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Lisa

O tempo costuma passar lentamente pelos meus tediosos dias dentro de um cômodo completamente isolado, e sim, estou aqui por uma opção apenas minha. Já faz quanto tempo que estou sem ver a luz do dia? 5, 6 ou 7 meses? Realmente, me perdi no próprio mundinho que criei durante todo esse tempo.

Talvez as pessoas tivessem certas sobre o meu comportamento hostil e egoísta nesses últimos meses. Vendo por este lado, fiz bem em me isolar de tudo e todos, foi um favor a eles e a mim.

Nem a minha mãe ou meu irmão se importam comigo.

É, posso dizer que caí em total esquecimento. Chega a ser irônico como tudo pode ir ladeira abaixo em um piscar de olhos, aprendi isso da pior forma possível. 

Desde que eles se foram, tudo ficou mais caótico por aqui, porém, não os culpo por desistirem de mim, eu já tinha me abandonado há bastante tempo. Não posso cobrar uma coisa deles que nem eu mesma fiz.

Eu fodi com a minha própria existência e estou pagando por isso.

Minha cabeça dói automaticamente só de pensar nisso, talvez sejam só os diversos remédios que ingeri à pouco tempo atrás fazendo efeito, vai saber. Pelo menos com eles, consigo fechar os olhos e dormir, tudo bem que quando acordo, parece que tratores passaram por todo o meu corpo. Se o preço que tenho que pagar para conseguir dormir é esse, posso lidar com isso.

Estou mais que acostumada a estar assim, nada me importa mais. Consegui ultrapassar o fundo do poço, estou em um abismo que parece não ter um fim, a luz já não me alcança mais. Não consigo enxergar nada além da escuridão e sentir nada além do enorme vazio que se instalou dentro do meu ser, esses serão meus dias até minha morte.

Hey, ela se mexeu, viu?

Levantei meu corpo em um pulo, sentando sobre a cama com o rosto confuso. Estou ficando maluca? Não há ninguém aqui! 

— Além de depressiva, estou começando a ouvir vozes. Pensei que não chegaria a tanto— estalei a língua, negando com a cabeça.

Sério mesmo? Não vi nada, não está brincando novamente, ou está?

Mas, que diabos! De onde está vindo isso? As vozes femininas desconhecidas por mim ficaram mais nítidas conforme me aproximei da porta do meu quarto. Se isso for coisa da minha cabeça, preciso me preocupar? Talvez devesse implorar para que minha mãe retorne para cá, posso me sentir morta por dentro, porém, continuo tendo pavor de espíritos. 

Ah meu Deus, ela mexeu a mão! Devemos chamar o doutor?

Puta que pariu! O que está acontecendo com a minha mente? As vozes estão cada vez mais altas, piorando minha dor de cabeça. É tão insuportável, parece que estão martelando meu cérebro. Levei minhas mãos até a cabeça, pressionando nas laterais, é como se ela fosse explodir. Meu corpo foi deslizando lentamente até o chão, a cada segundo, as vozes se intensificam mais.

Está doendo muito, Victor—apertei sua mão, as lágrimas já rolavam livremente pelo meu rosto, meu corpo todo está tremendo só de pensar na possibilidade de perder minha filha.

Ouvi a voz do Victor ficando cada vez mais longe, antes dos meus olhos se fecharem, consegui ver Bruno e Carol correndo desesperadamente até mim e então, apaguei.

As lembranças do dia do trágico acidente voltou com tudo a minha mente, fazendo as lágrimas rolarem livremente pelos meus olhos, toda a sensação e impotência que senti naquele dia voltaram como um passe de mágica. O cômodo que se encontrava silencioso, agora é preenchido por soluços incansáveis. 

SubmergedOnde histórias criam vida. Descubra agora