16 Tempo

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Finalmente estava tendo um tempo para curtir a família, sem festas glamorosas, malucos tentando nos destruir, paparazzi escondidos por todos os lados, pessoas invejosas e todo o resto do circo. Erámos apenas nós cinco: Hagnar, eu, Cristian, Lorenzo e Enzo.

Observar meu filho correndo em seus passinhos pequenos, atrás de Enzo, que se retardava de proposito esperando o menor, me fazia compreender que meu menino estava crescendo e que em breve eu o perderia para Enzo, sem sombras de duvidas, se é que já não havia perdido.

Uma pequena folha seca, trazida pelo vento, grudou em meu cabelo, sorri enquanto a pegava com a mão, sentindo o peso pouco familiar da aliança que agora carregava no dedo. Ainda era surpreendente para mim, como um conto de fadas, ou como num daqueles romances clichês em que a mocinha pobre se dá bem no final sabe, com o príncipe encantando e fica rica.
Eu com certeza era a menina pobre que ficou rica, mas uma vez que eu deveria ter tido uma boa vida desde sempre, pois meus pais eram afortunados, não sei se me encaixo totalmente nesse perfil. Claro que me dei bem, Hagnar era o cavaleiro branco sonho de qualquer menina, além de lindo, era atencioso e respeitoso, pomposo, e gostoso... Coisas do tipo. Ele tinha aquele ar selvagem, achava interessante como seus olhos escureciam quando olhava para mim, desde que decidimos (ele decretou, na verdade, depois do acidente, já que eu só sai correndo e acabei atropelada, mas sou totalmente a favor de sua decisão) que íamos nos casar, ele me olhava de um jeito diferente, como uma promessa oculta... Até conseguia imaginar algumas coisas, mas não era como se eu fosse a pessoa mais experiente no quesito sedução ou sensualidade.

Preferia não pensar no assunto, para não criar paranoias (uma especialidade minha, chegamos em acordo sobre isso, quando começo a imaginar coisas demais, me torno um perigo para minha própria sanidade, cruel!) e tentar deixar as coisas acontecerem.
Quer dizer, menos de dois meses atrás, eu estava sozinha com um filho pequeno para criar, num bairro humilde e distante de tudo, procurando desesperadamente um emprego e vivendo um dia de cada vez, torcendo para o dia seguinte ser melhor do que o que havia se passado.

E de repente tudo mudou!

Ganhei um emprego!

Hagnar meu amigo (amor encubado) voltou da guerra (e voltou realmente para mim, o que não deixou de ser uma surpresa) para ficar comigo!

Descobri quem eram meus pais verdadeiros e o motivo pelo qual tive uma vida fodida de merda!

Tive meu filho sequestrado e pensei que ia morrer com a possibilidade de perdê-lo para sempre!

Passei semanas neurando com um “amante” que nunca existiu!

Fui atropelada e fiquei noiva!

Ganhei uma festa de aniversario glamorosa, seguida de um pedido de casamento oficial e pomposo, no clássico estilo contos de fadas, com Hagnar ajoelhado na frente dos milhões de convidados! (claro que não eram milhões, mas não reconheci rosto algum ali).

E depois de tudo isso, finalmente, tivemos um tempo de calmaria. Cristian sugeriu que fizéssemos uma viagem para uma fazenda que a família tinha, no interior. Não era nada luxuoso, ele garantiu, mas tínhamos um casebre aconchegante com sete quartos (e ele ainda disse que não era luxuoso) todos com banheiros particulares, uma cozinha abastecida com alimentos naturais, uma sala de estar sem TV, apenas com uma lareira e sofás confortáveis e espaçosos.

Havia animais ali, alguns poucos funcionários que cuidavam do local e o mantinham em excelentes condições. Um campo aberto lindíssimo, coberto de verde e com muitas flores. O vento soprava fervoroso, causando uma sensação de liberdade.

_você esta com um sorriso tão lindo... – sua voz chegou a mim, antes de ele se colocar ao meu lado – pensando em mim?

_que presunçoso! – sorri para Hagnar, que se sentava ao meu lado.

_é claro! Ela esta pensando em mim! – meu pai convencido esparramou-se ao meu lado, deitando na grama, sem qualquer pudor – ai como estou velho! – reclamou.

_infelizmente, nenhum dos senhores acertou! – brinquei.

