Cap 1 🌹 Editado

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​O cenário urbano divergia do habitual. Embora os carros estivessem lá, como em qualquer manhã, eles ignoravam as vagas em frente à biblioteca. Uma fila metálica serpenteava em direção ao Parque Comunitário, anunciando que a primavera trouxera consigo o centenário festival da cidade. Stella, para seu próprio alívio — e uma pontada de desdém que preferia não admitir —, fora esquecida pela comissão organizadora.

​Mesmo que a tivessem convidado, a resposta seria um "não" protocolar. No entanto, o isolamento era apenas geográfico; ela ainda trabalhava no epicentro do burburinho.

​Ela apressou o passo, fechando o colarinho da jaqueta contra a brisa cortante. Foi então que as viu: as "Três Graças" do lugar, a Tríplice. Jene, Amely e Ronnie formavam um quadro de perfeição estática diante da entrada da biblioteca. Stella baixou o olhar, ativando seu modo de autopreservação, mas o destino tinha outros planos. Antes que pudesse notar, quase colidiu contra um corpo envolto em caxemira fina.

​Stella parou bruscamente, os olhos subindo da barra da roupa luxuosa até o rosto de Jene, que exibia um sorriso polido demais para ser genuíno.

​— Olá... É Stella, não é? — A voz de Jene era melíflua.

​Stella piscou, surpresa. A ideia de que qualquer uma delas soubesse seu nome era absurda. Ela tentou recompor a postura, ciente de que sua expressão — boca entreaberta e olhos arregalados — era o ápice do patetismo.

​— Algum problema? — Stella conseguiu perguntar, a voz ainda um pouco trêmula.

​As outras duas se aproximaram, cercando-a em um semicírculo de perfumes caros e presença imponente. O instinto de Stella gritava para que ela corresse, mas ela se forçou a manter os pés no chão. Não queria confirmar a suspeita de que era a "esquisitona" da cidade, embora soubesse que era exatamente isso.

​— Pegue isto. É o panfleto do festival — disse Jene, estendendo um papel de gramatura pesada, quase pergaminhado. O sorriso dela era largo, mas não alcançava os olhos; lembrava Stella daquelas modelos de comerciais antigos, cujas expressões eram meticulosamente ensaiadas.

​— Esperamos você lá — acrescentou Amely, com uma voz aveludada. — Esta cidade costuma ser monótona, mas prometo que este ano as coisas serão... diferentes. Mais divertidas.

​Stella apenas assentiu, um movimento mecânico de cabeça. Assim que o cerco se desfez, ela cedeu ao impulso de fuga, subindo as escadarias da biblioteca e batendo a porta atrás de si. O silêncio do prédio vazio a acolheu, mas a sensação de estranheza permanecia.

​Ela se refugiou na rotina. Checou o sistema, organizou as devoluções da manhã — incluindo os livros da Sra. Sherman, que encontrara na leitura um refúgio solitário após a viuvez. Era um escape que Stella compreendia bem.

​O som das portas se abrindo interrompeu seus pensamentos. Era ele. Novamente.

​O homem misterioso frequentava a biblioteca há uma semana. Alto, silencioso e dono de um olhar que Stella classificava como "perigosamente profundo". Ele sempre buscava os clássicos. Ao vê-lo, Stella notou que ele segurava o mesmo panfleto que ela acabara de esconder em uma gaveta.

Ele vai ao festival?, ela pensou, sentindo um frio súbito na espinha. E se eu fosse? O pensamento foi descartado no segundo seguinte. Aproximar-se dele era inadmissível; ele jamais a notaria, e se notasse, provavelmente estaria ocupado demais sendo disputado pela Tríplice.

​Ela observou, por entre as prateleiras, enquanto ele folheava um volume sobre o mito de Narciso. O cabelo escuro caía levemente sobre os olhos. Stella forçou-se a desviar o olhar; tinha prateleiras para organizar e poeira para espanar.

​Enquanto movia os volumes, um novo movimento na entrada a fez congelar. Grand entrou no recinto. Ele vestia jeans e uma jaqueta de couro, mas o que realmente chamava a atenção era a aliança em seu dedo, exibida com uma espécie de orgulho desafiador.

​— Aconteceu alguma coisa? — O homem que já estava na biblioteca perguntou, fechando o livro.

​Grand suspirou, o semblante carregado. Stella se encolheu atrás de uma estante, observando pelo vão entre os livros, equilibrando-se na ponta dos pés.

​— Mantenha a calma, Mix — disse Grand, a voz baixa, mas firme. — Sage vai ficar bem. Ele está dando sinais de melhora. Ontem à noite ele falou algumas palavras e conseguiu comer. Estamos progredindo.

​— Então por que você está aqui agora? — Mix questionou, as sobrancelhas unidas em uma expressão de urgência.

​— Temos um plano. Se tudo correr como o esperado, ele irá embora com você em algumas semanas.

​Mix comprimiu os lábios, os olhos estreitando-se em pura desconfiança.

​— No que exatamente você está pensando?

​Stella abaixou-se rapidamente, sentindo como se o peso daquela conversa tivesse uma direção magnética. Ela prendeu a respiração, esperando que não tivessem notado sua espionagem amadora. Quando se atreveu a olhar novamente pelo vão, viu apenas as costas dos dois homens sumindo pela porta da frente.

​Ela permaneceu ali, estática. Sabia que não tinha feito um bom trabalho ao se esconder. O quão patética ela havia parecido? Mais do que isso: o que diabos estava acontecendo naquela cidade?

Sage Histórias para pegar e não largar. Descubra agora