O cenário urbano divergia do habitual. Embora os carros estivessem lá, como em qualquer manhã, eles ignoravam as vagas em frente à biblioteca. Uma fila metálica serpenteava em direção ao Parque Comunitário, anunciando que a primavera trouxera consigo o centenário festival da cidade. Stella, para seu próprio alívio — e uma pontada de desdém que preferia não admitir —, fora esquecida pela comissão organizadora.
Mesmo que a tivessem convidado, a resposta seria um "não" protocolar. No entanto, o isolamento era apenas geográfico; ela ainda trabalhava no epicentro do burburinho.
Ela apressou o passo, fechando o colarinho da jaqueta contra a brisa cortante. Foi então que as viu: as "Três Graças" do lugar, a Tríplice. Jene, Amely e Ronnie formavam um quadro de perfeição estática diante da entrada da biblioteca. Stella baixou o olhar, ativando seu modo de autopreservação, mas o destino tinha outros planos. Antes que pudesse notar, quase colidiu contra um corpo envolto em caxemira fina.
Stella parou bruscamente, os olhos subindo da barra da roupa luxuosa até o rosto de Jene, que exibia um sorriso polido demais para ser genuíno.
— Olá... É Stella, não é? — A voz de Jene era melíflua.
Stella piscou, surpresa. A ideia de que qualquer uma delas soubesse seu nome era absurda. Ela tentou recompor a postura, ciente de que sua expressão — boca entreaberta e olhos arregalados — era o ápice do patetismo.
— Algum problema? — Stella conseguiu perguntar, a voz ainda um pouco trêmula.
As outras duas se aproximaram, cercando-a em um semicírculo de perfumes caros e presença imponente. O instinto de Stella gritava para que ela corresse, mas ela se forçou a manter os pés no chão. Não queria confirmar a suspeita de que era a "esquisitona" da cidade, embora soubesse que era exatamente isso.
— Pegue isto. É o panfleto do festival — disse Jene, estendendo um papel de gramatura pesada, quase pergaminhado. O sorriso dela era largo, mas não alcançava os olhos; lembrava Stella daquelas modelos de comerciais antigos, cujas expressões eram meticulosamente ensaiadas.
— Esperamos você lá — acrescentou Amely, com uma voz aveludada. — Esta cidade costuma ser monótona, mas prometo que este ano as coisas serão... diferentes. Mais divertidas.
Stella apenas assentiu, um movimento mecânico de cabeça. Assim que o cerco se desfez, ela cedeu ao impulso de fuga, subindo as escadarias da biblioteca e batendo a porta atrás de si. O silêncio do prédio vazio a acolheu, mas a sensação de estranheza permanecia.
Ela se refugiou na rotina. Checou o sistema, organizou as devoluções da manhã — incluindo os livros da Sra. Sherman, que encontrara na leitura um refúgio solitário após a viuvez. Era um escape que Stella compreendia bem.
O som das portas se abrindo interrompeu seus pensamentos. Era ele. Novamente.
O homem misterioso frequentava a biblioteca há uma semana. Alto, silencioso e dono de um olhar que Stella classificava como "perigosamente profundo". Ele sempre buscava os clássicos. Ao vê-lo, Stella notou que ele segurava o mesmo panfleto que ela acabara de esconder em uma gaveta.
Ele vai ao festival?, ela pensou, sentindo um frio súbito na espinha. E se eu fosse? O pensamento foi descartado no segundo seguinte. Aproximar-se dele era inadmissível; ele jamais a notaria, e se notasse, provavelmente estaria ocupado demais sendo disputado pela Tríplice.
Ela observou, por entre as prateleiras, enquanto ele folheava um volume sobre o mito de Narciso. O cabelo escuro caía levemente sobre os olhos. Stella forçou-se a desviar o olhar; tinha prateleiras para organizar e poeira para espanar.
Enquanto movia os volumes, um novo movimento na entrada a fez congelar. Grand entrou no recinto. Ele vestia jeans e uma jaqueta de couro, mas o que realmente chamava a atenção era a aliança em seu dedo, exibida com uma espécie de orgulho desafiador.
— Aconteceu alguma coisa? — O homem que já estava na biblioteca perguntou, fechando o livro.
Grand suspirou, o semblante carregado. Stella se encolheu atrás de uma estante, observando pelo vão entre os livros, equilibrando-se na ponta dos pés.
— Mantenha a calma, Mix — disse Grand, a voz baixa, mas firme. — Sage vai ficar bem. Ele está dando sinais de melhora. Ontem à noite ele falou algumas palavras e conseguiu comer. Estamos progredindo.
— Então por que você está aqui agora? — Mix questionou, as sobrancelhas unidas em uma expressão de urgência.
— Temos um plano. Se tudo correr como o esperado, ele irá embora com você em algumas semanas.
Mix comprimiu os lábios, os olhos estreitando-se em pura desconfiança.
— No que exatamente você está pensando?
Stella abaixou-se rapidamente, sentindo como se o peso daquela conversa tivesse uma direção magnética. Ela prendeu a respiração, esperando que não tivessem notado sua espionagem amadora. Quando se atreveu a olhar novamente pelo vão, viu apenas as costas dos dois homens sumindo pela porta da frente.
Ela permaneceu ali, estática. Sabia que não tinha feito um bom trabalho ao se esconder. O quão patética ela havia parecido? Mais do que isso: o que diabos estava acontecendo naquela cidade?
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Sage
RomanceLivro 2 Onde o medo termina, o instinto começa. Stella passou a vida inteira fugindo. Criada sob a sombra de uma mãe abusiva e perigosa, ela aprendeu que a única pessoa em quem pode confiar é em si mesma. Mas quando uma fuga desesperada pela flore...
