Porta do Purgatório

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The Shepherd's Dream, from 'Paradise Lost' (O sonho do pastor do 'paraíso perdido') Henry Fuseli, 1793

Se eu tivesse dúvidas que aquilo tudo era real, o fato de estar sendo guiada por dois demônios para encontrar diabo e Eva era o suficiente para acabar com elas. Minha imaginação não era tão fértil para inventar tudo isso.

-Bom, vamos ficar aqui na recepção do purgatório, eu vou contatar a minha chefe e Caron... Choerry vai chamar a chefe dela. – Lip, explicou. O local era escuro e não dava pra saber se toda decoração era vermelha, a poltrona, o balcão, o computador e o telefone, ou se a cor era devido a luz típica de boate. Parecia mais como um daqueles lugares que eu nunca entraria, tipo aqueles clubes BDSM, ou Swing, onde as pessoas têm quartos privados... O que foi? Eu posso não ter frequentado lugares como aqueles, mas eu li livros, ok? Na verdade, você pode resumir a minha vida com a frase "não por experiencia própria, mas eu li um livro...". Em minha defesa, eu tenho doutorado por isso.

Tive de me distrair com a decoração enquanto as duas usavam o telefone, porém era difícil não tentar ouvir a conversa. Era antiético ouvir a conversa de um demônio com o diabo? As conversas não parecerem muito boas, nenhuma das duas queriam ter que vir até a porta do purgatório, todavia no final acabaram sendo convencidas pelos demônios. "Não temos o que fazer com ela, vai ser uma alma perdida vagando no 'Lugar nenhum' e se ela tiver que ir pro Eden?". Claro que se tratando das criaturas mais rebeldes do universo, eu fiquei bem surpresa por isso funcionar.

-Então, alguém tem horas? – Foi a minha pergunta quando ninguém falou nada por um tempo, eu ainda tinha a mania de procurar meu celular no meu bolso, lembrar que eu nem tinha bolso na minha túnica cinza e então lembrar que eu estava morta, logo sem celular. E pensando bem, eu tão pouco precisava de horário. As duas nem se deram ao trabalho de me responderam, apenas me olhar como se eu fosse a criatura mais estranha do mundo. Mais uma vez, eu era uma aberração, nenhuma novidade aqui.

E foi então que uma das duas portas da sala se abriu. Por ela uma mulher de cabelos negros longos e boca triangular com lábios vermelhos surgiu, suas vestes eram em tons de roxo e preto, pareciam de um material muito mais refinado do que as minhas, algo tipo seda e que se misturava com suas longas madeixas. Ela tinha um ar sombrio, ainda assim parecia doce. Era complexa e me intrigava bastante, ainda mais por, logicamente ela ser o diabo e ser tão bonita assim. Eu não sei o que eu esperava, só não esperava por ela.

-O que temos aqui? – Ela perguntou, a voz rouca combinava com o ar misterioso que ela passava. Contudo, ela parecia tão jovem... Ela olhou de um lado ao outro com desdém. – É bom ter valido a pena me fazer entrar aqui. – O "aqui" estava carregado de nojo. Choerry e Lip apontaram pra mim, perdida, encostada na parede. – Ah, a humana. Conheço muitos da sua espécie, mas geralmente estão sendo eternamente torturados, é legal ver alguém sem estar chorando ou gritando. – Sua voz era quase simpática. – Eu sou Olivia. – Ela apontou para si mesma.

-Jiwoo. – Eu consegui falar, surpreendendo até eu mesma. No entanto, a minha voz fraca ao responder pareceu irrita-la.

-Eu não sei o que você ouviu de mim lá na Terra, só que eu não sou malvada, nem os demônios. – Ela ficava um pouquinho assustadora irritada? Talvez. Eu sentia como se ela fosse me bater? Talvez. Contudo, eu já havia me questionava isso. Nunca fui crédula, no entanto já havia lido a bíblia e alguns contos hebraico-cristãos por diversão – já estabelecemos que eu sou esquisita, superem – e eu nunca achei que o diabo fosse malvado. Na verdade, o conceito de inferno como concebemos foi uma criação da Igreja na Idade Média, baseada no Inferno de Dante, pra fazer com que os cristãos temessem a vida pós morte e poder controlar a população. Antes disso a religião não era separada em bem e mal, assim como a maioria das outras não são. Kim Jiwoo também é conhecimento.

-Eu não to com medo. – Consegui juntar coragem pra dizer, ela me olhou sem acreditar. – Pelo menos não muito. – Respirei fundo. – Eu sei que você não deve ser malvada, ainda sim, poxa você Reina o Inferno, desculpa se eu não consigo ficar confortável na sua presença.

