CAPÍTULO 22
No qual o mundo vem abaixo.
O mundo veio abaixo.
Lorde Davenport disparou para a frente, assim como o tio de Lucy e o irmão de Gregory,
que tinha acabado de subir aos tropeços os degraus da igreja depois de perseguir o mais novo
pela Mayfair.
Richard correu para tirar tanto Lucy quanto Hermione do meio da confusão, mas lorde
Haselby, que assistia aos acontecimentos como um espectador intrigado, calmamente pegou o
braço de sua noiva e disse: – Eu cuido dela.
Quanto a Lucy, ela cambaleou para trás, chocada e boquiaberta, quando lorde Davenport
saltou para cima de Gregory, aterrissando de bruços como um... bem, como nada que Lucy já
tivesse visto.
– Eu o peguei! – gritou Davenport, triunfante, sendo atingido em seguida pela bolsa de mão
de Hyacinth St. Clair.
Lucy fechou os olhos.
– Imagino que não seja o casamento dos seus sonhos – murmurou Haselby em seu ouvido.
Lucy balançou a cabeça, zonza demais para fazer qualquer outra coisa. Devia ajudar
Gregory. Devia mesmo. Mas estava sem forças e, além disso, era covarde demais para encará-lo
novamente.
E se ele a rejeitasse?
E se ela não conseguisse resistir?
– Espero que ele consiga sair de baixo do meu pai – continuou Haselby, o tom de voz suave
como se estivesse assistindo a uma disputa nada empolgante. – O homem pesa uns 130 quilos...
Não que ele vá admitir isso, claro.
Lucy virou para ele, sem entender como podia estar tão calmo diante da confusão que
tomara conta da igreja. Até o primeiro-ministro parecia estar se defendendo de uma senhora
grande e rechonchuda, usando um chapéu enfeitado com frutas, que batia em todos que se
mexiam.
– Acho que ela não consegue vê-lo – disse Haselby, seguindo o olhar de Lucy. – Suas uvas
estão caindo.
Quem era aquele homem? Santo Deus, ela já havia se casado com ele? Eles tinham
concordado com alguma coisa, disso tinha certeza, mas ninguém os declarara marido e mulher.
De qualquer forma, Haselby estava estranhamente sereno, dados os acontecimentos.
– Por que você não disse nada? – perguntou Lucy.
Ele virou, olhando para ela com curiosidade.
– Enquanto o Sr. Bridgerton professava seu amor?
Não, enquanto o sacerdote desfiava sua cantilena sobre o sacramento do matrimônio, ela
quis rebater.
Em vez disso, só assentiu.Haselby inclinou a cabeça para o lado.
– Acho que eu queria ver o que você faria.
Ela olhou para ele, incrédula. O que ele teria feito se ela tivesse dito sim?
– Sinto-me honrado, a propósito – disse Haselby. – E serei um bom marido para você. Não
precisa se preocupar quanto a isso.
Mas Lucy não conseguia falar. Lorde Davenport tinha sido tirado de cima de Gregory, e,
embora outro cavalheiro que ela não reconhecia o estivesse puxando para trás, ele ainda lutava
para alcançá-lo.
– Por favor – sussurrava ela, embora ninguém pudesse ouvi-la, nem mesmo Haselby, que
tinha acabado de ir ajudar o primeiro-ministro. – Por favor, não.
Mas Gregory era incansável e, mesmo com dois homens puxando-o, um que gostava dele e
outro que não, conseguiu chegar aos degraus. Ergueu o rosto e a encarou com os olhos em
chamas. Pareciam repletos de angústia e incompreensão, e Lucy quase cambaleou com tamanha
dor que viu neles.
– Por quê? – perguntou Gregory.
Ela começou a tremer. Conseguiria mentir para ele ali, em uma igreja, depois de tê-lo ferido
pessoal e publicamente daquela forma?
– Por quê?
– Porque eu tinha de fazer isso – sussurrou ela.
Os olhos dele brilharam de... decepção? Não. Esperança? Não, isso também não. Era outra
coisa. Algo que ela não conseguia identificar.
Ele abriu a boca para falar, para perguntar algo, mas foi nesse instante que os dois homens
que o seguravam foram ajudados por um terceiro, e juntos eles conseguiram arrastá-lo para fora
da igreja.
Lucy abraçou o corpo, mal conseguindo ficar de pé enquanto o via ser levado para longe
dela.
– Como você pôde?
Ela se virou. Hyacinth St. Clair tinha chegado furtivamente atrás dela e a fuzilava com o
olhar como se ela fosse o próprio diabo.
– Você não entende – disse Lucy.
Mas os olhos de Hyacinth ardiam de fúria.
– Você é fraca – sibilou ela. – Não o merece.
Lucy balançou a cabeça, sem saber exatamente se estava concordando com ela ou não.
– Espero que você...
– Hyacinth!
Lucy olhou para o lado. Outra mulher havia se aproximado. Era a mãe de Gregory. Elas
haviam sido apresentadas no baile na Casa Hastings.
