CAPÍTULO 17
No qual a irmã de nosso herói faz as coisas acontecerem.
Era o paraíso.
Esqueça os anjos, esqueça São Pedro e harpas brilhantes. O paraíso era uma dança nos
braços do seu verdadeiro amor. E quando a pessoa em questão estava a apenas uma semana de se
casar com outro, era preciso agarrar o paraíso com força, com ambas as mãos.
Metaforicamente falando.
Lucy sorria enquanto deslizava e girava. Agora tinha uma imagem a zelar. O que as pessoas
diriam se ela corresse e o agarrasse com força? E não soltasse mais?
A maioria diria que estava louca. Alguns, que estava apaixonada. Os perspicazes diriam as
duas coisas.
– No que está pensando? – perguntou Gregory.
Ele a olhava de um jeito... diferente.
Lucy virou para o outro lado e depois de volta. Sentia-se ousada, quase mágica.
– O senhor não iria querer saber.
Gregory contornou a senhora à sua esquerda e voltou ao lugar.
– Iria, sim – respondeu ele, abrindo um sorriso selvagem.
Mas Lucy apenas sorriu e balançou a cabeça. Naquele momento, queria fingir ser outra
pessoa. Alguém um pouco menos convencional, muito mais impulsivo.
Não queria ser a Lucy de sempre. Não naquela noite. Estava cansada de planejar, de
apaziguar, de não fazer nada sem antes pensar em cada possibilidade e consequência.
Se eu agir assim, então isso vai acontecer, mas se eu fizer aquilo, então isso, isso, e aquela
outra coisa vão acontecer, o que geraria um resultado completamente diferente, o que poderia
significar que...
Era o suficiente para deixar uma garota zonza. O suficiente para fazê-la se sentir paralisada,
incapaz de tomar as rédeas da própria vida.
Mas não naquela noite. Naquela noite, de alguma forma, por meio de um milagre incrível
chamado duquesa de Hastings – ou talvez a viúva Lady Bridgerton, Lucy não tinha certeza –, ela
usava um vestido de uma delicada seda verde, no baile mais reluzente que poderia ter imaginado.
E estava dançando com o homem que tinha certeza de que amaria até o fim dos tempos.
– A senhorita está diferente – disse ele.
– Eu me sinto diferente.
Ela tocou a mão dele quando passaram um pelo outro. E os dedos de Gregory agarraram os
dela, quando deveriam apenas tê-los roçado. Ela levantou os olhos e viu que ele a fitava, os olhos
quentes e intensos...
Santo Deus, ele olhava para ela da maneira como olhara para Hermione.
O corpo de Lucy começou a formigar, desde as pontas dos dedos do pé até alguns lugares
em que não se atrevia a pensar.
Eles passaram um pelo outro novamente, mas dessa vez Gregory se curvou, talvez umpouco mais do que deveria, e disse: – Eu me sinto diferente também.
A cabeça dela girou, mas Gregory já tinha virado e estava de costas para ela. Como assim,
ele estava diferente? Por quê? O que ele quis dizer?
Lucy deu a volta no cavalheiro à sua esquerda, em seguida passou por Gregory.
– Está feliz por ter vindo ao baile esta noite? – murmurou ele.
Ela apenas assentiu, uma vez que havia se afastado muito para responder sem falar alto
demais.
Mas, então, eles estavam juntos novamente, e Gregory sussurrou:
– Eu também.
Eles voltaram aos seus lugares originais e ficaram parados enquanto outro casal começava a
dançar. Lucy ergueu os olhos até encontrar os dele.
Que não se afastavam mais do rosto dela.
E, mesmo em meio à luz bruxuleante da noite – as centenas de velas e tochas que
iluminavam o reluzente salão –, ela podia ver o brilho que havia naquele olhar. A maneira como
ele a fitava era ardente, possessiva e orgulhosa.
Aquilo a fez estremecer. E duvidar de sua capacidade de ficar de pé.
Então a música acabou e Lucy percebeu que algumas coisas deviam ser mesmo arraigadas,
porque ela se viu fazendo uma reverência, sorrindo e acenando para a mulher ao lado como se
toda a sua vida não tivesse sido alterada durante a dança anterior.
Gregory pegou sua mão e levou-a para a lateral da pista de dança, onde os acompanhantes
circulavam, observando, por cima da borda dos copos de limonada, aqueles sob sua
responsabilidade. Mas, antes de chegarem ao seu destino, ele se curvou e sussurrou no ouvido
dela: – Preciso falar com você.