_não me chame de senhor, minhas costas ouvem isso! – meu pai reclamou fazendo careta – sinto a idade me nocauteando!

_você seria um excelente ator, Cristian! Deveria largar o ramo empresarial, eu cuidaria de tudo para que você se dedicasse a vida de ator! – Hagnar propôs.

_sei suas intenções! Já levou minha filha, meu neto, e agora quer minha empresa! – rebateu.

_não custa tentar! – deu de ombros – então o que a fazia sorrir?

_eu gosto daqui! Da sensação de liberdade, sem toda a loucura... – expliquei – gostaria de ficar assim todos os dias!

_você sabe que pode, não é? – Cristian declarou e eu o olhei confusa – apesar de ser longe da cidade e o percurso ser um pouco mais longo, você pode escolher morar no campo!

_mas e o apartamento? – olhei para Hagnar que deu de ombros.

_é só vende-lo ou mantê-lo para hospedagens emergenciais! Quando você estiver cansada demais, sabe... Isso é o que menos importa! Se você quiser, podemos morar no campo! – concluiu.

_não sei...

_você terá tempo para pensar, mas queremos que escolha algo que goste, que vá te satisfazer, não precisa se preocupar em agradar a nós ou ficar com receio de escolher algo por ter o apartamento... – meu pai comentou – felizmente, é um dos privilégios que temos e lutamos bastante para consegui-lo, portanto, nada melhor do que abusarmos dele!

_isso soa bom para mim... – murmurei e encarei Enzo, que vinha caminhando com Lorenzo em seu colo, ambos rindo.

_você ainda esta com aquela expressão de quem esta sonhando... – meu pai falou, ganhando minha atenção.

Era tão belo. Tinha olhos tão lindos. Qualquer um era incapaz de negar nosso parentesco. Nosso traço recessivo era tão forte, que me surpreendia a cada dia, vendo Lorenzo ficar parecido com Enzo e com Cristian. Era gritante nosso laço sanguíneo.

_Ella? – Hagnar tocou meu ombro – tudo bem?

_só parece um sonho... É difícil aceitar naturalmente todas as mudanças que ocorreram no ultimo vez! As vezes sinto como se fosse acordar e me encontrar sozinha de novo, mas ai quando acordo... Tudo esta ali! Todos estão... É complicado...

_é um trauma que iremos superar juntos! – meu pai sentou-se e afagou meus cabelos – passamos 18 anos afastados, mas agora estamos juntos, e nunca mais iremos nos separar, e mais importante que isso, você nunca mais estará só...

***

“você nunca mais estará só...”.

Fora o que meu pai me disse.

Fora como Hagnar concluiu seus votos durante a cerimônia do nosso casamento, desencadeando um choro incontrolável em mim.

Fora com essas palavras que expurguei todas as memorias ruins que tive por 18 anos, e reiniciei do zero.

_promete se comportar? – perguntei pela ultima vez, com meu coração de mãe apertado, afinal, nunca tinha estado longe do meu filhote por tanto tempo e por vontade própria.

_sim mamãe! – meu pequenino respondeu pela chamada de vídeo – tas pesente!

_é claro meu amor! Tudo para você! – me derreti.

_aproveite a viagem, pode deixar que cuidamos de Lorenzo! – meu irmão me assegurou – dá tchau pra sua mãe! – falou pro sobrinho que me deu tchauzinho e desceu para correr pela casa – cuide da minha irmã Hagnar!

_vou cuidar da minha esposa, Enzo! – rebateu e finalizou a ligação – pronta para aproveitar nossa lua de mel?

_posso desistir ainda? – sorri enervada.

_só se você se jogar do avião! – respondeu.

_as chances de sobrevivências são de 45% para alguém que usa paraquedas sem experiência! – enfatizei e Hagnar sorriu, ele estava sendo extremamente paciente comigo nas ultimas 48h de surtos meus.

_Ella, curta nossa viagem! Olhe pela janela, veja a paisagem! Veja o lugar, a musica, as cores, as pessoas... Se permita sentir a vida e a beleza ao seu redor! Não fique pensando bobagens, concordamos em evitar paranoias!

_estou ficando nervosa, apenas isso! – engoli em seco – tenho medo de... Medo de... Você sabe...

_esta tudo bem! Não pense nisso agora! – beijou minha testa e virou meu rosto delicadamente para a janela – veja, já estamos quase pousando!

