Elizabeth
O som da madeira rangendo sob as rodas ecoava como um lamento. Havia umidade nas paredes e um cheiro entranhado de sangue seco, ferrugem e desespero - um odor que parecia ter sido absorvido pela própria madeira daquela velha carroça de transporte de prisioneiros. O couro que me amarrava aos ganchos enferrujados das paredes cortava meus pulsos, e uma dor pulsava aguda na lateral da minha cabeça, latejando como se algo dentro do meu crânio tentasse escapar.
Meus olhos se abriram com dificuldade. A dor me cegava por dentro, como se minha mente ainda estivesse presa num pesadelo. Mas não era sonho. Era real.
Era real.
A escuridão dentro da carroça era quase total, exceto por uma réstia de luz que passava por uma pequena fresta no alto, revelando os respingos de sangue nas tábuas - e o fato de que alguns eram meus.
O gosto metálico em minha boca denunciava que eu havia gritado até ferir a garganta. Eu não me lembrava de tudo. Apenas do instante em que tentei fugir, da maneira como meus pés bateram no assoalho ao correr até a porta... e então, o impacto. A dor. O escuro.
As lágrimas começaram a cair. Sozinhas. Silenciosas. Desesperadas. Meus ombros se sacudiam com soluços abafados. Eu estava sozinha. Amarrada. Ferida. E longe demais de qualquer coisa que pudesse se chamar de socorro.
A carruagem desacelerou.
O barulho das rodas sobre o chão de cascalho cessou.
Silêncio.
Então, o som de passos.m sob a madeira e em seguida um salto firme no chão. Ele havia descido. Os sapatos pisando sob a terra seca, o barulho dele se aproximando, me aterrorizava.
O ar pareceu cessar. Meu corpo inteiro gelou.
O cadeado foi retirado nas portas velhas gerando estalos secos, e a luz do dia invadiu o compartimento como uma lâmina. Fechei os olhos no reflexo, e quando os abri de novo, ele estava ali.
Heathan.
A silhueta dele recortada contra a luz do sol era quase mítica. A sombra de um deus pagão. Os cabelos escuros, a camisa levemente desabotoada, e aquele sorriso... um sorriso que parecia mais uma cicatriz de insanidade.
- Você está acordada... queria que fosse uma surpresa.
Ele se aproximou, e o cheiro dele tomou o espaço: fumaça, ferro e sangue. Ele se ajoelhou à minha frente, os olhos brilhando com algo mais profundo do que insanidade. Algo que queimava com fanatismo e desejo.
- Quando você foi embora, Elizabeth... Quando você assinou aqueles papéis... Você tem ideia do que fez comigo? - Ele inclinou o rosto, os lábios quase tocando minha bochecha molhada de lágrimas. - Você partiu meu mundo ao meio. E mesmo assim, meu amor cresceu... como erva daninha. Como praga. Me consumiu.
Ele deslizou os dedos pela lateral do meu rosto, e então tocou a ferida em minha cabeça. A dor latejou de novo. Eu me contorci.
- Shh... - sussurrou. - Eu vou cuidar de você. Vamos cuidar disso, tudo bem?
Antes que eu pudesse reagir, ele me soltou das correntes com movimentos calmos, quase rituais. Como se estivesse libertando uma relíquia. Seus braços me envolveram como ferro em brasa, e então ele me levantou, me acolhendo em seus braços.
- Agora, vamos ver o nosso paraíso.
Ele desceu comigo para fora da carroça, e a luz do dia me agrediu como mil agulhas. Pisquei, cegada, e depois enxerguei. Um campo cercado por pinheiros altíssimos, grossos e negros como túmulos. Uma casa no meio do nada, escondida de tudo. De todos. De qualquer socorro.
Era de madeira escura, de arquitetura rústica, quase encantadora à primeira vista - mas com algo de amaldiçoado em sua aura. Como um conto de fadas que terminou em sangue.
- Esse será o nosso lar. Eu te imaginei aqui, em cada cômodo, sua voz reverberando pelos corredores.
- Heathan, por favor... - minha voz saiu como um sopro. - Deixa-me ir...
Ele riu. Um riso seco, cru.
- Meu amor, ainda não percebeu? Ficaremos juntos para sempre, como eu te prometi tantas vezes. Agora seremos apenas você e eu, e o mundo pode apodrecer aqui fora.
Ele caminhou comigo nos braços até a entrada da casa, empurrou a porta com o pé e entrou. O interior era assustadoramente bonito. Flores secas em vasos de cristal, livros empilhados. Era elegante e em outras circunstâncias, aconchegante.
Ele me sentou sobre um sofa com todo o cuidado do mundo, como se eu fosse feita de porcelana e frágil demais até para tocar, seus dedos acariciaram minha pele, secando minhas lágrimas, meu corpo se estremecia a cada um de seus toques.
- Eu te amo tanto... tanto... que se precisar te quebrar em pedaços para caber em mim, eu farei.
E então, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, sua mão desceu sobre minha cabeça, acariciando com a mesma palma que me feriu.
- O mundo lá fora morreu. Eu nunca mais te perderei de vista de novo.
Heathan me tocava como quem segura o último vestígio de vida num mundo em ruínas. Seus dedos deslizavam sobre minha testa ferida, trêmulos, suaves... e ainda assim, eu sentia como se cada carícia dele fosse uma corrente apertando mais fundo. O modo como ele me trata me da um pavor que o grito não traduz.
É como estar presa num sonho doente onde o monstro te embala com carinho... e chora por amor.
Seus olhos me encaram com uma ternura torturada, desesperada. E em meio à suavidade dos gestos, havia algo ali... algo faminto. Algo que ameaçava transbordar e destruir tudo, inclusive a mim.
Foi naquele instante que eu soube. Que eu senti.
O quanto o havia machucado.
Eu o deixei para trás... Eu pensei que ele conseguiria continuar. Que ele entenderia. Mas não entendeu. Não suportou.
E agora, olhando dentro daquele abismo que brilhava por trás de seus olhos - um abismo que levava o meu nome - eu compreendi: eu havia sido o último fio que segurava sua mente. E ao cortá-lo, eu libertei o seu lado mais insano.
Eu o joguei no vazio.
Heathan agora era o resultado da minha ausência. Um colapso com voz mansa. Um delírio que me ama até doer. E perder-me... perder-me de novo seria o fim de tudo para ele.
- Você é tudo que eu tenho... - ele murmurou, quase para si mesmo, como se repetisse um mantra antigo, enquanto seus dedos passavam levemente pelo meu cabelo. - Tudo que me resta... Tudo que me mantém inteiro.
E eu... eu apenas chorei. Em silêncio. Porque eu não era mais livre. Eu era a fé de um louco.
~"~
VOCÊ ESTÁ LENDO
+18 | CASO Nº 44 | Dark Romance
Romance~Livro com ilustrações~ DARK ROMANCE +18 "Eu entreguei minha alma ao Diabo e ele tomou-me como sua..." 1842... Início do século XIX... Nos corredores plúmbeos do Hospital Bethlem Royal, Elizabeth exerce o ofício de enfermeira com a serenidade de que...