Lucy arregalou os olhos e o encarou.
– Em particular – acrescentou Gregory.
Ela sentiu que ele desacelerou o passo, provavelmente para lhes dar um pouco mais de
tempo antes de levá-la até tia Harriet.
– O que foi? – perguntou ela. – Há algo errado?
Ele balançou a cabeça.
– Não mais.
E ela se permitiu ter esperança. Só um pouco, porque não podia suportar pensar na mágoa
que sentiria se estivesse errada, mas talvez... Talvez ele a amasse. Talvez quisesse se casar com
ela. O casamento dela seria em menos de uma semana, mas ainda não fizera os votos.
Talvez houvesse uma chance.
Ela procurou no rosto de Gregory por pistas, por respostas. Mas quando o pressionou para
obter mais informações, ele só balançou a cabeça e sussurrou: – A biblioteca. Fica a duas portas
do lavabo das senhoras. Encontre-me lá em meia hora.
– Você está louco?
Ele sorriu.
– Só um pouco.
– Gregory, eu...
Ele a encarou com avidez e isso a silenciou. O modo como olhava para ela... tirou seu
fôlego.
– Eu não posso – sussurrou Lucy, porque, independentemente do que sentiam um pelo
outro, ela ainda estava noiva de outro homem. E, mesmo que não estivesse, tal comportamento
só podia levar a um escândalo. – Não posso ficar sozinha com você. Sabe disso.– Mas você precisa.
Ela tentou balançar a cabeça, mas não conseguia se mexer.
– Lucy, você precisa.
Então ela assentiu. Seria provavelmente o maior erro que comenteria na vida, mas não tinha
como dizer não.
– Sra. Abernathy – disse Gregory, a voz demasiado alta quando cumprimentou tia Harriet. –
Devolvo Lady Lucinda aos seus cuidados.
A velha senhora acenou com a cabeça, embora Lucy suspeitasse que ela não fazia ideia do
que Gregory havia lhe dito. Em seguida, ela virou para a sobrinha e gritou: – Vou me sentar!
Gregory riu, antes de dizer:
– Devo dançar com outras damas.
– É claro – retrucou Lucy, embora suspeitasse de que não estava totalmente a par das
complexidades envolvidas em se marcar um encontro ilícito. – Estou vendo uma conhecida –
mentiu.
Então, para seu grande alívio, de fato viu alguém que conhecera na escola. Não uma grande
amiga, mas ainda assim um rosto familiar o suficiente para ir cumprimentar.
Mas, antes que pudesse sequer tirar o pé do chão, Lucy ouviu uma voz feminina chamar o
nome de Gregory.
Não viu de imediato quem era, mas podia ver Gregory. Ele fechou os olhos e parecia
bastante aflito.
– Gregory!
A voz tinha se aproximado e, quando Lucy virou para a esquerda, viu uma jovem que só
poderia ser uma das irmãs de Gregory. A mais nova, provavelmente, a não ser que estivesse
muito bem conservada.
– Essa deve ser Lady Lucinda – disse a mulher.
O cabelo dela, Lucy notou, tinha o mesmo tom do de Gregory: um castanho vivo e brilhoso.
Mas os olhos eram azuis e aguçados.
– Lady Lucinda – falou Gregory, como quem cumpria uma obrigação –, permita-me que lhe
apresente minha irmã, Lady St. Clair.
– Hyacinth – disse ela, com firmeza. – Devemos dispensar as formalidades. Tenho certeza
de que seremos grandes amigas. Agora precisa me contar tudo sobre você. E depois eu gostaria
de saber tudo sobre a festa de Anthony e Kate, no mês passado. Queria ter ido, mas já tinha um
compromisso. Soube que foi muito divertida.
Assustada com o furacão humano à sua frente, Lucy olhou para Gregory em busca de algum
conselho, mas ele só deu de ombros e informou: – Esta é a que eu gosto de torturar.
Hyacinth virou para ele.
– Perdão?
Gregory fez uma reverência.
– Preciso ir.
Então Hyacinth Bridgerton St. Clair fez a coisa mais estranha. Estreitou os olhos e encarou
Gregory, depois Lucy e em seguida Gregory de novo. E disse: – Vocês vão precisar da minha
ajuda.
