Era segunda-feira à noite. Pela manhã, Jess e as outras haviam sido escoltadas de volta para a cidade. Stella insistira para que partissem; não era justo aprisioná-las em seu inferno particular. Além disso, o isolamento da cabana oferecia uma segurança ambígua, reforçada pelos homens do xerife, que patrulhavam os arredores sob ordens estritas de evitar surpresas.
- Vai ficar tudo bem - Stella sussurrou para si mesma, embora a própria voz soasse oca no silêncio do cômodo.
Ela caminhou até a janela da sala, apoiando as mãos no parapeito. Do outro lado do vidro, a chuva torrencial transformava a floresta em um borrão cinzento e hostil. O frio parecia penetrar a madeira, trazendo consigo um cansaço que ela vinha negligenciando. Seus ossos latejavam com uma fraqueza dormente e inexplicável, uma letargia que a abatia desde que se afastara daquela fera. Esfregou as pernas, tentando espantar o calafrio que subia por suas coxas nuas.
Três batidas firmes na porta cortaram a quietude.
Stella sobressaltou-se. Caminhou apressada e destrancou a fechadura, deparando-se com um dos guardas da patrulha. O homem estava encharcado, a água escorrendo pelo cabelo preto cortado rente à cabeça. Havia algo de profundamente perturbador em sua anatomia: os ombros eram excessivamente largos, e os braços proeminentes sugeriam uma força que ultrapassava os limites humanos. Stella apertou a borda da porta, sentindo-se vulnerável em seu pijama curto.
- Algum problema? - indagou, tentando manter a voz firme apesar do desconforto.
- Inspeção de rotina - o guarda respondeu, a voz grave ecoando no pequeno hall. - Ordens superiores para verificar o perímetro interno.
Sem dar um único passo para dentro, os olhos escuros do homem fizeram uma varredura minuciosa pelo cenário atrás de Stella. Em seguida, ele inclinou a cabeça sutilmente e inspirou de forma audível, farejando o ar como um predador em busca de um rastro invisível. O gesto confirmou as suspeitas mais sombrias de Stella: aqueles homens não eram policiais comuns.
- Perímetro limpo. Câmbio - o guarda falou, acionando o rádio acoplado ao colete tático.
- Mantenha a posição e não se afaste da estrutura. Câmbio - a resposta ecoou de forma chiada e metálica do outro lado da linha.
O homem fez menção de se retirar, mas a perspectiva de enfrentar o tédio e o medo na solidão daquela cabana fez Stella intervir.
- Existe a possibilidade de instalarem uma televisão aqui? Qualquer coisa para passar o tempo ajudaria.
O guarda deteve-se por um instante, avaliando-a.
- Vou reportar o pedido. Não saia da cabana sob hipótese alguma. Há homens posicionados em toda a propriedade; você está protegida.
Stella assentiu. O homem girou sobre os calcanhares e foi engolido pela escuridão e pela cortina de chuva. Ela permaneceu à porta por alguns segundos, os olhos forçando a penumbra da mata, tentando divisar os guardas invisíveis mencionados por ele. Nada. Apenas o vazio.
No instante em que bateu a porta e girou a chave, um uivo agudo e ensurdecedor rasgou a noite, seguido por respostas em coro vindas das profundezas das árvores. Era uma sinfonia primitiva de alertas e confirmações de perigo que fez o coração de Stella saltar contra as costelas.
O pânico a impulsionou de volta à entrada. Ela estava prestes a abrir a porta e gritar por socorro quando o som de passos pesados ecoou na varanda. Era o mesmo guarda. Suas feições exibiam uma agitação contida, mas nenhum sinal de medo real.
- Alarme falso - explicou ele, respirando compassadamente. - Apenas alguma oscilação trazida pelas correntes de ar.
Stella olhou além dos ombros largos do homem. Na escuridão úmida, os arbustos distantes pareceram farfalhar com uma leveza suspeita. Ela estreitou a visão, esperando uma repetição do movimento, mas a mata permaneceu estática.
