Stella despertou sob o impacto de um baque seco e violento, cujo eco reverberou pelo assoalho de madeira até o interior do quarto. O som estrepitoso vinha da sala de estar. Instantaneamente, um aperto sufocante esmagou seu peito, uma descarga de adrenalina pura que beirava a lucidez da loucura. Os pensamentos dispararam em direções sombrias: Sua mãe a havia localizado? Os guardas haviam caído? Ela sabia que, se Lilian estivesse por trás daquela invasão, o desfecho seria implacável.
Rejeitando o pânico paralizante, Stella chutou as cobertas para longe e pôs os pés no chão frio. A lógica ditava que se sentinelas treinados tivessem falhado, sua resistência seria inútil, mas o instinto de sobrevivência não aceitava a rendição. Com as mãos trêmulas, tateou a superfície da cômoda e empunhou o abajur de cerâmica ao lado da cama. Elevou o objeto pesado, testando o peso; usaria a peça como uma arma improvisada e, se houvesse um intruso na penumbra, ela o acertaria em cheio antes que ele pudesse reagir. Pelo menos, era nessa ilusão militar que preferia acreditar.
Flanqueando a parede com as costas retesadas — uma técnica rudimentar copiada de filmes de ação —, ela avançou milímetro a milímetro, com a "arma" erguida. O absurdo da situação não lhe escapava: estava prestes a enfrentar uma ameaça desconhecida munida de um item de decoração. No entanto, o medo não lhe dava o luxo de escolher ferramentas melhores.
Ao cruzar o limiar da sala de estar, seu coração falhou. Não era um capanga enviado por sua mãe.
Sage estava estirado no chão, imóvel. A postura imponente de outrora desaparecera, substituída por uma inércia alarmante. Stella soltou o abajur sobre o estofado do sofá, esquecendo a própria defesa enquanto a presença do homem-fera consumia toda a sua atenção. Ela se ajoelhou sobre a madeira fria, debruçando-se com cuidado sobre o peito dele. Pressionou as pontas dos dedos contra a lateral do pescoço de Sage, buscando o pulso. O que encontrou a fez praguejar em um sussurro: os batimentos cardíacos dele eram fragmentados, quase imperceptíveis.
Antes que pudesse processar o diagnóstico, a porta da frente explodiu.
As dobradiças de ferro cederam sob uma força descomunal, e o batente de madeira veio abaixo com um estrondo de estilhaços. O guarda shifter que a inspecionara minutos antes invadiu o recinto em postura de combate, os lábios retraídos exibindo presas proeminentes. Seus olhos escuros vasculharam os cantos da sala como os de um lobo farejando uma armadilha, até que estacaram sobre Stella e, finalmente, desceram para o corpo inerte no chão.
— Mas que diabos...
— Faça alguma coisa! — Stella cortou, a voz embargada pela urgência. As lágrimas, alimentadas por um turbilhão incontrolável de medo, perplexidade e um pesar inexplicável, transbordaram por sua face. Ela não conseguia compreender a natureza daquela angústia, mas a dor dele parecia ecoar em seu próprio corpo.
O guerreiro agachou-se do lado oposto, pressionando os dedos massivos contra a carótida de Sage. Sehas feições rústicas se contraíram em uma expressão de desconforto clínico.
— O macho está morrendo — o shifter diagnosticou, o tom de voz subitamente sóbrio. — Os batimentos estão em declínio e a densidade muscular se esvaiu. Normalmente, somos feitos de puro vigor, mas ele está reduzido a pele e osso.
Ele ergueu os olhos para Stella, e neles ela leu uma compreensão ancestral e severa.
— Existe apenas uma força capaz de subjugar um urso dessa forma — continuou o homem. — Abstinência biológica. O colapso pela ausência da companheira. E considerando onde ele escolheu cair, essa pessoa é você.
