Stella encarou o pacote de mantimentos que Jess deixara sobre o balcão. Recém-saída do banho, ela vestia leggings e uma camiseta escura com estampa — roupas trazidas por Tahir. O gigante não pronunciara uma única sílaba ao entregá-las; Stella suspeitava que ele fora instruído a manter um silêncio absoluto, agindo mais como um carcereiro gentil do que como um anfitrião.
O isolamento começava a pesar. Stella sentia uma necessidade desesperada de conexão humana, mas Jess não estava em lugar algum. O ronco baixo de seu estômago a trouxe de volta à realidade, lembrando-a de que o corpo ainda exigia cuidados, apesar do caos mental.
O som da porta da cabana se abrindo interrompeu seus pensamentos. Um homem de físico imponente, pele bronzeada e barba por fazer entrou no recinto. Logo atrás dele, como sombras hesitantes, surgiram Jess, Susie e Christie. O desconforto nas expressões de suas amigas era quase palpável.
— Encontrei essas belezuras perdidas na estrada — informou o homem, com uma voz profunda que parecia vibrar nas paredes de madeira. — Pareciam ter errado o caminho da entrada e estavam vagando sem rumo.
Stella voltou o olhar para Christie, que ergueu o queixo, tentando recuperar uma postura de autoridade que a floresta parecia ter lhe roubado.
— O GPS simplesmente enlouqueceu — retorquiu Christie, a voz carregada de frustração. — Quase nos jogou em uma vala a poucos quilômetros daqui.
Susie, alheia à discussão técnica, cruzou a sala e desabou na poltrona com um desleixo estudado. Stella não perdeu o momento em que o desconhecido lançou um olhar sobre Susie; seus olhos escuros brilharam com uma intensidade magnética, uma fagulha de interesse que desapareceu tão rápido quanto surgiu quando ele girou sobre os calcanhares e saiu pela porta sem dizer mais nada.
— Precisamos sair daqui, Stella — Christie disparou assim que ele saiu, a urgência beirando o pânico. — Pegue suas coisas. Vamos dar o fora agora mesmo.
Jess abriu a boca para intervir, mas a porta se abriu novamente, sufocando sua oportunidade. Grand entrou no aposento. Sua carranca familiar estava mais acentuada do que o habitual, e o ar na cabana pareceu esfriar alguns graus.
— Ninguém sai — declarou Grand, seu tom não admitindo réplicas.
— E por que não? — Christie deu um passo à frente, desafiadora.
Grand percorreu o grupo com o olhar antes de fixar-se em Stella. Havia um peso em sua expressão que ia além do dever profissional.
— Stella precisa fornecer um depoimento oficial — disse ele. — Um relato completo de tudo o que aconteceu na floresta.
— Ela pode fazer isso na delegacia — Christie insistiu, os braços cruzados defensivamente. — Ela não precisa ficar confinada nesta cabana.
Grand manteve a respiração lenta, medindo as palavras.
— O xerife estará aqui amanhã. E eu preciso falar com Stella antes disso. — O olhar que ele lançou a ela foi carregado de subtexto. Havia algo que ele não podia dizer na frente das outras, algo que Stella ainda não conseguia decifrar.
— Está bem — concordou Stella, buscando ganhar tempo.
Ela sabia que aquela área era restrita, uma zona de preservação proibida para civis. Também sabia que sua mãe ainda era uma ameaça real e invisível. Aquela cabana, por mais estranha que fosse, oferecia uma trégua antes que ela precisasse seguir viagem. Contudo, uma melancolia súbita a atingiu; a ideia de partir, de deixar aquele lugar e o que ele representava, causava uma dor que ela não conseguia explicar. Suas amigas sabiam que o exílio era necessário para despistar Lilian, mas Stella começava a se perguntar se estava fugindo do perigo ou de algo que acabara de descobrir.
— Ótimo — concluiu Grand. — Vocês podem ficar aqui por enquanto. Mas, por favor, não saiam da cabana sob hipótese alguma.
Após o alerta, ele se retirou. Stella não precisou olhar para o lado para saber que Christie revirava os olhos em sinal de protesto silencioso.
— Espero que este lugar tenha ao menos internet ou TV a cabo — comentou Susie, quebrando o silêncio pela primeira vez.
— Duvido muito — Jess respondeu com um suspiro.
A cabana era impecavelmente limpa e bem mantida, mas a tecnologia parecia ter sido barrada na soleira da porta.
Christie aproximou-se de Stella, a voz baixando para um tom de confidência. Havia uma curiosidade ansiosa em seus olhos.
— Conte-nos o que aconteceu de verdade — pediu ela.
Stella deixou-se cair no sofá, sentindo o peso dos olhares sobre si. Elas queriam saber dos danos, das cicatrizes, do terror de ser caçada por Tyler. Os ferimentos teriam sido fatais se Sage não tivesse surgido das sombras. Pensar nele trouxe uma onda de calor que Stella tentou afastar prontamente. Ela já tinha problemas suficientes com sua mãe e a lei para se permitir ser consumida pela imagem de um homem que a olhava como se ela fosse sua única razão de existir.
Respirou fundo, preparando-se para narrar o horror, omitindo a parte que ainda fazia seu coração acelerar de uma forma perigosa.
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Sage
RomanceLivro 2 Onde o medo termina, o instinto começa. Stella passou a vida inteira fugindo. Criada sob a sombra de uma mãe abusiva e perigosa, ela aprendeu que a única pessoa em quem pode confiar é em si mesma. Mas quando uma fuga desesperada pela flore...
