🐾DEZENOVE🐾

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Durante as noites eu chegava tão cansada em casa que nem tinha tempo de pensar sobre meu dia, sobre minha vida. Acontece que, como no programa de televisão que eu estava vendo mais cedo, como nos livros e como nas fantasias, somos encaminhados à pensar sobre a vida dos personagens instantaneamente.

Pensar sobre como se vestem, como agem, em suas personalidades..., mas principalmente, na história, no enredo.

Parando para pensar na minha, eu notara que as coisas se agitaram de uma hora para outra, desde que Titan chegou.

Há três meses, no final do outono.

E se não fosse aquele doce cachorro eu não teria mudado algumas visões sobre o mundo, não teria entendido certas coisas, pois às vezes elas nos devem ser mostradas.

Se Titan não tivesse levado o meu crachá para Levi e trazido o pen drive dele para mim, tenho certeza de que não o observaria como da primeira vez que o vi. Eu notaria a sua presença, é claro, mas voltaria a meus afazeres sem preocupações.

Mas às vezes quando a gente não está procurando, as coisas chegam até nós.

E eu também sei que é tudo muito irreal, foi muito rápido, eu também demorei para me convencer e ter fé nesse relacionamento. Afinal eu era fechada, e Levi... desde o princípio sempre fora mais aberto.

Eu gostaria muito de saber como ele soube que era amor, desde a primeira vez que me viu, assim como afirmara.

Pensando bem, tudo só aconteceu por causa da intervenção de Titan.

A minha vida mudou por causa dele.

Porque ele não teve preocupações, ele apenas sentiu, seu instinto disse e ele fez. Seu amor o fez pular em mim na calçada, assim como o fez abraçar Francesca no momento que ela mais precisava e vai fazer com muitas pessoas que precisam.

Pode ser estranho, mas a minha intuição me diz que ele não é um simples cachorro, o meu "instinto" me diz que aquele peludinho de quatro patas é um salva vidas de corações solitários.

E ele salvou o meu, agora eu sei que nunca mais ficarei sozinha novamente.

Um latido ao lado da cama me chamou, dei duas batidinhas na cama para que ele subisse e dormisse ao meu lado, mas o animal tinha outras intenções.

Ele mordeu a ponta do meu cobertor e o puxou para fora da cama, depois foi até o meu armário, pegou o cachecol verde e o colocou na minha frente. Eram quatro horas da madrugada e ele queria passear, mas como eu não estava com nenhum pingo de sono, nem me importei.

Coloquei uma calça jeans preta, uma blusa de lã branca e um casaco grosso cor de café com leite - pois ainda era inverno - e, além disso, para acompanhar o meu pequeno companheiro, coloquei um cachecol xadrez de tons amadeirados. 

Enrolei a peça tão amada por Titan em seu pescoço e saímos para uma caminhada.

A cidade quieta ainda estava envolvida pela escuridão da noite e uma leve bruma a cobria.

Deixei o pequeno me guiar e logo me vi subindo a colina que ficava a dois quilômetros da cidade. Lá em cima havia um pequeno banco branco de madeira, e a densidade da névoa estava mais leve, deixando assim, os primeiros raios de sol nos atingirem.

Titan pulou e se sentou no banco, me juntei a ele e apreciei a paisagem.

— É aqui que você vem quando some?

Ele uivou e inclinou a cabeça um pouco para o lado.

— É um belo lugar...

Titan se voltou para o nascer do sol.

— Sabe, eu sei que você está aprontando algo, sei que tem patinhas suas em tudo isso.

Ele colocou a patinha na minha perna e depois me olhou com uma cara de cachorro pidão.

— Você não vai conseguir me enganar não mocinho!

Ele se endireitou, ficando na postura que tinha sempre .

— Queria te agradecer, sabe? Você mudou a minha vida para melhor, você a coloriu e me ensinou a amar. Você me fez uma pessoa melhor, me fez perceber o mundo que estava perdendo, a minha vida. Descobri, por sua causa, que ainda tenho sonhos que podem ser realizados... Você, pequeno cupido, me tirou do fundo da desilusão e desânimo e me trouxe para o topo da colina.

Passei a mão atrás da sua orelha com carinho.

— Obrigada, eu te amo.

Titan pulou sobre mim e me encheu de lambidas. Eu ri e aproveitei para o abraçar e chorar um pouco.

— Se você falasse eu não me surpreenderia.

Ele me olhou e uivou novamente.

— Tá bem, você não está pronto ainda, eu entendo. — brinquei e ele voltou para o seu lugar no banco.

O pequeno cupido deitou a cabeça no meu colo e ficamos um tempo assistindo o sol iluminar e aquecer a cidade gradualmente enquanto a neblina se dissipava.

— Acho que é hora de irmos...

Comentei enquanto me preparava para levantar. Titan nem se deu ao trabalho de se mover.

— Tudo bem, podemos ficar mais um pouco...

Me perdi nos pensamentos novamente, imaginando Titan sentado sobre àquele banco todo fim de tarde observando a cidade de cima.

Tinha um certo charme, imaginar que a cidade tinha um guardião que a vigiava e amava. Que acima de tudo, cuidava, como eu dissera anteriormente: não me surpreenderia se Titan fosse o responsável por manter àquela cidade tão feliz, ou talvez fosse só uma fantasia que eu me permitira criar.

E de todos os pensamentos que inundavam minha mente, nenhum deles chegou perto de supor o que aconteceria dias depois.

Nada havia me preparado para aquilo, e talvez eu nunca viesse a estar mesmo...

Eu não estava preparada para o sumiço de Titan.

Mas é claro que ele já sabia.

Pois, havia se despedido naquela mesma manhã, no fim de inverno, e ido embora junto com o frio.

𝙏𝙞𝙩𝙖𝙣, 𝙤 𝙘𝙖𝙘𝙝𝙤𝙧𝙧𝙤 𝙘𝙪𝙥𝙞𝙙𝙤Histórias para pegar e não largar. Descubra agora