Elizabeth
3 dias...
Contar se tornou um ritual. A única maneira de não enlouquecer é riscar mentalmente cada amanhecer. Oitavo dia trancada em uma casa que parece viva — ela respira com ele. Os corredores são suas veias, as portas são suas pálpebras. Ele me observa mesmo quando não está aqui.
Passamos dias dentro do quarto. Ele entra e sai quando quer, me alimenta, me veste, deita-se ao meu lado como se eu fosse um troféu que ele admira. Às vezes, sua mão roça minha pele, seus dedos puxam meu cabelo só para sentir a textura. Outras vezes, ele se deita no chão ao lado da cama e apenas... respira.
Ele está me dando tempo. Tempo para desistir. Tempo para entender que não existe fuga. E, de alguma forma, esse silêncio dele é mais barulhento que qualquer grito.
Estar aqui é como afundar em silêncio.
Não há correntes. Mas estou presa — em cada parede que respira junto comigo, em cada passo dele atrás dos meus, em cada porta que só se abre quando ele quer. A liberdade foi arrancada de mim. E o que sobrou... é só o vazio. Um vazio imóvel, suspenso no tempo, onde até o próprio ar parece pesar mais do que deveria.
O tempo passa como um sussurro abafado. Não há horas claras, nem dias distintos. Só o som dos passos dele no corredor. Só o ranger da madeira. Só a minha respiração tentando não chamar atenção demais.
Às vezes, me pego sentindo saudade até mesmo do som das carruagens no centro de Londres. Do cheiro do pão fresco nas manhãs. De ouvir vozes desconhecidas cruzando calçadas. Lá fora, o mundo vive — aqui dentro, eu apenas persisto. Como se a vida tivesse sido suspensa, congelada no instante exato em que ele decidiu que eu era sua.
Heathan.
O nome dele pesa na boca do meu pensamento. Como se fosse um juramento feito por outra pessoa. Um pacto assinado com meu sangue sem o meu consentimento. Ele diz que me ama. E o amor dele é como uma cerca invisível — construída não com gestos doces, mas com vigilância, possessão, e um tipo de cuidado que fere mais do que protege.
Não é um amor que liberta. É um amor que enclausura. Que molda. Que exige.
É um amor que não me permite ser.
Ele não quer minha companhia — quer minha alma. Quer a minha rendição, não meu afeto. Quer ver minha vontade ceder aos poucos, até que eu mesma não saiba mais onde termina minha voz e começa a dele.
Há noites em que acordo assustada, com a sensação de que ele está ali, me olhando. E às vezes ele está. Sentado no escuro, como uma sombra viva. Me observando dormir, respirar, existir. Como se apenas o ato de eu estar ali fosse suficiente para alimentar sua obsessão doentia.
Ele acha que isso é amor.
Mas é uma febre.
Uma febre que queima minha pele mesmo quando ele não me toca. Um fogo que me seca por dentro, enquanto por fora eu continuo sorrindo em silêncio, tentando parecer intacta. Ele me quer quebrada de forma exata — não destruída, não morta, mas moldada. Quieta. Resignada.
E talvez o pior de tudo...
É que ele acredita, com toda convicção, que isso é belo.
Que isso é sagrado.
Ele olha para mim como se eu fosse um altar. Como se meu corpo fosse feito para receber sua devoção insana. Como se eu tivesse sido escolhida por Deus para ser sua redenção — ou sua perdição.
E eu não sei mais o que é pior: a clausura do corpo...
Ou a que ele tenta construir dentro da minha mente.
Hoje ele abriu a porta.
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+18 | CASO Nº 44 | Dark Romance
Romantik~Livro com ilustrações~ DARK ROMANCE +18 "Eu entreguei minha alma ao Diabo e ele tomou-me como sua..." 1842... Início do século XIX... Nos corredores plúmbeos do Hospital Bethlem Royal, Elizabeth exerce o ofício de enfermeira com a serenidade de que...