Antes que ela pudesse formular uma defesa, a cabana foi invadida por outros machos da patrulha. Alguns ainda ostentavam traços parciais de sua natureza bestial: olhos mutáveis, pelos eriçados e uma estatura hipertrofiada. Stella encolheu-se, o terror primitivo sussurrando que aquelas criaturas poderiam despedaçá-la a qualquer comando.
Em meio ao caos, o guarda inicial tomou a mão flácida e fria de Sage e a depositou firmemente sobre a mão de Stella. O efeito foi imediato. No instante em que a pele dele tocou a sua, uma onda de serenidade magnética fluiu por suas veias, silenciando o tremor de suas pernas e desacelerando seu ritmo cardíaco. Stella olhou para o guarda, percebendo que ele fizera aquilo deliberadamente, ciente da propriedade anestésica do vínculo.
— Que merda está acontecendo aqui? — A voz estridulou pelo ambiente, fazendo os vidros remanescentes vibrarem.
Tahir atravessou a entrada arruinada. Sua silhueta imensa bloqueou a pouca luz do corredor; ele parecia um tanque de guerra blindado em pele humana. Sua insatisfação era palpável ao testemunhar a cena de Sage desabado aos pés de Stella. Se não fosse pelo contato reconfortante da mão de seu predador sobre a sua, ela teria recuado até desaparecer entre os móveis, como um roedor encurralado.
— O macho entrou em choque — o primeiro guarda explicou a Tahir. — Precisamos removê-lo para o hospital local imediatamente. Nossa gente coordena a ala médica de lá. Se alguém pode reverter o processo, são eles.
Tahir esfregou as têmporas com os dedos grossos, visivelmente pressionado pelas circunstâncias.
— Está bem. Levem-no para o meu veículo. A fêmea vem conosco.
Stella fez menção de se levantar por conta própria, mas braços proeminentes e impiedosos a interceptaram. Sem o menor esforço, o guarda a içou do chão, jogando-a de cabeça para baixo sobre o ombro massivo como se ela não passasse de um fardo leve.
— Ei! Eu sei andar, me ponha no chão! — ela protestou, desferindo golpes inúteis contra as costas rígidas do shifter.
— Fique quieta, fêmea — o bruto respondeu, a voz vibrando através do tórax que pressionava o estômago dela. — Aproveite o transporte.
O trajeto até o exterior durou poucos segundos, mas foi o suficiente para Stella solidificar uma certeza: o toque daquele brutamonte lhe causava repulsa e desconforto, uma aspereza que empalidecia diante da sensação de paz absoluta que a mão de Sage lhe proporcionava. Havia uma exclusividade perigosa na textura da fera.
— Quase lá... e pronto.
Stella foi depositada sem delicadeza no banco traseiro do utilitário de grande porte. Antes que pudesse acomodar as pernas nuas, o corpo pesado de Sage foi posicionado ao seu lado, com a cabeça e os ombros descansando diretamente sobre o seu colo. As portas foram batidas com força, selando o oxigênio do veículo.
Tahir assumiu o volante. Mesmo um utilitário daquele porte parecia reduzido a uma caixa de fósforos sob a estrutura do Alfa. O cenário era aterrador. No entanto, o peso de Sage sobre suas coxas e o calor sutil que emanava dele agiam como um escudo contra o pânico.
Acalme-se, Stella, ela mentiu para si mesma, encarando o perfil intimidador de Tahir pelo retrovisor. Ele é apenas um homem grande. Nada mais.
Ela sabia que era uma mentira patética. O medo de sua própria sombra ainda a perseguia, e aquela viagem, por mais curta que fosse no mapa, prometia ser a jornada mais longa de sua existência.
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Sage
RomanceLivro 2 Onde o medo termina, o instinto começa. Stella passou a vida inteira fugindo. Criada sob a sombra de uma mãe abusiva e perigosa, ela aprendeu que a única pessoa em quem pode confiar é em si mesma. Mas quando uma fuga desesperada pela flore...
