Capítulo Cinco

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O rei monta seu cavalo e sai do castelo. Sua face expressava o mais puro desgosto. Leon seguia rapidamente para seu destino, que logo se mostrava ser a residência de Iná. Leon desce e, aproveitando o horário em que nenhuma das poucas pessoas da vila estavam na rua, o rei simplesmente chuta a porta da casa de Iná. A senhora estava sentada em sua cadeira de balanço, tricotando o que pareciam meias. Era um passatempo de Iná fazer tais peças de roupa no inverno para distribuir entre algumas pessoas. A casa estava um pouco aquecida, afinal, Iná estava fazendo chá, deixando a casa com o leve cheiro da camomila e a fumaça se espalhando pelo ar. Já controlado pela fúria, Leon apenas avança em direção a senhora, porém não a ataca, não por pura vontade, mas por interrupção dela mesma, que levantara a palma de sua mão contra a direção do homem:
-Você não tem noção do quanto eu queria socá-la agora... - Leon dizia enquanto se afastava da senhora, pondo ambas as mãos nas laterais de sua face, indicando descontrole e demonstrando que o mesmo possuía um desejo forte de gritar.
-E isso é coisa que se faça com uma idosa, Leon? - Iná dizia calmamente, com os olhos fechados, enquanto ainda balançava em sua cadeira, prosseguindo sua atividade.
-Você não tem noção do que pode ter causado! Se notarem grande semelhança entre eles, se descobrirem que essas crianças são gêmeas... Um grande escândalo vai surgir! Você não vai só afetar a mim, quanto a rainha! Vossa amada rainha! Minha amada Helena... - Ele vai diminuindo o tom conforme fala de Helena.
-Leon, eu te conheço muito bem, sua encenação pode funcionar com a ingênua da Helena, - Ela abre os olhos e põe as meias de lado, se levantando da cadeira - mas eu não sou sua esposa. Eu sou sua mãe! se não fosse idiota ao ponto de desistir tão rápido e ir em busca de uma vida fácil, aquelas aulas de teatro lhe teriam sido úteis agora, mas como tudo em sua vida, você desistiu, não é mesmo?
-Olhá só, não viemos discutir meu passado! Eu vim pra te dar uma lição por ter permitido que aquele bastardo fosse a festa!
-Oh deu deus! Fui uma mulher muito malvada ao ser uma avó que enfim realizou o sonho do seu neto, por favor, leve minha vida como punição!

Talvez aquela tenha sido a escolha de palavras menos adequada para o momento. Possuído pelo sentimento da fúria, Leon apenas para por uns instantes, permanecendo pensativo. Ele então se move para fora da casa e quebra uma pequena cerca ao lado da casa. Pegando o objeto, Leon retorna para dentro da casa se direciona logo ao fogo.
-Mas o que você pensa que está fazendo?! - Iná tenta segurar o braço de Leon, o que parecia impossível, já que era uma senhora tão pequena tentando segurar o braço de um hom-- de um monstro.
-Já que você quer jogar com suas regras, eu também jogarei com as minhas. Essa história acaba aqui. Após sete anos, você e esse garoto finalmente vão para onde não deviam ter saído, diretamente para o inferno. - É neste momento que ele dá uma cotovelada em Iná, a empurrando em direção a parede, e inicia a combustão no pequeno pedaço de madeira, que ele aproxima das cortinas para o fogo se alastrar com mais facilidade. - Chegou o fim do seu conto de fadas. Depois eu volto para me resolver com o garoto. - Ele seguia dizendo enquanto se virava e ia embora calmamente, dando as costas a Iná, que neste ponto estava presa pelas chamas que se iniciaram na cortina próxima a porta.

O incêndio estava se espalhando mais rápido que um guepardo correndo atrás de sua presa. A casa já estava preenchida pelo incêndio.

Enquanto Leon retorna ao castelo pelo caminho mais longo, o qual gostava de trilhar bastante, Gareth vinha pelo mais curto, o que impediu um encontro entre ambos.