– Já chega – disse ela, severamente.
Lucy engoliu em seco, piscando para conter as lágrimas.
Lady Bridgerton a encarou.
– Queira nos perdoar – falou, puxando a filha.
Lucy viu as duas se afastarem e teve a estranha sensação de que tudo aquilo estava
acontecendo com outra pessoa, que talvez fosse apenas um sonho, um pesadelo, ou talvez ela
estivesse presa em uma cena de um romance terrível. Talvez sua vida inteira fosse fruto da
imaginação de alguém. Talvez, se fechasse os olhos...
– Vamos continuar?Ela engoliu em seco. Era lorde Haselby. O pai estava ao lado dele, expressando a mesma
opinião, mas com palavras muito menos corteses.
Lucy assentiu.
– Que bom – resmungou Davenport. – Garota sensata.
Lucy se perguntou o que significava ser elogiada por um homem como aquele. Sem dúvida,
nada de bom.
Mas, ainda assim, ela permitiu que ele a levasse de volta ao altar e ficou lá em frente à
metade da congregação que não tinha preferido acompanhar o espetáculo lá fora.
Então, finalmente, se casou com Haselby.
– No que você estava pensando?
Gregory levou um instante para perceber que sua mãe perguntava isso a Colin, e não a ele.
Estavam sentados na carruagem dela, para a qual ele fora arrastado quando deixaram a igreja.
Gregory não sabia aonde estavam indo. Andando em círculos aleatórios, muito provavelmente.
Para qualquer lugar que não fosse a igreja St. George.
– Eu tentei detê-lo – protestou Colin.
Violet Bridgerton parecia mais irritada do que qualquer um deles jamais a vira.
– Obviamente não foi o suficiente.
– A senhora tem ideia de como ele corre rápido?
– Muito rápido – confirmou Hyacinth, sem olhar para eles.
Estava sentada na diagonal de Gregory, estreitando os olhos para ver pela janela.
Gregory não falou nada.
– Ah, meu filho... – disse Violet, suspirando. – Ah, meu pobre filho.
– É melhor você deixar a cidade – sugeriu Hyacinth.
– Ela está certa – falou a mãe. – Não dá para evitar.
Gregory não respondeu. O que Lucy quisera dizer com Porque eu tinha de fazer isso?
O que isso queria dizer?
– Nunca a receberei em minha casa – resmungou Hyacinth.
– Ela será uma condessa – lembrou Colin.
– Não me importo se ela será a maldita rainha da...
– Hyacinth! – repreendeu Violet.
– Bem, não receberei – retrucou Hyacinth. – Ninguém tem o direito de tratar meu irmão
assim. Ninguém!
Violet e Colin olharam para ela. Colin parecia achar graça. Violet estava espantada.
– Vou destruí-la – continuou Hyacinth.
– Não, não vai – disse Gregory em voz baixa.
O restante da família ficou em silêncio e Gregory desconfiou que eles não tinham
percebido, até o momento em que falou, que ele não estava participando da conversa.
– Você vai deixá-la em paz – ordenou.
Hyacinth rangeu os dentes.
Gregory olhou nos olhos dela, firme e decidido.– E, se os seus caminhos um dia se cruzarem, você deve ser o mais gentil e amável que
puder – continuou ele. – Está me entendendo?
Hyacinth não disse nada.
– Está me entendendo? – repetiu ele.
A família o olhou em choque. Ele nunca perdia a paciência. Nunca.
E então Hyacinth, que nunca tivera um senso muito desenvolvido de tato, respondeu: – Na
verdade, não.
– Perdão? – disse Gregory, a voz fria como gelo, no exato momento em que Colin virou
para ela e sussurrou que calasse a boca.
– Eu não entendo você – continuou Hyacinth, dando uma cotovelada nas costelas de Colin.
– Como ainda pode ter compaixão por ela? Se isso tivesse acontecido comigo, você não...
– Isso não aconteceu com você – disparou Gregory. – E você não a conhece. Não sabe o que
motivou as ações dela.
– E você sabe? – indagou Hyacinth.
Ele não sabia. E isso o matava.
– Ofereça a outra face, Hyacinth – disse Violet, com delicadeza.
Hyacinth se recostou, o rosto tenso de raiva, mas fez silêncio.
– Talvez você possa ficar com Benedict e Sophie em Wiltshire – sugeriu Violet. – Acho que
Anthony e Kate virão para a cidade em breve, então você não pode ir para Aubrey Hall, embora
eu tenha certeza de que eles não se importariam que você ficasse lá na ausência deles.
Gregory continuou só olhando pela janela. Não queria ir para o campo.
– Você poderia viajar para fora do país – disse Colin. – A Itália é particularmente agradável
nesta época do ano. E você nunca foi lá, não é?
Gregory balançou a cabeça, sem prestar muita atenção. Ele não queria ir para a Itália.
Porque eu tinha de fazer isso, ela dissera.
Não porque ela queria. Não porque era sensato.
Porque tinha de fazer.