– Hy... – começou Gregory.
– Vão – cortou ela. – Vocês têm planos. Não tente negar.
Lucy não podia acreditar que Hyacinth tinha deduzido tudo isso a partir de uma reverência e
um Preciso ir. Ela abriu a boca para fazer uma pergunta, mas tudo o que conseguiu dizer, antesde Gregory silenciá-la com um olhar de advertência, foi: – Como...
– Sei que você está tramando alguma coisa – falou Hyacinth para Gregory. – Ou não teria se
empenhado tanto para garantir que ela viesse ao baile hoje.
– Ele só estava sendo gentil – observou Lucy.
– Não seja boba – retrucou Hyacinth, dando-lhe um tapinha tranquilizador no braço. – Ele
nunca faria isso.
– Isso não é verdade – protestou Lucy.
Gregory podia ser um pouco terrível, mas seu coração era bom e sincero, e ela não iria
permitir que ninguém, nem mesmo a irmã dele, falasse o contrário.
Hyacinth olhou para ela com um sorriso satisfeito.
– Gostei de você – disse lentamente, como se acabasse de se dar conta disso. – Está errada,
é claro, mas gostei de você mesmo assim. – Então virou para o irmão. – Eu gostei dela.
– Sim, você já disse isso.
– E você precisa da minha ajuda.
Lucy observou os irmãos trocarem um olhar que ela não conseguiu entender.
– Precisa hoje – prosseguiu Hyacinth, tranquilamente – e precisará depois também.
Gregory encarou a irmã, sério, e então disse, em uma voz tão baixa que Lucy teve de se
inclinar para a frente para ouvir: – Preciso falar com Lady Lucinda. A sós.
Hyacinth abriu um sorriso discreto.
– Posso conseguir isso.
Lucy tinha a sensação de que ela podia conseguir qualquer coisa.
– Quando? – perguntou Hyacinth.
– Quando for mais fácil – respondeu Gregory.
Hyacinth olhou em volta do salão, embora Lucy não fizesse ideia do que ela poderia
encontrar ali que tivesse a ver com a decisão que precisava tomar.
– Daqui a uma hora – anunciou ela, com a precisão de um general militar. – Gregory, vá
fazer o que costuma fazer nesses eventos. Dançar. Buscar limonada. Interagir com aquela tal de
Whitford, cujos pais não desgrudam de você há meses.
– E você – acrescentou Hyacinth, voltando-se para Lucy com um brilho autoritário nos
olhos – deve continuar comigo. Vou apresentá-la a todos que precisa conhecer.
– Quem eu preciso conhecer? – perguntou Lucy.
– Não tenho certeza ainda. Isso não importa muito.
Lucy não conseguia fazer mais nada além de olhar para ela espantada.
– Daqui a exatos 55 minutos, o vestido de Lady Lucinda vai se rasgar – disse Hyacinth.
– Vai?
– Eu vou rasgá-lo – respondeu Hyacinth. – Sou boa nesse tipo de coisa.
– Você vai rasgar o vestido dela? – indagou Gregory, inseguro. – Bem aqui no salão de
baile?
– Não se preocupe com os detalhes – falou Hyacinth, acenando com a mão de maneira
descontraída. – Só vá e faça a sua parte, e encontre-a no toucador de Daphne em uma hora.
– No quarto da duquesa? – gemeu Lucy.
Ela não poderia fazer algo assim.
– Nós a conhecemos como Daphne – retrucou Hyacinth. – Agora, todo mundo, fora daqui.
Lucy olhou para ela e piscou. Não devia ficar ao lado de Hyacinth?
– Quero dizer ele – esclareceu Hyacinth.
E então Gregory fez a coisa mais surpreendente. Pegou a mão de Lucy. Bem ali, no meio dosalão de baile, onde qualquer um poderia ver, ele pegou sua mão e beijou.
– Estou deixando-a em boas mãos – falou, dando um aceno educado com a cabeça. E lançou
à irmã um olhar de advertência antes de acrescentar: – Por mais difícil que seja acreditar.
Então saiu, provavelmente para cortejar alguma pobre dama desavisada que não tinha ideia
de que não passava de um peão inocente nos planos de sua irmã.
Lucy olhou de novo para Hyacinth, um pouco esgotada em razão daquele encontro.
Hyacinth sorria para ela.
