Heathan
Ela costura.
Há algo de hipnótico no modo como os dedos dela percorrem o tecido — como se tecesse não apenas linhas, mas segredos. Eu a observo do outro lado da sala, quieto, imóvel, como um predador que não quer caçar. Só entender. Só... sentir.
O tempo se dilui quando ela está assim. Nem o vento contra as janelas me importa, nem o frio que penetra as rachaduras da madeira. Nada importa, exceto o modo como seus olhos baixam, concentrados, e a curva delicada de seus ombros imóveis, como se ela fosse feita de porcelana tensa, prestes a se quebrar com um suspiro.
Ela não fala.
Eu também não.
Há uma distância entre nós que não pode ser medida com passos. Ela me tolera, às vezes me olha, raramente me responde com mais do que o necessário. Mas nunca se oferece. Nunca se derrama. Como se houvesse portas dentro dela, trancadas com cadeados que ninguém viu forjarem.
E mesmo assim... eu quero saber.
Tudo.
Quero saber o que ela pensa quando está sozinha. O que a faz rir de verdade, não esses sorrisos pequenos e educados que às vezes me dá como esmola. Quero saber o que ela teme, o que ela ama, o que ela sente ao ver neve pela primeira vez no ano.
Quero saber se ela gosta do cheiro da terra molhada, se prefere chá amargo ou doce, se ouvia música quando criança — e que música. Quero saber se dançava, se chorava quando lia livros tristes, se já amou alguém antes.
Quero saber das cicatrizes que carrega sob o silêncio. Das palavras que nunca disse. Dos nomes que aprendeu a esquecer.
Mas eu não pergunto.
Não por medo da resposta — e sim por medo do silêncio que pode vir depois. E porque, talvez, se eu perguntar, ela se afaste mais. E eu não posso suportar isso. Não de novo.
Então eu apenas a observo costurar.
E, por algum motivo que não sei nomear, é o suficiente.
Pelo menos por enquanto.
Me aproximo devagar.
Ela não percebe.
Está com o vestido sobre o colo, franzindo a barra com a linha fina e azulada que escapa dos seus dedos como um fio de pensamento. Os olhos estão baixos, atentos. E o seu bordado termina de formar a asa de um pequeno pássaro na barra.
Ela costura liberdade no próprio cativeiro.
— Por que um pássaro? — pergunto, baixo, minha voz um pouco rouca pelo silêncio longo demais.
Ela sobressalta. Não me esperava tão perto. Endurece os ombros e cobre o bordado com a mão.
— É só um enfeite — diz, sem olhar para mim.
— Parece mais que isso. — Me sento à frente dela, no tapete gasto. Estou perto o suficiente para sentir o calor que escapa do corpo dela, mas ainda assim parece que estou a milhas. — Gosta de pássaros?
Ela hesita.
— Gosto do que representam.
— E o que é?
— Eles cantam quando querem. E voam quando querem. Ninguém os obriga a ficar.
Ela me lança um olhar rápido, como uma faca jogada com precisão. Eu engulo o incômodo que arde na garganta.
— Não sou sua prisão, Elizabeth.
— Não? — Ela finalmente me encara. Os olhos dela são claros, mas hoje estão escurecidos, como céu antes de tempestade. — Você me tirou da minha vida. Não me deixa sair nem mesmo no jardim sem que esteja comigo.
— Eu te salvei.
— Salvou de quê? De mim mesma?
— Do mundo.
Ela ri. Mas é um som curto, amargo.
— Você não sabe nada sobre mim, Heathan.
— E de quem é a culpa por isso? — retruco, me erguendo um pouco. — Tento me aproximar e você foge. Parece que estou sempre caminhando sobre cacos perto de você.
— Porque você me assusta.
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+18 | CASO Nº 44 | Dark Romance
Romance~Livro com ilustrações~ DARK ROMANCE +18 "Eu entreguei minha alma ao Diabo e ele tomou-me como sua..." 1842... Início do século XIX... Nos corredores plúmbeos do Hospital Bethlem Royal, Elizabeth exerce o ofício de enfermeira com a serenidade de que...