O que isso queria dizer? Será que tinha sido forçada? Estava sendo chantageada? O que
Lucy poderia ter feito para justificar uma chantagem?
– Teria sido muito difícil para ela não seguir adiante com o casamento – opinou Violet, de
repente, colocando a mão no braço dele de maneira solidária. – Lorde Davenport não é um
homem que alguém queira ter como inimigo. E, sinceramente, ali na igreja, com todos olhando...
Bem – continuou, com um suspiro resignado –, era preciso ser muito corajoso. E resiliente. – Ela
fez uma pausa, balançando a cabeça. – E preparado.
– Preparado? – indagou Colin.
– Para o que viria a seguir – esclareceu Violet. – Teria sido um enorme escândalo.
– Já é um enorme escândalo – murmurou Gregory.
– Sim, mas não tanto quanto se ela tivesse dito sim – falou Violet. – Não que eu esteja
contente com isso. Você sabe que só desejo a sua felicidade. Mas a decisão dela será vista com
aprovação. Ela será considerada uma garota sensata.
Gregory sentiu um dos cantos de sua boca se erguer em um sorriso irônico.
– E eu, um tolo apaixonado.
Ninguém o contradisse.
Depois de um instante, sua mãe falou:
– Você está lidando com isso muito bem, devo dizer.
De fato.– Eu achava... – Ela se interrompeu. – Bem, não importa o que eu achava, apenas o que
realmente aconteceu.
– Não – disse Gregory, virando de forma brusca para olhar para ela. – O que a senhora
achava? Como eu devia estar reagindo?
– Não se trata de dever – respondeu Violet, claramente perturbada pelas perguntas
repentinas. – É só que achei que você ficaria... mais irritado.
Gregory a fitou por um bom tempo, depois virou de novo para a janela. Estavam passando
pela Piccadilly, seguindo para oeste em direção ao Hyde Park. Por que ele não estava mais
irritado? Por que não estava socando as paredes? Tivera de ser arrastado da igreja e colocado à
força na carruagem, mas, depois disso, fora tomado por uma estranha calma, uma calma quase
sobrenatural.
E então algo que sua mãe disse ecoou em sua mente.
Você sabe que só desejo a sua felicidade.
A felicidade dele.
Lucy o amava, ele tinha certeza disso. Vira nos olhos dela, mesmo no momento em que o
rejeitara. Ela lhe dissera isso, e Lucy não mentiria sobre tal coisa. Ele sentira isso na maneira
como ela o beijara, e no calor do seu abraço.
Ela o amava. E o que quer que a tivesse feito seguir em frente com o casamento era maior
do que ela. Mais forte.
Ela precisava da sua ajuda.
– Gregory? – chamou sua mãe delicadamente.
Ele virou. Piscou.
– Você pulou no banco – disse ela.
Ele tinha pulado? Nem notara. Mas seus sentidos estavam mais alertas e, quando olhou para
baixo, viu que flexionava os dedos.
– Pare a carruagem.
Todos viraram para encará-lo. Até mesmo Hyacinth, que vinha olhando furiosa pela janela.
– Pare a carruagem – repetiu.
– Por quê? – perguntou a mãe, claramente desconfiada.
– Preciso de ar – respondeu ele, o que não era mentira.
Colin bateu na lateral do veículo.
– Vou com você.
– Não. Prefiro ficar sozinho.
Violet arregalou os olhos.
– Gregory... Você não pretende...
– Invadir a igreja? – completou ele. Então se inclinou para trás e abriu um sorriso meio
torto. – Acredito que já tenha me constrangido o suficiente por um dia, a senhora não acha?
– De qualquer forma, a esta altura eles já disseram os votos – observou Hyacinth.
Gregory lutou contra a vontade de fuzilar a irmã com o olhar. Ela parecia nunca perder uma
oportunidade de cutucar, espicaçar ou provocar.
– Exatamente – disse ele, apenas.
– Eu me sentiria melhor se você não fosse sozinho – comentou Violet, os olhos azuis ainda
cheios de preocupação.
– Deixe-o ir – falou Colin, tranquilamente.
Gregory virou para o irmão mais velho, surpreso. Não esperava ser apoiado por ele.
– Ele é um homem – acrescentou Colin. – Pode tomar as próprias decisões.Nem mesmo Hyacinth tentou contradizê-lo.
A carruagem já havia parado e o condutor esperava do lado de fora. Ao sinal de Colin, ele
abriu a porta.
– Preferiria que você não fosse – disse Violet.
Gregory beijou o rosto dela.
– Preciso de ar – repetiu. – É só isso.
Ele saltou, mas, antes que pudesse fechar a porta, Colin se inclinou para fora.
– Não faça nenhuma tolice – aconselhou Colin calmamente.
– Nenhuma tolice – prometeu Gregory. – Só o que for necessário.
Ele parou para se localizar melhor e então, como a carruagem de sua mãe não saía do lugar,
seguiu para o sul.
Para o lado oposto ao da igreja St. George.
Mas, quando chegou à rua seguinte, dobrou a esquina. Correndo.
