Cap 2 parte 1 🌹 Editado

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​— O que faremos com ele agora, irmão? — A pergunta de Conall cortou o silêncio pesado da sala.

​Ele mantinha os braços cruzados, ostentando uma carranca que parecia ser a herança genética mais óbvia da família. Grand e Sage também a possuíam; era uma expressão de dureza moldada pelo peso da responsabilidade e pela desconfiança crônica. Conall não confiava no que Sage se tornara, e Sage, em sua lucidez intermitente, sabia que não poderia culpá-lo.

​O humor de Sage oscilava como uma chama ao vento. Os apagões, antes constantes, haviam dado trégua nos últimos dias por algum motivo que ele desconhecia. Seria um milagre? Um presente tardio da Deusa da Sabedoria para compensar o inferno que o afligia? Ele não tinha certeza, mas o silêncio em sua mente era um alívio perigoso.

​— Apenas concentre-se em chegar na escola no horário — rebateu Grand, a voz firme como um decreto. — Nós cuidamos disso daqui para frente. Não se atrase.

​Conall abriu a boca para retrucar, mas o olhar de Grand era uma barreira intransponível. Ele engoliu as palavras, girou sobre os calcanhares e saiu, batendo a porta com a mesma fúria contida que carregava no rosto.

​Sage permaneceu imóvel na cela, um mestre na arte da dissimulação. Se ele revelasse que estava sóbrio e consciente, todo o seu plano de fuga ruiria. Desde que fora transferido daquele celeiro imundo para esta prisão de ferro, cada segundo era uma contagem regressiva. Ele precisava de uma brecha. Precisava do momento exato para desaparecer.

​— Você não foi duro demais com o garoto? — O xerife, que até então observava tudo encostado na parede, desencostou-se e deu um passo à frente. — Ele já tem idade para entender que...

​— Não — cortou Grand, com uma autoridade que não admitia réplicas. — Não diga mais nada. É para a proteção dele. Quando a hora chegar, e ela virá, daremos um jeito. Por enquanto, Conall fica fora dos problemas da matilha.

​O xerife ergueu as mãos em um gesto de rendição, um sorriso amargo brincando nos lábios.

​— Tudo bem. Vou esperar lá fora. Não quero estar na mesma sala quando o irmão desse... bom, quando o irmão dele chegar.

​Ele se referia a Mix. Sage ouviu a hesitação e o desprezo implícito, mas as palavras não o atingiram. Naquele momento, ele se sentia pouco mais que um animal. A fera sob sua pele arranhava a consciência, implorando por sangue e movimento. Ele esperaria. Seria paciente até que as correntes fossem quebradas e ele pudesse abraçar sua forma mais brutal. Havia machos de sua espécie que optavam por nunca mais retornar à forma humana; para Sage, aquela ideia parecia, a cada segundo, mais atraente do que a própria liberdade.

​Seus pensamentos foram interrompidos pelo som de passos conhecidos. O cheiro de Mix inundou o ambiente antes mesmo que a porta se abrisse.

​Sage observou o irmão entrar. Notou o modo como Mix apertava as mãos, os nós dos dedos brancos de tensão. Ele parecia uma estátua de dor e choque, os músculos rígidos como se estivessem prestes a se romper. Sage sentiu uma pontada de remorso: Mix não deveria estar ali, não deveria ver o que ele havia se tornado.

​— Sage? Pode me ouvir? — A voz de Mix saiu baixa, carregada de uma esperança que Sage não podia retribuir.

​Mix deu um passo à frente. Outro. Aproximando-se do perigo que Sage representava.

​— Sim, ele ouve — Grand interveio, dando de ombros com uma frieza calculada. — Mas não espere que ele responda. Ele se fechou para o mundo.

​Grand era astuto. Ele acreditava que colocar Sage diante de um rosto familiar poderia desencadear uma reação, um vestígio do homem que ele fora. Mas ele estava enganado. Sage estava decidido. Para que ele abandonasse seu plano de isolamento e entrega à fera, seria necessário algo monumental. Algo que ele vinha buscando em sonhos desde que se entendia por gente, mas que nunca encontrara.

​O destino de um shifter era selado por sua companheira. Se ele não a encontrara na metade da sua vida, não seria agora, no abismo de sua própria existência, que a encontraria. Ele já havia aceitado o vazio. Ele já havia desistido de ser homem.

Sage Histórias para pegar e não largar. Descubra agora