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10| Loving Does Not Make Anyone a Fool.

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Elizabeth

A água em minha pele já parecia fria quando ele me soltou.
Foi súbito. Como se, depois de me prender, tocar, marcar, ele decidisse me dar o gosto da fuga — não por misericórdia, mas por puro prazer em me observar tentar escapar.
Meus pés deslizaram no piso molhado quando me ergui da banheira, o corpo ainda ofegante, os olhos fixos naquela criatura imóvel atrás de mim. Ele não se mexeu. Não tentou impedir. Apenas riu — uma risada seca, baixa, que me atravessou como um prego enferrujado.

Corri.

Senti o ar frio me golpear o corpo encharcado enquanto eu cruzava o limiar da porta, deixando para trás aquele quarto que já não era mais um quarto, mas uma espécie de altar profano, onde ele havia entoado com os olhos o desejo e o caos.
Fiquei no corredor por longos segundos, arfando, os cabelos pingando água no chão, as vestes grudado na pele como se quisesse me tragar de volta ao que acabara de acontecer. Apoiei a mão na parede úmida e fechei os olhos.
Medo. Era o que qualquer um sentiria. E eu senti, mas dentro de mim havia algo mais. Algo errado. Algo que não deveria existir ali.

Adrenalina.

Não apenas a descarga química, mas um vício súbito, um torpor.
Era como se, por um instante, eu tivesse provado algo mais próximo da vida do que jamais havia sentido. Como se o inferno me houvesse sussurrado verdades que os céus jamais ousariam contar.

Segui cambaleando até o vestiário feminino. O silêncio era espesso, quase sólido, como se o próprio hospital respirasse ao meu redor, assistindo em segredo. Entrei e tranquei a porta atrás de mim.
No chuveiro, deixei que a água quente lavasse a pele marcada.
Toquei os próprios braços, as coxas, o pescoço, tentando encontrar ali algum sinal do que ele havia feito. Não havia hematomas. Nenhum machucado físico. Mas algo havia sido deixado dentro de mim — um espectro.

Heathan.

Como funciona a mente de alguém assim?
Não de um louco qualquer, nem de um criminoso impulsivo, mas de alguém que constrói o horror como se estivesse esculpindo arte.
Ele não age por impulso. Não quer apenas a dor. Ele quer saborear. Quer me ver se contorcendo entre o medo e o fascínio. Como um cientista diante da sua cobaia favorita.
Ou como um artista obcecado pela musa que ainda não sabe se quer destruir ou eternizar.
Saí do banho com a sensação de ter nascido outra vez. Não melhor. Apenas diferente. Como se parte de mim tivesse sido moldada sob pressão.
Vesti o uniforme limpo e voltei ao turno como se nada tivesse acontecido.

Sorri para pacientes que jamais saberiam o que eu carregava no olhar. Ajustei soro, conferi medicações, anotei prontuários. Por fora, eu era a enfermeira disciplinada, profissional. Mas dentro da minha cabeça, ele ainda estava lá.
A forma como sua respiração mudava quando me olhava. O modo como suas palavras se enroscavam em minha garganta como veneno e desejo ao mesmo tempo.

Atendi uma senhora em surto leve, uma jovem com crises de automutilação, um homem que gritava por vozes que eu não ouvia. Mas nada em mim era capaz de se distanciar do que acontecera naquela manhã.

O dia passou lento, arrastado. Como se o tempo estivesse testando minha sanidade.

E, então, a noite caiu.

As luzes do hospital se tornaram lâmpadas espectrais. O silêncio agora era absoluto.

Meus passos me levaram — não por vontade, mas por impulso — até a ala de isolamento.

A porta do quarto dele estava entreaberta.

A luz lá dentro era tênue.

Ele dormia.

Deitado de lado, os cabelos escuros molhados grudando na testa, o peito nu subindo e descendo devagar, como se sonhasse com algo sombrio do qual não pudesse compartilhar.

Entrei sem fazer ruído. E apenas fiquei ali, observando.

O rosto dele era outro quando dormia.

Ainda belo. Mas de um modo cruel, como um anjo que esqueceu que havia sido expulso.