– Muito bem – disse, embora Lucy tenha tido a impressão de que ela se autocongratulava. –
Agora, por que meu irmão precisa falar com você? E não diga que não faz ideia, porque não vou
acreditar.
Lucy pensou em várias respostas e por fim falou:
– Não faço ideia.
Não era exatamente verdade, mas ela não revelaria suas esperanças e seus sonhos mais
secretos para uma mulher que tinha acabado de conhecer, não importava de quem fosse irmã.
E isso lhe deu a sensação de que tinha vencido o embate.
– Verdade? – perguntou Hyacinth, desconfiada.
– Verdade.
Hyacinth claramente não estava convencida.
– Bem, pelo menos você é inteligente. Tenho de admitir isso.
Lucy decidiu que não seria intimidada.
– Sabe, pensei que eu fosse a pessoa mais organizada e habilidosa do mundo para resolver
as coisas, mas acho que você me superou.
Hyacinth riu.
– Ah, não sou nem um pouco organizada. Mas realmente sou boa em resolver as coisas. E
vamos nos dar muito bem. – Ela passou o braço pelo de Lucy. – Como irmãs.
Uma hora depois, Lucy tinha percebido três coisas sobre Lady Hyacinth St. Clair.
Primeiro, ela conhecia todo mundo. E sabia tudo sobre todos.
Segundo, era uma excelente fonte de informações sobre o irmão. Lucy não precisara fazer
uma única pergunta e, quando deixaram o salão de baile, já sabia a cor preferida de Gregory
(azul), a comida preferida (queijo, de qualquer tipo) e que, quando criança, ele falava com a
língua presa.
Também descobriu que ninguém deveria cometer o erro de subestimar a irmã mais nova
dele. Não só Hyacinth tinha rasgado o vestido de Lucy, como fizera isso com talento e astúcia,
garantindo que quatro pessoas soubessem do incidente (e da necessidade de consertá-lo). E fizera
todo o estrago próximo à bainha, preservando convenientemente o recato de Lucy.
Era muito impressionante.
– Já fiz isso antes – confidenciou Hyacinth, enquanto a guiava para fora do salão.
Lucy não ficou surpresa.
– É um talento bastante útil – acrescentou Hyacinth, com o semblante bem sério. – Por aqui.
Lucy a seguiu por uma escadaria na parte de trás da casa.– Há muito poucas desculpas para uma mulher deixar um evento social – continuou
Hyacinth, exibindo um talento notável para se manter fiel ao assunto escolhido. – Cabe a nós
dominarmos todas as armas em nosso arsenal.
Lucy começava a acreditar que havia levado uma vida muito isolada e protegida de tudo.
– Ah, aqui estamos nós. – Hyacinth abriu uma porta e espiou lá dentro. – Ele não está aqui
ainda. Ótimo. Isso me dá tempo.
– Para quê?
– Para consertar seu vestido. Confesso que me esqueci desse detalhe quando elaborei meu
plano. Mas sei onde Daphne guarda as agulhas.
Então ela foi até uma penteadeira e abriu uma gaveta.
– Exatamente onde pensei que estavam – falou, com um sorriso triunfante. – Adoro quando
estou certa. Isso torna a vida muito mais prática, não acha?
Lucy assentiu, mas estava concentrada na pergunta que queria fazer.
– Por que você está me ajudando?
Hyacinth a encarou como se ela fosse idiota.
– Você não pode voltar ao baile com o vestido rasgado. Não depois de falarmos para todo
mundo que íamos sair para consertá-lo.
– Não, não é isso.
– Ah. – Hyacinth olhou para uma agulha, pensativa. – Esta vai servir. Que cor de linha você
acha melhor?
– Branca, e você não respondeu à minha pergunta.
Hyacinth arrebentou um pedaço de linha e enfiou no buraco da agulha.
– Gostei de você – disse ela. – E amo meu irmão.
– Você sabe que estou noiva e prestes a me casar – retrucou Lucy, em voz baixa.
– Eu sei.
Hyacinth se ajoelhou aos pés de Lucy e, com pontos rápidos e desleixados, começou a
costurar.
– Em uma semana. Menos de uma semana.
– Eu sei. Fui convidada.
– Ah. – Lucy imaginou que devia saber disso. – Hã, você pretende ir?
Hyacinth levantou os olhos.
– Você pretende?
