Cap 23 🌹 Editado

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​O ambiente que se revelou aos olhos de Stella assim que as pálpebras cederam à lucidez da manhã fez seu peito contrair-se em uma sensação inédita de pertencimento. Diante da claridade sutil que filtrava pelas frestas das cortinas, a memória da noite anterior desenhou-se com nitidez cirúrgica. Cada toque, cada concessão e a entrega absoluta à simbiose da ligação biológica pareciam ter pavimentado o chão sob seus pés. Pela primeira vez em sua existência caótica, ela compreendeu, sem ressalvas, que estava exatamente onde deveria estar.

​O conforto, contudo, foi sutilmente interrompido por uma necessidade mundana. Ao engolir a saliva, Stella sentiu a garganta seca como lixa; sempre fora o tipo de pessoa cujo despertar vinha acompanhado de uma sede urgente.

​- Volte a dormir - uma vibração rouca, que tangenciava o limiar de um rosnado territorial, ecoou acima dela.

​Sage manifestava seu próprio e rudimentar ritual matinal: um mau humor possessivo e denso. O guerreiro mantinha-se estrategicamente posicionado sobre o corpo dela, o peso massivo de seu torso distribuído entre as coxas de Stella, ancorando-a ao colchão sem qualquer intenção de ceder espaço tão cedo.

​- Estou com sede - ela informou, a voz ligeiramente afetada pela secura.

​Stella observou quando o braço robusto de Sage se estendeu em direção à mesa de cabeceira. Com precisão cirúrgica, os dedos longos do shifter envolveram o copo de água posicionado ao lado do abajur de cerâmica. Durante todo o movimento, ele recusou-se a erguer o rosto da curvatura do pescoço de Stella, mantendo os lábios colados à pele dela. Uma lufada de ar quente escapou dos lábios da mulher; era fisicamente impossível alcançar o copo por conta própria sob aquela tonelagem de músculos. Teimosa, ela ainda tentou esticar os dedos, mas mal roçou a superfície do vidro. Soltou um murmúrio de frustração reprimida.

​- Não consigo alcançar. Está longe demais e você está bloqueando meus movimentos.

​Sage emitiu um som gutural de desagrado, uma carranca rústica fixando-se em suas feições enquanto ele finalmente cedia, erguendo o tronco o suficiente para levar o copo até os lábios dela. Apesar da crueza de seus modos, o cuidado com que amparou a nuca de Stella revelava uma atenção meticulosa.

​- Beba - ordenou de forma seca, mas gentil.

​Stella hesitou por uma fração de segundo antes de sorver o líquido. A água fria desceu aliviando a queimação na garganta, e ela bebeu com tanta avidez que, em segundos, o copo estava completamente vazio. Assim que terminou, Sage devolveu o objeto ao móvel com um estalo abafado e, sem qualquer preâmbulo ou cerimônia, desabou novamente entre as coxas dela, acomodando-se com uma tranquilidade indolente.

​Stella acalentou a intenção de questioná-lo sobre o significado da noite anterior. Queria compreender se a consumação do vínculo carregava o mesmo peso metafísico para ele, mas o ritmo pausado da respiração do macho indicou que ele já havia retornado ao estado de torpor. Agarrada com firmeza contra o peito dele, Stella permitiu que as perguntas se dissolvessem no ar. Perdeu-se na contemplação da silhueta adormecida daquela fera, cujos traços fortes e angulares remetiam à estatuária clássica. Seus dedos deslizaram deliberadamente pelas mechas escuras do cabelo dele, testando a textura macia que contrastava com a rigidez de sua mandíbula demarcada.

​Ele possuía uma beleza anatômica intimidante. Stella sabia disso por motivos óbvios; inspecionara cada sulco de seus músculos, as coxas hipertrofiadas e o peito largo mais de uma vez. Deduziu que a agilidade exigida para patrulhar as florestas em sua forma lupina fosse a razão para uma musculatura tão precisa e funcional.

​Lidando com as próprias limitações físicas, Stella precisou converter-se em uma contorcionista para desvencilhar-se do cerco de Sage. Mesmo submerso no sono, o instinto do macho reagia inconscientemente à menor tentativa de afastamento, tensionando os braços ao redor de sua cintura como um torniquete sutil.

Sage Histórias para pegar e não largar. Descubra agora