Isabela P. O. V.
Fiquei pensando em milhões de porquês.
Por que agora?
Por que não daqui a muitos e muitos anos?
Por que teve que ser daquele jeito?
Por que ele?
Aquele ponto de interrogação idiota me atormentava. Ele gritava em meu ouvido e sufocava-me até que conseguisse me fazer chorar de novo.
Eu não conseguia sair do meu quarto. Saía apenas para comer. Bom, se é que aquilo que eu fazia podia ser chamado de "comer". No máximo, eu engolia a comida. Meu pai me respeitou, como ele sempre fez. Acalmou-me quando acordei de madrugada com lágrimas banhando minhas bochechas e fez chocolate quente com marshmallows para tomarmos enquanto ele afagava meu cabelo.
Ele estava triste também. Eu sabia.
Lílian tinha vindo até aqui. Queria saber como eu estava, conversar comigo, quem sabe até me convidar para uma caminhada. Meu pai abria a porta e dizia que eu estava dormindo, assim como ele fez na segunda vez que ela apareceu.
Tendo uma visão ampla do que estava fazendo, eu afirmo com firmeza que estava agindo como uma tremenda babaca. Acredite em mim. Tenho a plena consciência disso. Mas também sei que eu não conseguiria olhar para Lílian. Porque olhando para ela,... eu vejo ele. A semelhança entre os Peña é uma coisa impressionante, porém, nesse momento, é para mim uma faca no meu peito.
Fiquei me esquivando da realidade durante uns dias. Para ser sincera, não funcionou porcaria nenhuma. Ele estava em todo lugar. No parque, no lago, nos brinquedos velhos da praça, no pôr-do-sol, que eu parei de admirar; nos livros em minha estante, nos brownies dentro de um potinho em cima da geladeira, e até em um porta-retrato no criado-mudo próximo a minha cama. A situação piorou quando um envelope de cor amarelada e de papel áspero apareceu na frente da minha porta.
Era um convite.
Um convite para o enterro do meu único e verdadeiro amor.
O amor que escapou das minhas mãos sem que eu pudesse fazer qualquer coisa para impedir.
Não digo que foi aí que meu mundo caiu pois seria uma mentira. Não, eu desabei naquela fração de segundos em que encontrei aqueles olhos dourados do outro lado do janelão de vidro que, mesmo ofuscados pelo sofrimento, cintilaram quando me viram.
Estava me arrumando para o funeral. Vestia um vestido preto liso com um casaco muitos números maior que eu da mesma cor por cima. Acontece que o casaco não era meu.
Era dele.
De frente para o espelho, aproximei meu rosto da gola do casaco. O cheiro dele ainda estava lá, forte e envolvendo-me como um manto de calmaria. Inspirei fundo, querendo que aquele aroma continuasse ali, rodeando-me. Lembrava-me os momentos em que ele me abraçava. Céus... eram os melhores instantes do mundo.
Meus olhos queimaram e um soluço escapou de minha garganta. Isso acontecia com frequência agora. Ergui meu olhar ao espelho. Olheiras eram evidentes em meu rosto cansado. Meus olhos e meu nariz estavam vermelhos já fazia um tempo. Minhas pálpebras encontravam-se inchadas e meu peito permanecia pesado, como se uma pedra houvesse sido instalada, contudo, eu podia claramente sentir o gosto amargo e desesperador do vazio toda vez que eu fitava as fotos em preto e branco pregadas em um barbante na parede do meu quarto.
Enxuguei lentamente a água salgada em minhas bochechas, logo abaixando-me para fazer um laço nos cadarços dos meus all stars desgastados. Mesmo com a chuva que os mesmos haviam pegado, eles continuavam inteiros. Júlio gosta... gostava muito deles. Ele costumava dizer que era como anunciar a todos minha personalidade teimosa. Sorri recordando de suas palavras.
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Words - Isulio
Fanfic"Palavras. Às vezes inofensivas. Às vezes nem tanto. Às vezes tão óbvias, outras tão confusas. Contudo, são poderosas de uma forma que não podemos imaginar. Elas podem se tornar escadas, abrigos, faróis, barcos e até seu próprio quarto, desde que es...