Os lábios de Lucy se entreabriram. Até aquele momento, pensar em não se casar com
Haselby era uma ideia frágil e absurda, mais uma sensação do tipo ah, como eu gostaria de não
ter de me casar com ele. Mas agora, com Hyacinth observando-a tão atentamente, a ideia
começava a parecer um pouco mais sólida. Ainda impossível, é claro, ou pelo menos...
Bem, talvez...
Talvez não impossível. Quase impossível.
– Os papéis já estão assinados – acrescentou Lucy.
Hyacinth voltou a atenção para sua costura.
– Estão?
– Meu tio o escolheu – disse Lucy, pensando em quem estava tentando convencer. – Isso foi
decidido há anos.
– Hum.
Hum? Que diabo aquilo queria dizer?
– E ele não... Seu irmão não... – Lucy procurava encontrar as palavras, mortificada por estardesabafando com uma quase desconhecida, com a irmã de Gregory, pelo amor de Deus. Mas
Hyacinth não falava nada; estava só ali, sentada, com os olhos focados na agulha entrando e
saindo da bainha de Lucy. E já que ela não dizia nada, então Lucy precisava falar. Porque...
Porque... Bem, porque sim. – Ele não me fez nenhuma promessa – disse Lucy, a voz quase
tremendo. – Não declarou suas intenções.
Ao ouvir isso, Hyacinth levantou o rosto. Então olhou em volta do quarto, como se dissesse:
Olhe bem para nós, consertando seu vestido no quarto da duquesa de Hastings. Depois
murmurou: – Não declarou?
Lucy fechou os olhos em agonia. Não era como Hyacinth St. Clair. Só eram necessários
quinze minutos na companhia dela para saber que ela ousaria qualquer coisa, arriscaria tudo para
garantir sua felicidade. Desafiaria as convenções, enfrentaria as mais duras críticas e emergiria
de tudo intacta de corpo e alma.
Lucy não era tão audaciosa. Não era governada por paixões. Seu cerne sempre estivera
ligado ao bom senso. Ao pragmatismo.
Não fora ela que dissera a Hermione que a amiga precisava se casar com um homem que os
pais aprovassem?
Não dissera a Gregory que não queria um amor forte e avassalador? Que não fazia o seu
tipo?
Ela não era esse tipo de pessoa. Simplesmente não era. Quando sua professora fazia
desenhos para ela colorir, Lucy nunca ultrapassava as linhas.
– Acho que não consigo fazer isso – sussurrou Lucy.
Hyacinth a encarou por um instante agonizantemente longo antes de voltar os olhos para a
costura.
– Eu a julguei mal – disse, baixinho.
Isso atingiu Lucy como um tapa na cara.
– O q... o q...
O que você disse?
Mas os lábios de Lucy não formavam as palavras. Ela não queria ouvir a resposta. E
Hyacinth já estava de volta ao seu enérgico eu, olhando para ela com ar irritado, quando
ordenou: – Não se mexa tanto.
– Desculpe – resmungou Lucy.
E então pensou... Aqui estou eu me desculpando de novo. Sou tão previsível, tão
convencional e sem imaginação...
– Você ainda está se mexendo.
– Ah. – Deus do céu, será que ela não conseguiria fazer nada direito naquela noite? –
Perdão.
Hyacinth espetou-a com a agulha.
– Você ainda está se mexendo.
– Não estou! – exclamou Lucy, quase gritando.
Hyacinth sorriu para si mesma.
– Assim é melhor.
Lucy olhou para baixo, com a cara feia.
– Estou sangrando?
– Se está, a culpa é só sua – respondeu Hyacinth, levantando-se.
– Perdão?
Mas Hyacinth já estava de pé, com um sorriso satisfeito no rosto.– Aí está – anunciou, apontando para sua obra. – Não ficou como novo, mas passará por
qualquer inspeção esta noite.
Lucy se ajoelhou para examinar sua bainha. Hyacinth tinha sido generosa nos elogios a si
mesma. A costura estava um horror.
– Nunca fui muito boa em corte e costura – comentou Hyacinth, dando de ombros,
despreocupada.
Lucy se levantou, lutando contra o impulso de rasgar os pontos e refazê-los todos.
– Você devia ter me falado – murmurou.
Os lábios de Hyacinth se curvaram em um sorriso lento e dissimulado.
– Ai, ai, você ficou toda nervosa de repente.
E então Lucy se chocou ao dizer:
– Você ficou muito difícil.