Era tudo lindo. Estávamos fazendo um tour e não sabia mais onde estávamos, 48h atrás quando deixamos a cidade, iniciamos nossa lua de mel. Dividimos a cama, mas eu estava tão nervosa, tão extremamente nervosa que quase tive uma sincope e surtei, mas Hagnar apenas deitou na cama comigo, me abraçou e dormiu. Eu sabia o quanto isso era injusto com ele, mas ainda não estava preparada... Sequer sabia por onde começar... Eu estava perdida.

Então tínhamos passeado, comido, brincado, feito compras e voltado para o hotel para dormir, porque eu estava insegura demais com tudo. Quando pegamos o voo e continuamos nossa viagem, decidi tomar coragem e ver no que ia dar, claro que a coragem que tive de tomar aquela decisão havia se esvaído completamente e eu estava sendo engolida pelo medo.

No final do dia, quando estávamos de volta ao hotel, apelei para um pouco de coragem liquida.

_vamos nadar! – ele sugeriu, pegando-me de surpresa – não pedi para ficarmos no térreo a toa! A água agora é maravilhosa...

_se você diz... – dei de ombros.

Apesar do vento frio, a água era morna, não tinha ninguém na praia, a iluminação era pouca e a lua brilhava majestosa. Hagnar traçava pequenas trilhas de beijos em meus ombros, meu pescoço, completamente paciente, enquanto eu relaxava aos poucos.
Aquela era uma dança a dois, e o condutor experiente era Hagnar, então eu o deixaria me guiar com prazer. Sem medo! Ele parecia sentir cada fibra muscular de meu corpo, apertando-me de leve, causando sensações agradáveis e um desejo crescente por seus toques.

Ah, ele sabia como conduzir uma dama, com delicadeza e precisão, era um expert no que fazia, enquanto eu me permitia aproveitar a sensação de seus toques. Minha primeira vez ficaria por longos dias na memória, a lembrança de estar feliz e completa nos braços do homem que eu secretamente amava.
Depois do quarto dia de viagem, a saudade bateu mais forte, e eu queria meu filhote, e como o príncipe encantado que meu marido era, comprou uma passagem aérea e o trouxe para continuar a viagem conosco, embora não fossemos permanecer apenas três, do jeito que as coisas estava indo.

Era um verdadeiro sonho, e eu estava vivendo ele acordada e bem acordada!

***
_eu preciso comer alguma coisa com queijo, pelo amor de tudo que é sagrado! – choraminguei arrastando-me para a cozinha – por favor... Queijo!

_vovô, a mamãe quer queijo! – Lorenzo saiu correndo atrás do meu pai.

_isso é desejo menina! – Violeta, a senhora adorável que cozinhava para nós sorriu, indicando uma cadeira próxima ao balcão – macarrão com queijo, serve?

_sim! Por favor! – salivei apenas em pensar.

_dê-me cinco minutinhos! – pediu – essa princesa vai ser bem exigente quando estiver entre nós!

_não vejo a hora... Minhas costas doem! – choraminguei – e eu não sei o que é dormir!  A barriga incomoda!

_é normal, menina! – consolou-me.

_eu sei! – suspirei.

Acho que não ligava tanto para o desconforto assim, quando estava esperando Lorenzo, afinal, as circunstancias eram outras e eu estava grata demais por apenas estar viva e com meu bebê, mas depois de 5 anos de mimos e mais mimos, eu tinha cedido um pouco, e estava mais a vontade com minha nova vida.

_Hagnar avisou que esta vindo, seu voo atrasou, mas ele já fretou um jato particular e estará aqui em breve! – Enzo entrou na cozinha, logo beijando minha barriga gigante – oi bebê! – sorriu – oi mãe esfomeada da bebê!

_oi tio da bebê! – respondi com um sorriso.

_ainda estão chamando-a de a bebê? – Violeta perguntou.

_sim! Ainda não escolhemos nomes, e Hagnar disse que a escolha seria minha, então... Estamos na estaca zero, mas temos um plano! – falei – vamos esperar nascer, e então vamos olhar bem para ela e ver a cara de qual nome ela tem!

_isso é um plano bem ridículo! – meu irmão gargalhou – mas acho que é o que temos para a hora!