- Tudo bem - Stella murmurou, a exaustão finalmente cobrando seu preço. - Obrigada.
- Se precisar de algo, grite. Nós ouviremos.
Sem esperar que ele se afastasse, ela trancou as fechaduras e caminhou em direção ao quarto. O peso em seus músculos era insuportável; seu corpo exigia o esquecimento do sono.
Sage
Por um breve segundo, através da vidraça embaçada, Sage acreditou que ela o havia descoberto. Mas os olhos de Stella, limitados pela fragilidade humana, não possuíam a precisão dos dele.
Escondido entre as sombras da floresta, ele a observou. Ela estava magnífica sob a luz fraca da cabana, o tecido do pijama minúsculo delineando as curvas sinuosas que assombravam seus delírios. O desejo pulsou de forma violenta em suas veias, uma necessidade imediata que o fez rosnar baixo quando o guarda se aproximou dela. Sage sentiu os instintos territoriais arranharem sua consciência, exigindo o sangue daquele macho por ousar olhar e respirar o mesmo ar que sua fêmea.
Era uma fúria irracional, e a impotência momentânea quase o fez fraquejar. Controlando o ímpeto selvagem, ele calculou os riscos. O confronto direto resultaria em um novo confinamento, e ele não aceitaria ser enjaulado outra vez.
Um sorriso amargo e calculista surgiu em seus lábios ao lembrar-se de como fora fácil ludibriar Grand e Mix. A dor da rejeição de Stella era real - uma ferida que ainda sangrava em seu orgulho -, mas ele usara aquela aparente submissão como a distração perfeita para sua fuga. Quando os Alfas notassem sua ausência na cabana remota, já seria tarde demais.
Se Stella pensava que ele aceitaria a renúncia de braços cruzados, ela estava enganada. Se fosse necessário jogar de forma implacável para reivindicá-la, ele o faria. No amor e na guerra, os códigos de honra eram maleáveis.
O som metálico de patas correndo pelo cascalho do perímetro alertou seus sentidos. O tempo estava se esgotando; o alarme fora dado. Escondendo-se sob o beiral da cabana, Sage localizou a janela lateral da sala de estar. Ele estendeu os braços e segurou o parapeito de madeira, forçando os músculos a erguerem seu peso corporal.
Cada terminação nervosa de seus braços protestou com uma dor lancinante. O período de isolamento e a abstinência biológica do vínculo haviam debilitado sua estrutura; um movimento que outrora seria natural agora exigia um esforço monumental. Ainda assim, a perspectiva de tê-la a poucos metros de distância infundiu uma descarga de adrenalina em seu peito. Com um último impulso, ele forçou a tranca da janela e deslizou para o interior do aposento, caindo de forma pesada sobre o assoalho.
Ele ergueu a cabeça, a visão turvando-se pela fadiga extrema. Tentou apoiar-se na parede para se colocar de pé, mas seus tendões cederam sob a pressão. Um espasmo violento curvou seu corpo, e ele caiu novamente, o impacto de sua estrutura robusta contra a madeira produzindo um som abafado e oco que certamente ecoaria pela casa.
Sage sabia que o tempo de sua invasão seria medido em segundos. O cerco do lado fora logo se fecharia. Mas, enquanto ouvia os primeiros indícios de agitação na varanda, ele fixou os olhos na direção do corredor dos quartos. Se o destino determinara sua ruína, ele se contentaria em ver o rosto de sua fêmea e tocá-la uma última vez antes que os outros machos o arrastassem de volta para as sombras.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Sage
RomanceLivro 2 Onde o medo termina, o instinto começa. Stella passou a vida inteira fugindo. Criada sob a sombra de uma mãe abusiva e perigosa, ela aprendeu que a única pessoa em quem pode confiar é em si mesma. Mas quando uma fuga desesperada pela flore...