– Talvez – retrucou Hyacinth, como se não se importasse muito com o que Lucy achava.
Então olhou para a porta com ar de quem estava estranhando algo. – Ele já deveria estar aqui.
O coração de Lucy bateu estranhamente no peito.
– Você ainda pretende me ajudar? – sussurrou ela.
Hyacinth virou de volta.
– Eu espero – respondeu ela, os olhos encontrando os de Lucy de forma avaliadora – que
você tenha julgado mal a si mesma.
Gregory estava dez minutos atrasado. Não conseguira evitar. Depois que dançara com uma
jovem, ficou claro que teria de repetir o gesto com mais meia dúzia.
E, embora fosse difícil se manter atento às conversas que precisou manter, ele não se
importava com o atraso. Isso significava que Lucy e Hyacinth já teriam deixado o salão muito
antes de ele ir atrás delas. Queria encontrar uma maneira de fazer Lucy ser sua esposa, mas não
havia necessidade de arrumar um escândalo.
Seguiu, então, para o quarto da irmã. Já havia passado incontáveis horas na Casa Hastings e
conhecia bem o lugar. Quando chegou a seu destino, entrou sem bater, as dobradiças bem
lubrificadas da porta se movendo sem um som sequer.
– Gregory.
Era a voz de Hyacinth. Ela estava de pé ao lado de Lucy, que parecia...
Abatida.
O que Hyacinth teria feito com ela?
– Lucy? – chamou ele, correndo em sua direção. – Algo errado?
Ela balançou a cabeça.
– Não foi nada.
Ele então virou para a irmã com olhos acusadores.
Hyacinth deu de ombros.
– Estarei na sala ao lado.
– Escutando atrás da porta?
– Vou esperar na escrivaninha de Daphne – disse ela. – É no meio da sala, e, antes que façaalguma objeção, não posso me afastar mais. Se alguém aparecer, vocês vão precisar que eu entre
depressa para fazer tudo parecer respeitável.
O argumento era válido, por mais que Gregory não gostasse de admitir, então assentiu e a
observou sair, esperando o clique do trinco na porta antes de falar.
– Hyacinth disse algo indelicado? – perguntou a Lucy. – Ela pode ser constrangedoramente
rude, mas tem bom coração.
Lucy balançou a cabeça.
– Não – respondeu, gentil. – Na verdade, acho que ela pode ter dito a coisa certa.
– Lucy...? – falou Gregory, fitando-a com ar indagador.
Os olhos dela, que pareciam tão enevoados, de repente entraram em foco.
– O que você precisava me dizer? – perguntou.
– Lucy – começou ele, perguntando-se qual era a melhor forma de falar.
Vinha ensaiando discursos na mente durante todo o tempo que passara dançando lá
embaixo, mas, agora que estava ali, não sabia o que dizer.
Ou melhor, sabia. Só não sabia a ordem, nem o tom. Devia dizer que a amava? Abrir o
coração a uma mulher que pretendia se casar com outro? Ou devia optar pelo mais seguro e
explicar por que ela não podia se casar com Haselby?
Um mês antes, a escolha teria sido óbvia. Ele era um romântico, apreciador de grandes
gestos. Teria declarado seu amor, certo de que suas palavras seriam bem recebidas. Teria pegado
a mão dela. Ficado de joelhos.
Ele a teria beijado.
Mas agora...
Não estava mais tão seguro. Confiava em Lucy, mas não no destino.
– Você não pode se casar com Haselby – falou.
Ela arregalou os olhos.
– Como assim, não posso?
– Você não pode se casar com ele – repetiu Gregory. – Vai ser um desastre. Vai... Você tem
de confiar em mim. Não pode se casar com ele.
Ela balançou a cabeça.
– Por que está me dizendo isso?
Porque eu quero você para mim.
– Porque... porque... – Ele procurava as palavras certas. – Porque você se tornou minha
amiga. E desejo a sua felicidade. Ele não será um bom marido para você, Lucy.
– Por que não?
A voz dela soou baixa, inexpressiva, dolorosamente diferente da sua voz de sempre.
– Ele... – Santo Deus, como falar aquilo? Será que ela sequer entenderia o que ele queria
dizer? – Ele não... – Engoliu em seco. Tinha de haver uma maneira delicada de tratar do assunto.
– Ele não... Algumas pessoas...
Gregory olhou para Lucy e o lábio inferior dela tremia.