Ela me olhou com sobrancelhas levantadas, parecia divertida e até soltou uma risada leve. Ok, diabo me acha divertida.

-Bom, sobre isso, foi super por acidente. – Choerry começou a falar contente, a risada de Olivia pareceu aliviar a tensão no ar, já que as duas demônios não se mexiam até o momento. – A queda de Olivia do Eden acabou criando o inferno e então Deus construiu o purgatório para ser uma conexão com o céu, só que a chefinha não voltou quando viu que outras almas humanas ruins estavam indo pro inferno.

-Eu não podia deixar que pessoas ruins de alma ficassem impunes. – Deu de ombros. – Mas não é o melhor emprego do universo, se eu pudesse estaria no Eden onde eu não tinha que trabalhar. – Algo pareceu a irrita-la novamente, e seu humor mudou. – Tudo por causa da Yves e daquela namo...

-Não da pra você superar isso, Olivia? Já fazem bilhões de anos. – Outra mulher a interrompeu, entrando na sala, saindo da escada que eu imagino, dava para o segundo andar do purgatório. Todas a olharam, não sei se pela surpresa ou por ela ser a criatura mais linda que eu já vira. Eva, teoricamente, não era um anjo, porém havia algo angelical e ao mesmo tempo diabólico na beleza dela. Lábios vermelhos bem preenchidos, uma pinta na bochecha em baixo do olho, cabelos longos castanhos, vestes vermelha Borgonha. E a voz, era como escutar veludo, se fosse possível.

-Ha... Eu já superei. – A garota de cabelos negros respondeu após uma risada debochada. – Eu só acho engraçado que a Lilith... – E então Yves espremeu os olhos, parecendo desafiar a outra a continuar a frase, e ela continuaria, se não fosse por Lip interferir.

-Então chefinhas. – Ela disse sem jeito. – O que faremos com a humana?

Essa foi a primeira vez que Eva olhou para mim, e eu não sei por que, só que eu desviei. De repente olhar para os meus pés descalços parecia muito mais interessante. Eu nem tinha notado que estava sem sapatos até agora. Muito interessante. Ela murmurou um "Hum" e senti que estava sendo analisada. Eu senti as suas se aproximando, até segurei a respiração, mas elas foram até Lip, que estava perto de mim. Levantei o rosto o suficiente para ver que cada uma pegou um dos meus arquivos e começaram a ler. De novo, eu não sei quanto tempo passou, então elas pareceram ter chegado numa conclusão.

-Bom, Kim Jiwoo. – Yves começou a falar e eu me obriguei a encara-la, qual é eu recentemente tinha encarado Lucifer, o que podia ser pior? Respirei aliviada quando vi que ela ainda olhava a minha pasta. – Você não teve uma vida com muitos pecados, nada que condene sua alma para o inferno e nada que não possamos trabalhar aqui.

-E eu acredito que é uma questão de tempo para você chegar no Eden. – Olivia continuou e eu alegremente virei meu rosto pra ela, era muito mais seguro olhar pra ela. – Parece aqui que o seu maior pecado com foi com você mesma, você sacrificou todos os anos da sua vida pelos seus diplomas. Não me entenda mal, eu admiro uma mulher humana que valoriza a sua educação num mundo onde como o seu, mas...

-Você precisa trabalhar seus maiores arrependimentos, inveja, rancor. – Yves continuou e dessa vez quando voltei a olhar ela olhava nos meus olhos, era como se pudesse ver minha alma e aquilo me arrepiou completamente. Segurei a respiração mais uma vez. – Então é isso:

-Você deve ficar no purgatório. – As duas disseram ao mesmo tempo, mexi minha cabeça tentando voltar o meu foco pro julgamento da minha pós morte e parar de ficar tendo um crush em uma das primeiras criaturas divinas.

-Ei, só que espera aí... – Pensei rápido em alguma defesa que eu pudesse usar, então lembrei que as demônios estavam dizendo que apenas "Ele" podia me julgar. – Vocês não deviam me julgar. Não é o que Choerry e Kim Lip disseram, que só Deus pode me julgar.

As duas criaturas pareceram amarguradas ao escutar eu falar dEle.

-Boa sorte em querer contatar ele. – Olivia disse.

-Ele te jogou aqui querida, ele não se importa conosco e muito menos com você. – Foi o que Yves disse. E deu a entender que a conversa estava encerrada. Para mim aquilo estava longe de acabar. Quem Ele pensa que é pra me deixar a deriva no meu pós-morte? Eu merecia estar no Eden, eu nunca fiz nada errado! Aquela conversa não tinha acabado pra mim, nem que eu tivesse que subir no Céu sozinha, eu daria um jeito. 

Fallen (Chuuves)Onde histórias criam vida. Descubra agora