A Quebra da Canção

49 3 2
                                        


   Calma...

   Natanaél repetia mentalmente um mantra de calma e tentava pensar em como fazer ela acreditar nele, mas sentia que ela estava irredutível, a lâmina em seu pescoço não lhe assustava, a dor maior estava em seu peito por imaginar que talvez fosse melhor ir embora e esquecer a garota de vez. O anjo levantou a mão devagar e a garota apertou mais a lâmina em seu pescoço, ele respirou fundo e então colocou a mão devagar na nuca dela, a encarava fixamente, não deixando que ela desviasse o olhar, aos poucos as sobrancelhas dela que estavam franzidas em uma expressão de raiva e outros sentimentos ruins da mesma estirpe. 

   Maya afundou a lâmina no pescoço do homem e o anjo nada disse, nem sangrou, nem gritou ou se arrepiou, a menina deslizou rapidamente a arma e o fino corte superficial logo brotou um fio de um liquido prateado e aos poucos o corte se fechou. A garota arregalou os olhos um tanto incrédula e então deu um passo para trás, aos poucos a chuva ia enfraquecendo e a lua ia mostrando um brilho cada vez mais forte, sua luminosidade era tanta que o anjo se viu novamente preso nos grandes olhos verdes de Maya, duas esmeraldas brilhantes e preciosas que lhe confortavam e lhe mexiam com algo dentro do peito. 

   O anjo se aproximou devagar da garota e tocou-lhe o rosto de forma delicada, ele acariciou a bochecha da menina e assim sentiu que ela se desarmou em suas mãos, Maya segurou as mãos do homem e fechou os olhos, sem que Natanaél percebesse ela deixou suas lágrimas escorrerem e se misturarem na chuva, talvez num misto de dor e ódio por todo dia confuso e caótico que ela havia tido a faziam se enfraquecer ao ver mais uma certeza sua se esvair por entre os dedos feito areia nas mãos.

   _Quem é você de verdade?_ A menina se afastou outra vez o olhando com tristeza, ela segurou com firmeza na capa e voltou a andar beco a dentro

_Você pode me chamar como quiser, da forma que preferir!_Ele começou a correr atrás da garota que agora chorava mais alto

   Maya continuava andando e por vezes começava a escorregar pelo chão molhado e sujo, o anjo tentava segurar a garota mas essa o afastava, em uma das vezes que ela o afastou, ao sentir que o homem segurou em sua capa ela a tirou, deixando que ele a segurasse e assim ela ganhasse alguns centímetros de distância dele, nesse momento o anjo pensou em desistir, deixar a garota ir, ela estava cansada, triste confusa, talvez sua presença apenas deixasse ela ainda mais incomodada, mas quando ele se recuou prestes a partir pode ver marcas roxas pelos braços da garota, pareciam pequenas a sombra da noite e então ele a puxou pelo quadril delicadamente para que ela viesse para a luz do luar. Para o susto do homem, a menina estava totalmente muchada, marcada e arranhada, viu elas estendidas pelos braços, ombros e partes escondidas na nuca da menina.

   _Você está bem?!_Preocupado ele a apertou contra si em um abraço não sabia o porquê fazia isso mas sentia seu peito acelerar e a vontade de aperta-la ali contra seu peito era maior que a vontade de questionar as próprias atitudes

   _Eu arrumei problemas com um cliente..._Ela disse baixinho e o abraçou de volta, aos poucos sentia as pernas falharem e segurava com mais força no homem que a segurou de volta sentindo o peso da culpa cair em seus ombros por ter deixado ela sozinha por tanto tempo

   A menina caiu de joelhos fraca e entre lágrimas, ela se recusava a se solta do homem mesmo com ele querendo continuar a vistoria e ver se ela possuía mais marcas pelo corpo ou algum ferimento mais grave que estava deixando ela fraca daquele jeito. Sem ter outra escolha, o homem a pegou no colo pelos braços, Maya não protestou, passou um dos braços pelo pescoço dele e se sentiu como uma pena ao ser carregada com tanta facilidade e assim foi guiando para ele onde os dois deveriam ir. Sem protestar e segurando todas as suas perguntas o homem ia calado pela cidade escura e sombria rumo a uma pequena casa feia e mal acabada, entrou com a menina no braços e ela parecia vazia, a moça lhe contou que suas colegas estavam dormindo e assim ele poderia subir em silencio até o quarto dela.

AzazelOnde histórias criam vida. Descubra agora