Lilith, John Collier (1892)
-Espera aí – Falei sem nem escutar o que Yves estava me dizendo mais. E aparentemente a morena não estava acostumada a ser interrompida, ela levantou uma sobrancelha bem feita pra mim. Seu olhar teria feito uma pessoa normal pensar duas vezes antes de continuar a falar, mas eu nunca fui muito normal mesmo. – Você quer dizer que estou aqui... por sua causa?
Minha pergunta pareceu a pegar de surpresa, e a outra sobrancelha foi levantada, sua expressão era ofendida. Puxou o ar para os pulmões, imagino tentando se acalmar.
-Se você gostar de me culpar pelos erros d'Ele. – Olhou pra cima e cruzou os braços, sentando-se mais pra trás na cadeira. Ok, talvez tenha sido meio injusta com ela, mas poxa, eu era a humana aqui, inocente (ok, nem tanto), mas não tinha feito nada para ficar no meio de um "daddy issues" com milênios de duração.
-Certo, desculpa. Isso saiu errado. – Me movi pra frente, buscando pensar em uma forma de resolver meu problema, sem deixar a primeira mulher criada no mundo irritada comigo ou pior. – Só não acho justo sobrar pra mim, sabe? Acabei me tornando um efeito colateral na sua briga com o seu pai.
Ela soltou o ar pesadamente, piscando lentamente e parecendo entender. Por um momento pude ver certa empatia no seu rosto, mas logo sumiu.
-Tudo bem, concordo que a culpa não é sua também. – Descruzou os braços, colocando os dedos entrelaçados em cima da mesa.
-Aparentemente acontece muito ao longo da História da humanidade. – Fiz uma pausa enquanto ela parecia tentar entender minha linha de pensamento. – Mulheres tendo que lidar com os erros dos homens. – Deixei meu comentário escapar e pude ouvir uma risada leve vindo dela. A encarei e acabei sorrindo também, era impossível ver o seu sorriso e permanecer séria.
-Não diria que Ele é um homem, mas os homens foram feitos a Sua imagem, então você deve ter razão. – Comentou divertida e eu sorri mais ainda. Ok, talvez eu pudesse me dar bem com ela. – Você tem alguma sugestão... – ela voltou a falar depois do nosso momento de cumplicidade. – de como resolver o seu problema?
-Estava pensando – mordi minha bochecha, refletindo se era uma boa ideia externar os meus pensamentos, eu sou uma pessoa que pensa bastante, mas ainda saio falando as vezes impulsivamente. Dessa vez não foi diferente. – já que nós duas estamos nessa situação, talvez nós pudéssemos nos juntar, entende. – Ela franziu o cenho, sem acompanhar meu raciocínio. – Yves, você conhece o purgatório como ninguém, certo? – Ela acenou, mesmo parecendo não gostar desse fato. – E eu quero subir o mais rápido possível. – Acenou mais uma vez. – Então, talvez você pudesse me ajudar, acompanhar minha passagem, me dar umas dicas, me dar um suporte pra acabar com o problema, então nós duas estares livres dele o mais rápido possível.
-Isso... – ela fez uma careta, como se eu fosse louca. – Eu nunca fico perto de humanos, geralmente fico lá no topo, de olho em quem está no indo pro éden, esperando... – Ela mesmo se interrompeu e pude ver tristeza em seus olhos, a mesma quando ela me contou sobre Lilith. – Esperando pra ver quantas almas são salvas sabe, gosto muito de ver as pessoas ascendendo aos céus.
-Então, perfeito, é isso mesmo que você vai fazer. – Sabia que aquilo não era o que ela ia falar. Meu instinto dizia que ela ia contar como ainda esperava por Lilith. Não sabia o que tinha causado o primeiro drama lésbico da História, mas não ia perguntar agora. A outra pareceu aliviada, até prestar atenção no que eu disse, então a careta voltou. – Olha Yves, pensa nisso, você pode acompanhar uma humana melhorando desde o começo. – Minha frase surtiu muito menos efeito do que esperava, então outra ideia surgiu. Talvez a melhor motivação para uma filha rebelde. – Também, se o plano de Deus é a gente namorando, se você me ajudar a subir pro Éden o mais rápido possível, ele vai entender que você não tem interesse na ideia de cupido dele.
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Fallen (Chuuves)
Fanfiction- Finalizada! - Kim Jiwoo é uma jovem que tem sua morte muito cedo, mas esse seria apenas o começo de sua história. Logo ela descobre que sim, há vida pós morte. Não é bem como ela imaginou, mas existem três lugares possiveis. E ela não foi parar no...