Elizabeth...
Senti um arrepio rasgar minha espinha como um aviso ancestral — um sussurro de que algo em mim sabia. Sabia o que se escondia por trás daquele sorriso aberto demais, aquele sorriso largo demais para ser humano.
O tempo pareceu suspenso. A sala inteira mergulhou em um silêncio espesso, tão absoluto que pude ouvir, com clareza assustadora, o som do meu coração batendo fora do compasso.
Os dedos dele — longos, pálidos — brincavam com meus cabelos como se acariciassem uma boneca prestes a ser desmontada.
— Não vai gritar, enfermeira...? — ele sussurrou, como se não pedisse uma resposta, mas uma oferenda.
Não consegui responder. Minha garganta era um túnel vazio. O medo havia se infiltrado em meu sangue, corroendo tudo. Eu queria chorar. Mas nem as lágrimas ousaram cair diante dele.
Sua mão subiu em direção ao meu rosto — um toque suave, quase delicado.
Quase.
Porque no segundo seguinte, seus dedos envolveram meu pescoço com força.
— Quando eu falar, você me responde, sua vadiazinha de avental branco — ele cuspiu as palavras com um desprezo que parecia queimá-las no ar.
— H-Heathan... — meu nome escapou como um soluço preso — v-você está m-me sufocando...
Eu o encarei com olhos arregalados, suplicando por algo que ele não tinha para dar: misericórdia.
Segurei seus pulsos, trêmula, mas era como tentar parar uma tempestade com as mãos nuas.
Ele riu.
— Implora, vai... implora pra viver — disse com a empolgação de quem observa um espetáculo íntimo e perverso.
E havia mesmo prazer em seus olhos. Brilho. Felicidade.
A felicidade de um homem que só encontra sentido no sofrimento alheio.
Minhas forças começaram a ceder. A visão, a escurecer. Tudo ao meu redor virou borrão — seus dentes, suas pupilas dilatadas, a sala... tudo desfez-se em sombras.
E então veio o nada.
O vazio.
A escuridão.
[...]
Minha cabeça latejava como se martelassem ecos contra meu crânio. Os olhos pesavam toneladas, mas os abri mesmo assim.
Estava em um quarto — reconhecia o cheiro: desinfetante e mofo antigo.
Sentei-me devagar, apoiando-me nas grades do leito. Tudo doía, por dentro e por fora.
Minha imagem refletida no vidro da janela escurecida mostrou o que minhas mãos já sabiam: marcas roxas envolviam meu pescoço como um colar feito de dedos.
Toquei-as devagar. Ainda sentia o calor daqueles dedos deformados pela insanidade.
"Ele me mataria?"
Não sei.
Mas essa pergunta já não importava. O que eu precisava saber era: o que aconteceu depois que desmaiei?
Levantei-me com esforço e caminhei até a porta. O corredor estava vazio, silencioso demais.
— Elizabeth!
Um toque no ombro me fez estremecer.
— Você está bem?
Era Amélie. Uma colega de trabalho. Parecia aflita — ou assustada.
— Você devia estar em repouso. O que aconteceu com você... aquilo foi...
— O que aconteceu? — cortei-a, minha voz falha mas firme.
Ela suspirou, relutante.
— Você foi atacada pelo Paciente 44. Um dos enfermeiros ouviu barulhos e correu até lá.
Senti meu estômago virar.
A imagem voltou para mim como um raio: o aperto em meu pescoço, a risada dele... o escuro.
Mas havia mais. A memória escondida atrás do trauma. Algo que eu quase não quis lembrar.
Quando a porta foi arrombada, quando os outros invadiram o quarto...
Heathan estava parado.
Imóvel.
Os olhos arregalados fixos em mim, como se fosse a primeira vez que me enxergasse. Suas mãos ainda pairavam no ar, trêmulas, como se não soubessem se deveriam se afastar ou tentar me alcançar.
Seu sorriso tinha sumido. O rosto vazio. Os lábios entreabertos, como se quisesse dizer algo — mas não soubesse como. Naquele momento parecia que nenhuma palavra podia tocar o que havia dentro dele.
Parecia que acreditava que havia quebrado algo que era mais frágil do que parecia... e, ao mesmo tempo, mais importante do que jamais imaginou.
Ele estava ali... parado, como se o tempo houvesse congelado em torno do erro que cometera.
As mãos ainda manchadas do que não foi sangue, mas poderia ter sido. Os olhos — aqueles olhos sempre tão certos de si — agora vacilavam na dúvida, no abismo, no horror do que acabara de fazer.
E, por um instante, eu tive a impressão:
Talvez, pela primeira vez, ele tenha provado do próprio veneno... e descoberto que meu sangue tinha gosto de culpa.
E ali, entre o medo que ele causava e o silêncio que veio depois, eu vi: machucar-me foi o mais perto que chegou de se despedaçar por dentro.
E então ele recuou — não como um monstro contido, mas como um homem engolido por algo que nem ele sabe nomear.
Talvez fosse arrependimento.
Ou talvez só o eco do próprio vazio voltando a berrar dentro de si.
— Onde ele está agora?
— Não se preocupe com isso agora. Você precisa de cuidados médicos. Vou chamar alguém.
Mas não era isso que eu precisava. Passei por ela e continuei pelo corredor.
— Elizabeth!
Não respondi.
A única coisa que martelava dentro de mim era a imagem dele, parado, enquanto eu caía.
Perdido entre o tempo e o espaço.
Ele é doente.
Perturbado.
Perigoso.
Mas é meu paciente.
Minha responsabilidade.
Na noite passada, ele me atacou.
Mas ainda assim, alguma parte insana de mim acredita... que existe algo ali que ainda não tive a capacidade de enxergar.
Talvez ele não precise de alguém que o ajude, apenas de alguém que fique, e se não serei eu que fará isso... quem mais ousaria?
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+18 | CASO Nº 44 | Dark Romance
Romance~Livro com ilustrações~ DARK ROMANCE +18 "Eu entreguei minha alma ao Diabo e ele tomou-me como sua..." 1842... Início do século XIX... Nos corredores plúmbeos do Hospital Bethlem Royal, Elizabeth exerce o ofício de enfermeira com a serenidade de que...