Aproximei-me. Minhas mãos tremiam.

Toquei seu rosto, devagar demais. Depois o peito.

Seu coração batia firme.

Fechei os olhos por um instante, e desejei...
Não sei o que desejei.
Talvez que ele nunca acordasse.
Ou talvez, que acordasse e me puxasse de volta para o abismo, aquele lugar escuro que me apresentará e por um mísero segundo, fizera minha vida ter sentido e o coração finamente pulsar.

Minhas mãos deslizaram por seu braço até os dedos.

E por um instante, só um — achei que ele sorriu, mesmo adormecido.

Inclinei-me sobre ele.
Minhas palavras não saíram em voz alta. Apenas sussurraram dentro da minha mente, como um segredo partilhado com algo que já não era mais só humano:

"Você não me matou, Heathan. Mas algo em mim morreu desde que te conheci."

Deixei o quarto, e fechei a porta suavemente atrás de mim, comecei o caminho para a saída, pensando que finalmente poderia ir para casa e deixar todo esse caos para trás, mas o silêncio atrás de mim... não parecia selado.
Pisei no corredor como quem emerge de um pesadelo — só que, sem que eu soubesse, eu ainda estava dentro dele.

— Elizabeth.

A voz.
Aquela voz.

Meu coração congelou em pleno batimento. Virei-me. A porta do quarto de isolamento estava aberta — escancarada, como se jamais tivesse trancado coisa alguma. E lá estava ele: de pé, livre, o olhar ainda mais escuro do que antes.

— Você saiu tão rápido... — disse ele, com uma calma que sangrava perigo. — E deixou algo para trás.

Dei um passo para trás, o corredor agora parecia longo demais, estreito demais.

— O que deixei? — perguntei, tentando manter a firmeza.

Ele sorriu, aquele sorriso que era quase uma confissão de um crime ainda não cometido.

— A si mesma.

A luz acima de nós piscou. E num piscar, ele estava perto. Tão perto. Como um delírio que toma forma antes que se perceba. Seu corpo colado ao meu, o cheiro quente da pele molhada, a respiração lenta que raspava minha clavícula.

— Você sabe o que isso é, não sabe? — ele sussurrou. — Essa vontade de correr. Esse tremor nas suas coxas. Essa tensão no seu ventre.

— Medo. — respondi, tentando me convencer.

— Desejo. — ele corrigiu. — E está tudo misturado. Como eu.

A mão dele deslizou pela lateral do meu pescoço. Eu deveria ter reagido. Gritado. Fugido. Mas meu corpo parecia entregue a alguma força primitiva — e traiçoeira.

— Por que está fazendo isso comigo? — perguntei.
— Porque você me vê. Porque sua mente tenta me entender. Porque você chegou perto demais... e agora não tem mais volta.

Ele me empurrou contra a parede de azulejos, e sua mão agarrou meu pescoço com firmeza. Seus olhos me perfuravam como lâminas.

— Eu poderia fazer tudo com você agora, Elizabeth. Tudo. — disse ele, encostando a boca no canto da minha mandíbula. — Mas eu sou um monstro disciplinado. E monstros assim... saboreiam.

Seus dedos apartavam a minha pele, o ar me faltava nos pulmões, a minha voz não existia mais.

— Você não sabe, mas está se dobrando por dentro. Está mudando. Está se despedaçando.

Ele abriu um sorriso lento. Torto. Cruel.

— E quando você estiver pronta... quando estiver suplicando por mim sem perceber... eu estarei aqui.

E então...
Acordei.

Sentada no banco do vestiário, encostava nos armários, ainda envolta na toalha. A água do chuveiro escorria, incessante. O espelho me encarava como se soubesse o que eu acabara de ver. Ou sentir.

Mas nada havia acontecido. Nenhuma invasão. Nenhum aperto. Nenhuma visita ao seu leito durante o seu sono.
Exceto a lembrança do toque. A memória do cheiro. A sensação viva demais para ter sido apenas ilusão.
Talvez eu realmente estivesse mudando.

~"~

+18 | CASO Nº 44 | Dark RomanceHistórias para pegar e não largar. Descubra agora