Cap 20 🌹 Editado

1.5K 160 9
                                        

— Então o Beast é um shifter... e também o seu marido? — Stella vocalizou a pergunta, tentando alinhar as peças daquele quebra-cabeça biológico.

​Ela recapitulou mentalmente os conselhos de Ayla. A outra mulher insistira que tudo se tornaria mais nítido com o tempo, contanto que Stella parasse de comparar Sage aos homens humanos que conhecera ou sobre os quais fora alertada a vida inteira. Ele não pertencia àquela espécie. E, pensando bem, que homem humano cruzaria florestas e enfrentaria o próprio colapso físico apenas para alcançá-la? Naquela cabana, debilitado e febril, ele não implorara; ele exigira ser ouvido, tentando reivindicá-la com a intensidade carnal e animalesca que ela vislumbrara na floresta. Havia um incêndio naqueles olhos escuros, e, pela primeira vez, Stella sentiu a tentação latente de ser consumida por ele.

​— O propósito deles como companheiros é a nossa salvaguarda — Ayla explicou, a voz mansa, mas firme. — Eles vivem para nos manter seguras, saudáveis e plenas. Quando você rompeu o elo e se afastou, foi o equivalente a arrancar um órgão vital do corpo dele. Você consegue mensurar a gravidade disso?

​Stella engoliu em seco. Não, ela não compreendia a totalidade daquela simbiose, mas o peso das palavras de Ayla a fez perceber o erro de julgamento que cometera. Uma urgência súbita a invadiu — a vontade de correr para os braços massivos de Sage, de se aninhar contra o peito dele e permitir que ele exercesse cada um de seus instintos territoriais, se isso fosse o suficiente para mantê-lo vivo e restabelecido. Contudo, um último resquício de insegurança humana ainda flutuava em sua mente.

​— E o que acontece daqui para frente? — Stella desviou o olhar para a janela, a voz oscilando. — Ele não vai me abandonar, vai? Não digo agora, nesta fase de urgência... mas e se houver um dia em que ele simplesmente não me queira mais?

​— Nunca. — A resposta ecoou pelo quarto, uma vibração rouca, profunda e perigosamente possessiva.

​A porta havia sido empurrada sem alarde. No instante em que Sage irrompeu no aposento, Stella compreendeu que ele escutara a maior parte da confidência. Era impossível recriminá-lo pela invasão ou por violar aquela intimidade; afinal, aquela conversa orbitava a existência dele. Nada mais justo do que permitir que a fera participasse do próprio veredito.

​Sage eliminou a distância entre eles com passos predatórios e precisos. Suas mãos massivas subiram para o rosto de Stella, envolvendo suas bochechas com uma urgência febril. A fome implacável que ardia em suas pupilas parecia querer decifrar cada linha de sua alma. Era um magnetismo avassalador, um vislumbre de uma devoção tão absoluta que Stella percebeu, com um sobressalto, que poderia se viciar naquele sentimento com extrema facilidade.

​— Você é minha, Stella — ele declarou, os lábios roçando a testa dela. — Não existe força nesta terra capaz de me arrancar do seu lado. Tudo o que preciso é que você pare de lutar contra a ligação. Aceite o elo. Eu prometo que serei tudo o que você precisar. Vou garantir que seja perfeito.

​— É tudo tão abrupto... você tem certeza absoluta? — ela sussurrou, as mãos espalmadas contra o peito largo dele, sentindo o calor emanar através do tecido. — E se, com o tempo, você descobrir que não gosta de quem eu sou?

​A incerteza era um fantasma persistente em seu peito; Stella necessitava que ele verbalizasse aquela possessão repetidas vezes até que suas defesas desabassem por completo.

​Sage emitiu um grunhido baixo, os dentes cerrados em uma expressão que tangenciava a agonia. Ele apertou o corpo dela contra o seu com um pouco mais de firmeza. Stella franziu a testa; ele agia como se a dúvida dela fosse uma heresia, uma ofensa direta à sua natureza.

​— Você é minha, Stella. O inferno haverá de congelar antes que eu deixe de desejar você, e eu lhe garanto que isso jamais acontecerá. Cada segundo em que toco sua pele, cada fração de segundo em que aspiro o seu cheiro, eu sinto vontade de...

