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1842

Heathan

O frio se aninhava em meus ossos como um parasita insaciável. O chão de pedra era uma extensão da minha própria rigidez — dura, inóspita, silenciosa. Eu não dormia. Não sabia mais como se fazia isso. Há dias, talvez semanas, o tempo havia perdido qualquer cronologia desde que ela chegara à minha vida, e eu deixara de ser apenas um vulto desgraçado caminhando entre ecos.

Elizabeth dormia na cama, envolta em lençóis rústicos, sua pele alva como porcelana rachada, os lábios entreabertos, sussurrando segredos que jamais ousaria decifrar. Mesmo em seu estado febril, doente, frágil, havia nela uma presença que ocupava mais do que o espaço do quarto — tomava conta do ar, das sombras, das bordas retorcidas do meu pensamento.
Minha mente me urrava falas desconexas, e em conjunto com o chão frio do quarto de Elizabeth onde eu já virava noites a vários dias, eu não conseguia pregar os olhos.
Fechei os olhos e tentei escapar da minha própria cabeça.

Mas ela estava lá.
Sempre está.

"Você vai perdê-la."

Aquela voz.
Áspera, cortante, feita do mesmo metal enferrujado que mora no fundo do peito de quem sobreviveu a tudo menos a si mesmo.

"Ela vai morrer. E então você voltará a ser apenas um erro. Um erro solitário."

Tentei respirar, mas até o ato de inspirar doía. Meus pulmões apertavam como se absorvessem o ar apenas para devolver angústia. Ela tossiu levemente na cama. Um som pequeno, e mesmo assim capaz de arrancar a lucidez do meu crânio com as unhas.

Levantei a cabeça.
Observei-a.
O rosto molhado de suor, as pálpebras tremendo, a respiração pesada como o hálito da própria morte rondando sua boca. Eu deveria ter me acostumado. Gente morre. É o que fazem. Gente mente, fere, abandona e morre. Mas Elizabeth...

Elizabeth tinha me arrancado do inferno como se não soubesse o preço. Como se, em sua inocência torturada, achasse que valia a pena tocar o monstro.

E agora ela definhava, enquanto eu queria salvá-la mesmo sem saber como se fazia isso sem destruir.

— Heathan... — ouvi sua voz arrastada, quebrada pela febre.

Levantei devagar, como se meus músculos soubessem que o mundo ia acabar com qualquer gesto impensado. Caminhei até a beirada da cama.

Ela abriu os olhos com esforço. Estavam vermelhos, marejados, mas ainda havia ali um pedaço de céu.

— Não consigo dormir — ela sussurrou. — Está tão frio...

Fiquei ali, imóvel. Não disse nada. O silêncio em mim era a única linguagem possível.

— Por favor... — sua voz trêmula me feriu mais do que qualquer lâmina. — Deita comigo. Só até eu dormir...

Havia súplica ali, mas também confiança. Uma confiança que eu não merecia. Que me feria, me amaldiçoava, me desarmava. Aquiesci com um movimento de cabeça e me deitei ao seu lado, rígido, como um corpo embalsamado.

Ela se virou. Encostou o rosto em meu peito e seus braços envolveram minha cintura com delicadeza. Seu corpo tremia. A febre queimava como brasas vivas, e mesmo assim ela buscava em mim calor.

Em mim.
O caos.
O vazio.
O nada.

Meu braço contornou seus ombros. Ela gemeu baixo, aninhando-se como um pássaro ferido. Aquele contato deveria me ser repulsivo. Nunca suportei toque. Nunca tolerei invasão. Mas nela... havia outra linguagem. Outra presença. Uma invasão que não destruía — reorganizava. Eu ansiava por cada segundo da minha vida por seu toque.

+18 | CASO Nº 44 | Dark RomanceHistórias para pegar e não largar. Descubra agora