Cap 26 🌹 Editado

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​O fluxo temporal dentro do bloco de contenção operava sob uma lógica própria, distorcida pela ausência de referências luminosas naturais. Sem atualizações sobre as diretrizes dos captores, Stella dedicou o hiato operacional a uma inspeção tática de sua própria integridade física. Suas vestes exibiam contaminações por fuligem e resquícios de fluidos da emboscada; a derme, embora marcada por hematomas periféricos causados pela contenção mecânica, permanecia estruturalmente intacta. O prognóstico poderia ter sido substancialmente pior.

​— Consuma isto. O monitoramento indica um intervalo prolongado desde seu último aporte calórico.

​O braço robusto de Thorn cruzou o vão entre as grades divisórias. Na palma calejada, repousava a metade de uma maçã cuja oxidação inicial na polpa denunciava a procedência e o armazenamento inadequados. Stella aproximou-se com passos calculados, estendendo os dedos para receber o alimento. Sob condições normais, a acidez do fruto despertaria ressalvas; no cenário atual, sua resposta fisiológica foi uma salivação imediata e urgente.

​— Quais são as projeções para as próximas fases deste confinamento? — ela inquiriu, mantendo o tom de voz em uma frequência controlada enquanto executava a primeira incisão dentária.

​O paladar cítrico e o dulçor do líquido atingiram suas papilas com a força de um choque sensorial. A descarga de glicose induziu uma reação de satisfação tão intensa que Stella precisou tensionar a mandíbula para reprimir um som de apreciação biológica; manifestar tal vulnerabilidade diante de indivíduos de outra espécie violaria seus parâmetros de etiqueta e segurança. Ela conteve o entusiasmo, mastigando de forma metódica.

​— O cenário é inédito — Thorn respondeu, apoiando o peso do torso contra a estrutura de ferro. — Historicamente, a organização nos mantinha segregados. Introduzir uma fêmea humana diretamente no bloco de contenção dos machos desalinha o protocolo padrão.

​Stella interrompeu o movimento de mastigação, os olhos fixando-se no shifter.

​— A instalação abriga outras espécimes femininas? — a surpresa alterou sutilmente a modulação de sua voz.

​— Os dados disponíveis apontam para aproximadamente dez unidades de confinamento no setor adjacente. Uma amostragem reduzida, mas suficiente para os propósitos de triagem genética deles.

​A informação acionou novos vetores de análise na mente de Stella. A escala da operação paramilitar ganhava contornos de uma infraestrutura de laboratório.

​— A composição dessas fêmeas... são humanas?

​Ela observou Thorn consumir sua porção do fruto, a pressão de seus dedos contra as barras de aço fazendo o metal emitir um rangido sutil de estresse mecânico.

​— A amostragem é híbrida. Há uma percentagem menor de humanas com compatibilidade imunológica latente.

​— Sua contraparte genética... sua companheira está alocada entre elas?

​Thorn cerrou as pálpebras, os músculos da face sofrendo uma contração espasmódica antes de ele recuar para o vácuo de sua cela. Stella conjecturou se cruzara uma linha de segurança verbal, mas o macho retornou à linha de grade segundos depois. Entre os dedos, ele exibia um artefato de metal oxidado: uma pulseira de elos simples, cujo pingente reproduzia a geometria de um trevo de quatro folhas, manchado pelo atrito prolongado com a epiderme.

​— Este foi o último registro material remanescente. Ela me transferiu a posse do objeto antes da separação forçada, há exatos quatorze ciclos diários — Thorn expôs, a voz destituída de modulação, um indicativo técnico de trauma psicológico profundo.

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