​— De quê? — ela instigou, a respiração suspensa.

​Ele interrompeu a frase, fechando os olhos enquanto o peito arfava de forma descompassada. Subitamente, uma tensão puramente carnal e rígida projetou-se entre seus corpos, pressionando o ventre de Stella através das roupas. Ela arregalou os olhos sutilmente, surpreendida pela reação imediata e anatômica da criatura. Saber que possuía o poder de fazer um predador daquele porte fragmentar-se e render-se tão facilmente não deveria alimentá-la, mas a sensação trouxe uma claridade vibrante ao seu peito.

​— Me deixe entrar, amor — ele suplicou contra o ouvido dela, a voz despida de qualquer verniz social. — Prometo que vou cuidar de você.

​O pedido não se referia a sentimentos abstratos ou concessões românticas; era a urgência primitiva da carne. O desejo manifesto de possuí-la, de tomá-la para si ali mesmo. E Stella, enredada pelo calor dele, sentiu o próprio corpo ceder àquela exigência.

​Um pigarro deliberado quebrou a atmosfera magnética do quarto, forçando ambos a se afastarem.

​Ayla permaneceria ali, estática perto da parede. Ela mantinha os olhos fixos no chão, visivelmente constrangida pela intensidade da cena que testemunhara. Stella sentiu as bochechas arderem em um rubor imediato, a vergonha assumindo o controle ao perceber que haviam protagonizado um momento de intimidade visceral diante de uma testemunha.

​— Saia, fêmea — Sage rosnou, sem desviar os olhos de Stella, o tom territorial retornando com força total. — Preciso ficar a sós com a minha companheira.

​Se houvesse uma fresta no assoalho, Stella teria se escondido. Sage operava totalmente sem filtros sociais; ele não manifestava o menor resquício de pudor ou hesitação quanto aos seus apetites. Pelo contrário, havia um orgulho selvagem em seu timbre, como se reivindicar Stella fosse o ápice de sua existência.

​A porta foi aberta de forma abrupta, e uma silhueta monumental bloqueou a iluminação do corredor. Aquele provavelmente era Beast, companheiro de Ayla. A transição foi imediata: ele se posicionou de forma protetora à frente de Ayla, os olhos semicerrados e perigosos fixos em Sage, como um guerreiro avaliando uma ameaça em potencial.

​— Afaste-se dela — Beast sibilou, a voz grave emitindo um aviso claro.

​Sage sequer alterou sua postura. Ele apenas emitiu um som gutural de desdém, desarmando a hostilidade do outro macho sem necessidade de violência.

​— Não tenho interesse na sua fêmea, Beast. Só quero privacidade. Stella finalmente aceitou o vínculo.

​A rigidez nos ombros de Beast dissipou-se quase instantaneamente. Ele relaxou a postura de combate, soltando um suspiro pesado enquanto processava a informação.

​— Fêmeas humanas — Beast resmungou, balançando a cabeça em um misto de frustração e alívio. — São criaturas impossíveis de decifrar.

​Sage assentiu prontamente, encontrando um terreno comum de camaradagem masculina com o outro Alfa.

— Uma complexidade sem fim.

​O comentário unânime fez com que Ayla e Stella expressassem, simultaneamente, o mesmo olhar de absoluta incredulidade. Foi quase cômico observar a rapidez com que a arrogância dos dois guerreiros murchou; tanto Sage quanto Beast recuaram um passo, os olhos arregalados ao perceberem o descontentamento evidente de suas respectivas mulheres.

​Ayla segurou Beast pelo braço, impulsionando-o em direção à saída com uma indignação decidida.

​— Vamos, Beast. Deixe que eles se entendam — Ayla disparou, lançando um olhar severo sobre os ombros antes de fechar a porta. — Enquanto isso, você tem muitas explicações a me dar sobre o seu tom de voz.

​O clique da fechadura selou o quarto. Alguém estava prestes a enfrentar uma tempestade no corredor. Stella desviou o olhar para Sage, que mantinha os olhos fixos nela, o semblante exibindo uma expectativa quase vulnerável. Ela sorriu de leve, percebendo que o seu urso também não estava imune às consequências de seus atos.

Sage Histórias para pegar e não largar. Descubra agora