– Ele prefere os homens – desabafou o mais rápido que pôde. – Às mulheres. Alguns
homens são assim.
E então esperou. Por um longo instante, Lucy não esboçou nenhuma reação, só ficou parada
como uma estátua trágica. De vez em quando ela piscava, mas, fora isso, nada. E então
finalmente...
– Por quê?
Por quê? Ele não entendeu.– Por que ele...
– Não! – interrompeu Lucy vigorosamente. – Por que você me contou? Por que me disse
isso?
– Eu lhe contei...
– Não, você não fez isso para ser gentil. Por que me contou? Foi só para ser cruel? Para
fazer com que eu me sinta como você, porque Hermione se casou com meu irmão e não com
você?
– Não! – A palavra irrompeu do âmago de Gregory, e ele segurava Lucy com as duas mãos
em torno dos braços dela. – Não, Lucy. Eu nunca faria isso. Quero que você seja feliz. Quero...
Você. Ele a queria, e não sabia como dizer isso. Não naquele momento, não quando ela
olhava para ele como se tivesse partido seu coração.
– Eu poderia ser feliz com ele – sussurrou ela.
– Não. Não, não poderia. Você não entende, ele...
– Sim, poderia! – gritou ela. – Talvez eu não fosse amá-lo, mas poderia ser feliz. Era o que
eu esperava. Era para isso que eu estava preparada. E você... você... – Ela se desvencilhou dele,
virando-se até não ver mais o seu rosto. – Você arruinou tudo.
– Como?
Ela levantou os olhos e o encarou, e o que Gregory viu ali era tão enérgico, tão intenso, que
ele não conseguiu respirar. E Lucy disse: – Porque me fez querer você em vez disso.
O coração dele bateu forte no peito.
– Lucy – disse Gregory, porque não conseguia falar mais nada. – Lucy.
– Eu não sei o que fazer – confessou ela.
– Me beije. – Ele tomou o rosto dela entre as mãos. – Apenas me beije.
Desta vez, o beijo foi diferente. Ela era a mesma mulher, mas ele não era o mesmo homem.
A ânsia que sentia por ela era mais profunda, mais elementar.
Ele a amava.
Beijou-a com todo o seu ser, com todo o ar, com cada batida do seu coração. Os lábios dele
encontraram suas bochechas, a testa, as orelhas, e, durante todo o tempo, ele sussurrava o nome
dela como uma prece.
Lucy. Lucy. Lucy.
Ele a queria. Precisava dela. Ela era como o ar. Comida. Água.
Ele deslizou os lábios para o pescoço dela, em seguida até a borda rendada de seu corpete.
A pele de Lucy se incendiava sob os lábios dele, e, quando Gregory puxou o vestido,
descobrindo um de seus ombros, ela arfou... Mas não o deteve.
– Gregory – sussurrou, enfiando os dedos no cabelo dele enquanto ele distribuía beijos pelo
seu colo. – Gregory, ah, meu Gregory.
Ele passou a mão reverentemente pelo ombro dela. A pele reluzia, pálida, à luz das velas, e
ele foi atingido por uma intensa sensação de posse. De orgulho.
Nenhum outro homem a vira assim, e ele rezava para que nenhum outro jamais visse.
– Você não pode se casar com ele, Lucy – sussurrou com urgência, as palavras quentes
contra a pele dela.
– Gregory, não diga isso – gemeu Lucy.
– Não pode.
E então, como sabia que aquilo não podia ir mais longe, ele se endireitou, pressionando um
último beijo nos lábios dela antes de afastá-la, obrigando-a a encará-lo.
– Você não pode se casar com ele – insistiu.– Gregory, o que eu posso...
Ele agarrou os braços dela. Com força. E disse:
– Eu te amo.
Os lábios dela se abriram. Mas ela não conseguia falar.
– Eu te amo – repetira.
Lucy desconfiara – esperara – aquilo, mas não se permitira de fato acreditar. E assim,
quando finalmente encontrou as palavras, o que disse foi: – Você me ama?
Ele sorriu, então gargalhou, depois apoiou a testa na dela.
– Com todo o meu coração. Só agora percebi isso. Sou um idiota. Um cego. Um...
– Não – interrompeu ela, balançando a cabeça. – Não se repreenda. As pessoas nunca
reparam em mim quando Hermione está por perto.