[...] quando chegou na vila, viu a sua casa destruída, queimada, com cinzas voando, acompanhando a corrente de vento, e o fogo já apagado, com quatro baldes largados próximos do poço. Gareth vê Iná largada próxima ao poço e corre em sua direção, já com algumas lágrimas traçando o percurso de sua face.
-Iná! Iná! Vó Iná! - Gareth chamava e chacoalhava sua avó, mas a senhora não acordava de maneira alguma. - Iná! - O rapaz grita essa última parte, mas agora já estava caindo aos prantos. Suas lágrimas eram incontroláveis, mas pior que isso, só os soluços de Gareth. O garoto não sabia o que fazer sem sua avó e não iria querer perder a única pessoa em sua vida, a única que o zelou.

Gareth segura a mão de Iná e lá havia um pequeno pedaço de papel com as palavras "Confira o vaso". Por um tempo Gareth se mantinha confuso sobre o que seria aquilo. O vaso... Aquele vaso que sua avó tanto gostava, uma relíquia em sua família, agora estava quebrado atrás de sua casa. Dentre os destroços, papéis escritos. O rapaz pega os papéis e se senta ao lado de sua avó.

"Numa certa noite, sete anos atrás, um homem envolvido em mantos velhos deixara uma criança de frente a uma casa qualquer. O que antes era um orfanato, foi abandonado, então aquela criança agora estaria sozinha. Foi pelos trotes do cavalo que me dirigi a janela e o vi largado no chão. Depois que o maldito homem se afastou, saí e te peguei no colo, uma pequena e indefesa criança largada para a morte. Depois de alguns dias de dificuldade, enfim consegui alguém que cuidasse de ti enquanto eu ia atrás daquele homem. Tolo, um idiota sempre descuidado. Fui até a cidade, mais especificamente o castelo, e confrontei o rei. Sozinhos, nós discutimos. Ao que parece, ele não precisava de dois filhos, apenas da garota, para então se manter no castelo.
-Você vai ficar calada, ou dessa vez não terei pena dele! E ele não vai ser o único a ter um destino trágico. - O rei tentava controlar seu tom de voz - Eu irei lhe proporcionar condições para cuidar dele e mais um pouco em troca da boca fechada. E você nunca vai deixar que esse garoto venha até aqui. Ele tem de manter distância de minha filha! Não necessito de um garoto bastardo e uma velha pra me atrapalhar.
-Velha, não! Você me chama de mãe!
-Você não é mais minha mãe! Nós cortamos nossos laços, você agora é uma mulher qualquer vivendo na vizinhança da cidade.
-... Me dói ouvir isso... - Iná abaixa um pouco seu tom de voz, demonstrando certa tristeza com as palavras de Leon - Eu irei cuidar dele e o farei alguém melhor do que esse monstro que você se tornou! E talvez, um dia, ele venha a se tornar o rei de Demiurth.
-Boa sorte, "Iná" - Leon dizia em tom irônico enquanto ria - Bem, já acabamos por aqui, agora vai embora, você tem um pedaço de lixo para cuidar e eu tenho de dar atenção a minha linda filha.

Isso mesmo, Gareth. Você é fruto da família real. Entregue isto para Helena, ela certamente o acolherá e Leon será posto para fora. lhe desejo boa sorte, Gareth. Infelizmente, agora você deve ter acabado de sair do baile real, enfim realizou o seu sonho e eu, com minha afronta, destruí seu grande sonho... Até que faça isso, há uma parte do dinheiro escondido no baú, dentro do poço. Venho guardando esse dinheiro para uma emergência, e creio que esse seja o momento mais apropriado. Mesmo que seja uma boa quantia, não seja descuidado com o gasto."

Naquele ponto, as páginas já estavam encharcadas com as lágrimas do rapaz. Embora ainda legível, o papel estava molhado, era como se estivesse caindo uma tempestade sobre ele. Gareth junta as pernas, dobradas, e apoia sua testa sobre seus joelhos e após alguns soluços, ele sente um braço cair sobre ele, contornando suas costas. O rapaz volta sua face a idosa e lá estava ela sorrindo para ele.
-Me desculpe por não continuar ao seu lado... Espero que você consiga se reerguer... Agora... Fuja! Fuja pois o rei irá atrás de você. Pegue o dinheiro e... Esconda-se!
-Isso também estava no roteiro da grande peça?
-Com certeza está. E eu lhe garanto, em seu roteiro haverá uma grande... Revira...volta...

Após isso, Iná apenas sorri e continua apoiada onde estava, fechando os olhos lentamente, até que enfim, estava morta.

Servo do MalOnde histórias criam vida. Descubra agora