Capítulo 9

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Acordei com o sol que vinha da janela no meu rosto. Me assustei quando olhei para o lado e Matt não estava lá.

Procurei pela casa, gritando seu nome. Verifiquei no meu quarto (que estava uma bagunça, por sinal); verifiquei o quarto de minha mãe, que estava dormindo (nem vi ela chegar) e coloquei uma cobertinha nela; e no quarto de Zouth, ele ainda estava dormindo.

Bom, acho que ele foi embora mesmo. Estranho.

Olhei no relógio e vi que daqui a pouco já era hora de acordar, então fui fazer o café. Eu particularmente não gosto de café, mas minha mãe e meu irmão são viciados, então fui fazer para eles.

Acho muito legal que agora com meus poderes posso aquecer as coisas com as mãos. Então, peguei a cafeteira e comecei a esquentar o café.

Então pensei: se posso "roubar" as luzes, será que posso roubar calor? Quer dizer, é o mesmo princípio.

Coloquei minhas mãos na cafeteira e comecei a tentar pegar o calor dela. Fechei os olhos, e quando percebi, estava conseguindo.

Era ótima a sensação do calor subindo pelo meu corpo, e naquele momento eu senti o poder me invadindo. Me senti muito poderosa.

Abri os olhos e fui devolver o calor para o café, afinal, meu objetivo inicial era esquentá-lo.

Então, comecei a sentir o poder se esvaziando de mim, e perdi um pouquinho o controle. A cafeteira esquentou demais e acabou estourando, e quando fui pegar um pano para limpar o café acabei colocando fogo no pano, e só aí percebi que das minhas mãos estavam saindo faíscas. Tentei ligar a torneira para evitar que tudo pegasse fogo, mas escorreguei no café que havia caído no chão e então tudo se tornou um caos.

- Que está acontecendo?- pude ouvir meu irmão gritar.

Levantei rapidamente e nós dois começamos a jogar bastante água na cozinha, mas não estava adiantando.

Use seus poderes - me veio este pensamento. Então, sutilmente eu toquei no chão e pude absorver todo o fogo e o calor. Zouth então me ajudou a levantar e, logo em seguida, perguntou:

- Como isso aconteceu? - Pude perceber que ele estava olhando para os botões intocados do fogão. - Você nem ligou o fogão.

Dei de ombros, já que não tinha uma resposta boa o suficiente. Vi que ele parecia um pouquinho bravo, mas tentava não demonstrar.

- Ta - começou a dizer. - Vamos arrumar essas bagunças, e depois você se arruma para a gente ir pra escola.

Concordei com a cabeça, e nós dois começamos a limpar o chão e guardar a bagunça.

No carro, Zouth estava bem calado. Vi que estávamos indo para um outro caminho que não a escola, então perguntei:

- Para onde estamos indo?

Percebi que estávamos indo para a parte rica da cidade.

- Para casa de Belle - respondeu ele.

- Pera, ela é... rica ? - falei com uma voz de surpresa . - Não, essa garota tem qualidades demais, ela só pode vir de outro planeta.

Ele não respondeu.

Paramos em uma casa linda, de vidro, que esbanjava luxos. Dava para se ver piscinas enormes, um jardim muito bem cuidado, com cômodos lindos. Móveis de qualidade. E então Belle saiu de lá, parecendo sair de uma capa de revista. Ela não era só rica, ela era muito rica.

- Olá, amor - cumprimentou ela entrando no carro e dando um beijo no meu irmão. - Oi, Eli. - Deu um sorrisinho pra mim.

Estava tão encantada com aquela casa que nem consegui responder.

Quando vi já tínhamos chegado à escola, que parecia um lixo comparado a casa de Belle.

Encontrei Sasha no corredor e nós duas fomos para a aula de Química. Sentamos lado a lado, e logo o senhor Harrison chegou.

- Bom dia, turma - disse todo animado.

A classe respondeu um bom dia meio morto, como sempre.

- Hoje, vocês vão trabalhar em duplas.

Todo mundo passou a sorrir, já escolhendo os amigos, até que ele completou.

- Que eu vou escolher.

Todos começaram a reclamar, até que depois de um tempo ficaram em silêncio e ouviram o professor chamar.

- Peter e Karen. Nina e John.

E por assim adiante. Ele começou a olhar para mim e Sasha, e pensei: ele não vai nos separar. Quer dizer, acho que ele gosta um pouco de nós, e ele sabe como somos unidas e como eu tenho dificuldade em falar com outras pessoas.

- Sasha e Jason - anunciou ele.

Ah não, não, não. Lancei um olhar para ela de que estava perdida. Ela passou a mão no meu ombro e foi se sentar com Jason, que a recebeu com um sorriso.

- Eleanor e Matthew.

Bom, não era ruim. Quer dizer, acho que agora eu e Matt meio que somos amigos. Fui me sentar a seu lado, e só então percebi como ele estava no fundo, quieto, isolado de todos.

- Oi - disse eu. - Que horas você foi embora ontem?

Mas ele não me respondeu. Deixei pra lá e comecei a tentar prestar atenção na aula. O professor nos levou ao laboratório, onde tínhamos que aquecer uma substância com o bico de Bunsen. Todos colocaram os óculos de proteção e as luvas, e o Sr Harrison disse para tomarmos cuidado.

- Olha, Matt - falei, olhando para ele. - Posso colocar fogo com as mãos.

Ele só ficou olhando, e então coloquei. Mas acho que coloquei mais do que o necessário, porque quando vi, a substancia tinha explodido em nós dois. O Sr Harrison e toda a classe olharam para nós, uns dando risadas, outro preocupados e Matt ficou lá com aquela encarada de quem ia me matar. Em meio a tudo isso, só dei uma risadinha meio sem graça e saí.

Mais tarde, na hora do almoço, comprei um café para meu irmão, já que hoje ele não tinha tomado de manhã e também porque ele diz que café vai bem a qualquer momento do dia.

No corredor, andando apressada, acabei esbarrando com Matt, derrubando todo o café na sua camisa, e nós dois caímos com o empurrão forte. Já era o terceiro desastre de hoje. Ele estava de novo com aquele olhar bravo que me assustava, então comecei a tagarelar um milhão de desculpas.

- Não, eu não te desculpo - respondeu ele. - O que você estava pensando?

- Eu, eu só - comecei a falar meio sem graça, gaguejando um pouco. - Só queria entregar um pouco de café para o meu irmão, porque hoje ele...

- Qual é o seu problema? - me cortou ele.

- Só estou tentando ser legal com as pessoas.

- Então para! - E com um tom mais baixo, porém muito indignado, continuou: - Porque não tá adiantando.

Dito isso ele se levantou e saiu, me deixando sozinha, caída num chão inundado de café. De novo.

A garota iluminadaOnde histórias criam vida. Descubra agora