Ele apertou as mãos dela com ainda mais força.
– Ela não chega a seus pés.
Uma sensação de calor começou a se espalhar pelo corpo de Lucy. Não desejo, não paixão,
apenas a mais pura e completa felicidade.
– Você está sendo sincero? – sussurrou.
– O suficiente para fazer o que for preciso para que você não se case com Haselby.
Ela empalideceu.
– Lucy?
Não. Ela conseguiria. Faria aquilo. Era quase engraçado, na verdade. Passara três anos
dizendo a Hermione que ela deveria ser prática, seguir as regras. Havia inclusive zombado
quando a amiga discursara sobre amor e paixão. E agora...
Respirou fundo, procurando se fortalecer. E agora iria romper seu noivado.
Que tinha sido combinado havia anos. Cinco dias antes do casamento. Com o filho de um
conde. Deus do céu, mas que escândalo.
Ela deu um passo para trás, levantando o queixo para poder ver o rosto de Gregory. Ele a
fitava com todo o amor que ela mesma sentia.
– Eu te amo – sussurrou Lucy, porque ainda não tinha dito isso. – Eu também te amo.
Pela primeira vez ela iria parar de pensar em todos. Não aceitaria as coisas do jeito que elas
eram, tentando tirar o melhor proveito disso. Iria atrás da própria felicidade, iria construir o
próprio destino.
Não iria fazer o que era esperado. Iria fazer o que queria. Já era hora.
Ela apertou as mãos de Gregory e sorriu. Não de uma forma hesitante, mas com confiança,
um sorriso largo, cheio de esperanças e sonhos – e da certeza de que iria realizar todos.
Seria difícil. Seria assustador. Mas valeria a pena.
– Vou falar com meu tio – disse ela, as palavras firmes e seguras. – Amanhã.
Gregory puxou-a para si para um último beijo, rápido e apaixonado, cheio de promessas.
– Devo estar com você? – perguntou. – Fazer-lhe uma visita para assegurá-lo das minhas
intenções?
A nova Lucy, a Lucy ousada e corajosa, perguntou:
– E quais são suas intenções?
Os olhos de Gregory se arregalaram de surpresa, depois aprovação, e então ele segurou a
mão dela.
Lucy percebeu o que ele fazia antes mesmo de ver. As mãos de Gregory pareceram deslizar
pela dela enquanto se abaixava...
Até ficar apoiado em um joelho, olhando para ela como se não houvesse mulher mais bonitano mundo.
Ela levou a mão à boca e percebeu que tremia.
– Lady Lucinda Abernathy – disse ele, a voz fervorosa e segura –, você me daria a imensa
honra de se tornar minha esposa?
Ela tentou falar. Tentou assentir.
– Case comigo, Lucy – pediu Gregory. – Case comigo.
Desta vez ela conseguiu responder:
– Sim. Sim! Ah, sim!
– Vou fazê-la feliz – disse ele, ficando de pé para abraçá-la. – Eu prometo.
– Não precisa prometer. – Ela balançou a cabeça, piscando para afastar as lágrimas. – Não
haveria como você não fazer.
Ele abriu a boca, provavelmente para falar mais, mas foi interrompido por uma batida na
porta, suave, mas rápida.
Hyacinth.
– Vá – disse Gregory. – Deixe Hyacinth levá-la de volta ao salão de baile. Vou depois.
Lucy assentiu, endireitando o vestido até tudo estar de volta em seu devido lugar.
– Meu cabelo – sussurrou ela, os olhos arregalados quando encontraram os dele.
– Está lindo – assegurou Gregory. – Você está deslumbrante.
Ela correu para a porta.
– Tem certeza?
Eu te amo, disse ele, movendo os lábios, sem emitir nenhum som. E seus olhos diziam o
mesmo.
Lucy abriu a porta e Hyacinth entrou depressa.
– Meu Deus, vocês dois são lentos – falou. – Precisamos voltar. Agora.
Ela caminhou até a porta que levava ao corredor, então parou, olhando primeiro para Lucy,
depois para o irmão e para Lucy de novo, erguendo uma sobrancelha indagadora.
Lucy encarou-a com orgulho de si mesma.
– Você não me julgou mal – disse ela calmamente.
Os olhos de Hyacinth se arregalaram, depois seus lábios se curvaram num sorriso.
– Que bom.
E era, percebeu Lucy. Era muito bom mesmo.
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