_tome, menina, mate seu desejo! – ela serviu-me um prato de macarrão com queijo – não queremos que a pequenina nasça com cara de queijo!

_chamaríamos ela de Cheddar, ou de Mussarela! –nosso pai entrou no recinto, acompanhado do neto – por favor, coma! Não queremos queijo em nossa família!

_reconfortante! – resmunguei, atacando meu prato – avise a Hagnar que eu o quero aqui, antes que o bebê decida vir ao mundo! Ele que venha voando! – falei ao nosso pai.

_mas ele esta vindo voando mamãe! No avião! – meu filhote falou na inocência de uma criança, o que me fez suspirar.

_eu sei amor! – sorri para ele – você quer? – ofereci.

_não! – sorriu – vovô vai me levar pra comer massa!

_eu quero massa! – resmunguei baixinho.

_vamos, mate seu desejo, que a levarei para comer massa! – nosso pai aproximou-se, e abaixou o rosto perto da minha barriga – você esta fazendo sua mãe comer bastante, mocinha! É melhor sair logo dai, ou ela vai ficar bem grandona!

_que crueldade pai! – rebati.

_vamos princesa! Estou apenas esperando você! – beijou minha testa.

Saímos para comer massa e o dia se passou num piscar de olhos, pois consegui uma posição confortável para dormir e quase entrei em hibernação. Acordei de madrugada, sentindo algo molhado na cama, e Lorenzo que havia dormido comigo, na ausência do pai, estava me olhando engraçado.

_o que foi? – sentei-me ainda confusa pelo sono.

_você fez xixi mamãe! – respondeu sorrindo – esta molhado... – olhei para a cama, sentindo aquele liquido viscoso e um pouco morno.

_chame seu avô para mim! Por favor! – pedi, tentando parecer tranquila, enquanto levantava-me da cama devagar – diga que a mamãe fez xixi!

_tá! – ele pulou da cama, abriu a porta e saiu correndo do quarto.

A luz foi acesa bruscamente, me deixando desorientada por alguns segundos, quando a voz de Hagnar atingiu-me em cheio.

_você deveria estar dormindo! – ele brigou, se aproximando.

_a bolsa estourou! – falei de uma vez.

_e eu que pensei que ia surpreendê-la! – sorriu nervoso – esta com dor?

_ainda não! Ainda! – enfatizei.

_o que houve? – meu pai surgiu na porta, desgrenhado de sono – quem fez xixi?

_sua neta resolveu que quer vir ao mundo agora! – falei, enquanto Hagnar me ajudava a colocar um vestido adequado para sair.

_vou tirar o carro e ligar para sua medica! – falou e sumiu pela porta.

_mamãe, eu falei pro tio Enzo também! – Lorenzo entrou no quarto, rebocando meu irmão.

_agora? – ele olhou-me surpreso, apenas afirmei – hey, garotão, sua irmã vai nascer daqui a pouco! Vamos lá trocar de roupa e ajudar seu avô!

_tá! – ambos saíram.

_você acha que ela terá olhos âmbar? – Hagnar perguntou com um sorriso bobo.

_que tipo de pergunta é essa? – sorri enervada.

_se pudesse escolher, eu escolheria os seus olhos! São lindos...

_quero ver dizer coisas românticas quando eu estiver esmagando sua mão e gritando com dores! – ele sorriu ainda mais.

_vai valer cada apertão e cada grito! – declarou conduzindo-me para fora devagar.

_e respondendo a sua pergunta... Não sei se é provável que ela nasça com olhos âmbar, é uma recessividade rara, e já é um milagre tantas pessoas em uma linhagem direta com os mesmos olhos!

_vamos ver!

***

Quando Elizabeth finalmente abriu os olhos, eles eram pequenas esmeraldas cor de mel, tão âmbar quanto os de sua mãe, e observavam os rostos felizes e sorridentes encarando-a fascinados. Não entendia o que estava acontecendo, e não sabia o que a esperava, mas sentia o calor dos braços de sua mãe envolvendo-a, o toque suave de seu pai, o olhar curioso de seu irmão mais velho, e o amor que irradiava daquela pequena família, que mantinha um laço eterno, que ia muito além do tempo e de qualquer adversidade.

A pequenina ainda não sabia, mas um dia entenderia que era abençoada por pertencer a aquela família, a qual o destino havia tecido o mais belo, forte e inquebrável laço de sangue.

Fim.

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