Nosso epílogo

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Isabela P. O. V.

Alguns anos depois...

Uma brisa leve e salgada entrava pela janela, agitando as longas cortinas recolhidas em ambos os lados da mesma. O calor do sol lá fora dissipou qualquer vestígio de frio que eu poderia ter trazido de Bariloche. O céu azul, que apresentava nuvens esparsas e pouco volumosas, parecia bem mais imenso. É claro que sei que ele já é imenso, mas, mesmo depois de todos os mais diversos lugares por onde passei, nunca havia tido uma visão tão ampla e privilegiada de tudo aquilo. E com a água azulada do mar e suas ondas formosas do outro lado da minha sacada, apenas esperando por mim, não poderia ter uma melhor sensação de paz.

- Finalmente...- falei para mim mesma, pondo minhas mãos sobre as barras de segurança da sacada, sentindo o vento atingir meus cabelos em cheio.- Brasil.

Fazia, mais ou menos, uma hora que eu havia desembarcado de um avião abarrotado de pessoas ansiosas para enfim chegarem em casa. Foi incrível, finalmente, poder ter colocado meus pés de volta à terra, ou melhor, à minha terra.

Assim que enviei uma mensagem para meu pai avisando-o que já tinha chegado ao hotel, ele me ligou de imediato.

Confesso que me dói um pouco me afastar dele por longos períodos. A saudade bate em meu peito como uma rajada de vento intensa e constante. Uma corda parece se enlaçar em meu coração para tentar puxá-lo para a mesma cidade, a mesma casa rodeada de pequenas margaridas, tendo a hera esverdeada se alongando pela sua lateral, quase alcançado a janela de meu antigo quarto. Se me esforçasse bastante, poderia até sentir o cheiro de café e brownies recém feitos pelo Sr. Souza, utilizando a receita da minha mãe.

Papai me ligava umas cinco vezes por dia, no mínimo. Mas a ligação que fazíamos antes de dormir, em que ele dizia o quanto me amava e o quanto sentia saudade era uma tradição. Eu chorava quase todas as vezes. Eram lágrimas de alegria, acredite em mim. Levava-me a muitos anos atrás, em que ele e minha mãe vinham até a minha cama para me dar boa noite.

Porém, viajar pelo mundo sempre foi algo que ansiei. Conhecer novas culturas, novos hábitos e as mais diversas pessoas. E toda aquela vontade se intensificou quando eu o conheci. E, depois, mais ainda quando ele teve que ir.

Ele.

É engraçado. Não importa quanto tempo passe, aquele palpitar diferente no meu peito permanece com a mesma intensidade. Cada batida que ecoava aqui dentro comprovava o que a minha cabeça demorou a desvendar. E quando ela, finalmente, percebeu, meu coração já havia se entregado.

O toque do meu celular despertou-me de meu devaneio. Caminhei até a cama macia onde o aparelho estava jogado. Peguei-o e logo vi que se tratava de uma chamada de vídeo. Um sorriso se alastrou por meu rosto.

- Isinhaaaaa!- gritou (muito alto) Giulia no momento em que atendi e coloquei o celular na altura de minha face. Do outro lado da tela, Agustina fez uma careta em meio ao barulho do italiana já que estava de fones de ouvido.

- Giulia, eu prezo muito pela minha audição. Então, se não for nenhum incômodo para você, gostaria de manter ela intacta. Obrigada!- falou a argentina. Giulia deu língua em resposta.

- Mesmo eu estando em outro país, vocês continuam com todo esse "amor"...- falei em meio a uma risada, sentando-me de pernas cruzadas sobre a cama, que possuía um leve cheiro de lavanda.- É lindo, sabiam?

Conheci Agus e Giulia na faculdade. Mas não pense que foi um "Oi! Prazer em conhecer. Podemos sentar aqui com você?" ou "Seja bem-vinda! Se você quiser podemos te apresentar o lugar". Não passou nem perto disso. Na verdade, meu primeiro dia não foi um dos melhores.

Words - IsulioOnde histórias criam vida. Descubra agora