respirando desesperadamente. O peguei do chão pelo tronco, o levando até a cama; peguei uma camisa dele qualquer e enfiei por sua cabeça; num passar de mãos, tomei sua carteira, e o joguei em minhas costas.
Agradeci mentalmente por fazer crossfitness ou então jamais conseguiria carregar meu filho; desci as escadas, partindo rapidamente para a garagem. Coloquei-o no carro e me joguei por cima do capô, entrando em seguida.
_respire, Enzo! Respire! – liguei o carro e sai o mais rápido possível da propriedade, que se danasse todas as multas que eu tomaria por dirigir daquela forma.
Cada segundo dentro daquele carro parecia uma eternidade, me angustiando ainda mais; e então o tempo pareceu parar quando parei no estacionamento do hospital. Estacionei de qualquer jeito, pegando-o para pô-lo em minhas costas novamente. Apressei o passo, quando sua respiração começou a falhar.
Adentrei na recepção chamando por ajuda, e logo dois enfermeiros o tiraram de mim. fiquei aguardando ali por noticias, enquanto dava entrada na papelada necessária.
O medico veio pouco tempo depois, informando-me que Enzo havia sido medicado e passava bem, o manteria ali apenas algumas horas em observação. Pude respirar aliviado, indo para o quarto com ele.
_desculpe... – falou sem graça, quando entrei no quarto onde ele havia sido colocado – eu não consegui chama-lo... – confessou, e me aproximei mais da cama – não consegui comer, não consegui dormir... Eu só conseguia imaginar aquela cena hedionda, e quando dei por mim, já estava tendo uma crise...
_sei que não e fácil lidar com isso, muito menos com as coisas as quais ficamos sabendo, mas não adianta se escandalizar com isso, nesse momento... – falei tentando tranquiliza-lo.
Caímos num silencio confortável, pois precisávamos assimilar aquela situação de acordo com nossas forças. Ficamos ali, até o medico dar alta para ele.
_vamos para casa, não acredito que você me trouxe descalço pai! – enzo resmungou.
_desculpe, salvar sua vida era minha prioridade! – o alfinetei e sorrimos.
Mal chegamos a dobrar no corredor, quando um enfermeiro passou correndo com uma criança nos braços, com a mãe logo atrás. Ela trombou em mim, e segurei-a com força, para que não caísse.
_ME SOLTE! – gritou aflita e a reconheci.
_Antonella... – falei enquanto ela me empurrava e ia atrás do enfermeiro correndo.
Havia acontecido alguma coisa grave.
O que será que aconteceu Pandinhas? Comentem e deixem a estrelinha, não se preocupem, que não vou desistir da história!
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Laços de Sangue
Ficción GeneralSeparados por nada além do ódio e da ambição de alguém que vivia para seus própria interesses. O desejo obsessivo e destruidor por poder, causou assim uma ferida profunda na alma do empresário Cristian Castellamare. Com o sequestro de um dos filhos...
