Heathan
Elizabeth...
Doce, frágil, absurdamente humana.
E ainda assim, tão desgraçadamente etérea que chega a parecer uma maldição esculpida em carne.
A luz a toca como se temesse queimá-la.
Mas eu...
Eu não temo.
Eu a devoro com olhos que não piscam, faminto de algo que não sei nomear — só sentir.
Ela é feita de silêncio e ruína, Há algo nela que não parece ter sido gerado pela vida... como se a morte, em um capricho silencioso, tivesse costurado sua pele com delicadeza, devolvendo-a ao mundo como um sussurro entre os mortos.
A marca da minha mão ainda arde no seu pescoço, como uma confissão suja que ninguém poderá apagar.
E eu observo.
Não como quem admira...
Mas como quem toma posse com o olhar. Como quem encara o próprio delírio sepultado mil vezes sob os escombros da mente — e, mesmo apodrecido, ainda o deseja... provando que a obsessão tem raízes mais fundas que a razão.
O branco da sua pele beira o mórbido. A forma como a luz amarelada da ala clínica dança sobre suas veias azuladas me hipnotiza. Eu podia traçá-las com a língua, arrancá-las com os dentes... e ainda assim, não seria o bastante para saciar minha fome.
Ela é bela demais para estar viva.
Ruiva. Pequena. Quase translúcida. Isso deixa tão claro que o mundo cometeu um erro grotesco ao deixá-la entre nós.
Não... nem mesmo a mente mais insana conseguiria imaginar algo tão perfeito.
Ela é a obra-prima que Deus, em um momento de descuido cruel, confiou às mãos sujas da humanidade. Ela é perfeita em sua fragilidade, assemelha-se a um espelho quebrado, onde o brilho do céu ainda reflete, mas de forma distorcida, entre as rachaduras de sua realidade imunda. Como pode alguém tão puro, tão inocente, existir entre as criaturas que corrompem tudo o que tocam? Como poderia um ser tão imaculado, destinado talvez a ser algo mais, ser jogado nas mãos de homens como eu?
Ela é um erro. O mais lindo erro que o céu já cometeu ao deixá-la tocar o chão. Mas, ao mesmo tempo, é um erro irresistível. A beleza de seu ser é a cruel lembrança de que até os deuses falham. Ela é a perfeição caída, entre as trevas da terra, forçada a respirar o ar poluído dos homens. E eu... eu sou o único que posso vê-la como ela realmente é — um reflexo da eternidade se diluindo em carne mortal.
Cada vez que me aproximo, sinto o peso desse erro. Ela não deveria estar aqui. Não deveria estar tão próxima de mim. Mas ela está. E é por isso que eu a desejo com uma fome que consome qualquer vestígio de razão dentro de mim.
Ela é minha, no mais profundo dos sentidos. Mesmo que seu corpo esteja cercado por esses outros... mesmo que sua alma ainda resista, eu sei que, no fundo, ela me pertence. E, no final, será apenas eu quem a compreenderá em toda sua perfeição. O resto do mundo... eles não merecem tocá-la. Ninguém mais pode tocá-la.
Eu, um homem de mãos manchadas e alma deteriorada, que nunca soube o que é pureza, tenho a audácia de desejar algo tão imaculado quanto ela.
Eu que sou feito de escuridão, que vivi entre os restos de meus próprios pecados, corroído por cada ato, por cada desejo insano, agora ouso olhar para ela — como se eu tivesse o direito de tocá-la, de me embriagar com sua beleza sem saber o que é luz.
Mas não há mais razão em mim, não há mais espaço para dúvidas. Eu, que sou a personificação do abismo, de todas os espectros que assombram a alma humana, vou corrompê-la. Não será um ato de violência, mas uma lenta dissolução. Um toque, um sussurro, um olhar — cada pedacinho de sua pureza será distorcido.
Já tive muitas. Toquei centenas. Perfurei dezenas. A carne feminina é um campo fértil para quem conhece o prazer do descontrole. Eram todas diferentes — mas tão iguais quando gritavam. Os corpos se contorcendo, o sangue aquecido pela adrenalina. Gado. Era isso. Gado em um matadouro. Não havia afeto. Apenas o clímax, seguido pelo desprezo da repetição.
Mas ela...
Ela me desmonta.
E ela não deveria fazer isso.
Olhei para o chão de minha cela, sentado feito um cão contido por barras frias. Meus olhos não piscavam enquanto os enfermeiros corriam com o corpo desmaiado da minha enfermeira. E mesmo inconsciente... mesmo com a pele manchada pela minha assinatura, ela ainda era bonita demais.
Minha obra-prima. Minha destruição.
Outro homem a carregava agora. Um verme. Um médico qualquer. Seus braços a envolviam com gentileza. Eu quis matá-lo. Arrancar os ossos das mãos dele, enfiar cada falange em sua garganta.
"Ele está tocando o que é seu..."
"Ela deixou. Deixou outro homem colocar as mãos na carne que você consagrou."
"Ela deixou... deixou outro tocar o que é seu... Sabe o que isso significa, não sabe?" Ela rasgou sua marca da pele, como se fosse poeira e abriu espaço pra outro onde só devia existir você."
Minhas mãos subiram até os cabelos, trêmulas, febris. Agarrei com força. Apertei como se pudesse esmagar os pensamentos, sufocar as vozes que berravam dentro da minha cabeça. Meus dedos doíam, o couro latejava, mas eu precisava da dor. Qualquer dor. Precisava do aperto, do calor sufocante da raiva comprimida entre os ossos.
Era isso ou explodir. Era isso ou destruir tudo ao redor.
Incluindo a mim mesmo.
Incluindo ela.
Mas mesmo assim... o grito estava lá.
Pulsando no fundo da garganta.
— Não toque nela... — murmurei, como um demônio rastejante.
Mas então gritei:
— NÃO TOQUEM NELA!! NÃO TOQUEM!!! ELA SANGRA COM O CHEIRO DA MINHA PELE. ELA GEME O SOM DO MEU NOME MESMO EM SILÊNCIO. EU A MARQUEI! E SE OUSAREM DESFAZER O QUE EU CRIEI... EU JURO POR TUDO O QUE HÁ DE PODRE EM MIM, QUE VOU PINTAR ESTAS PAREDES COM O QUE SOBRAR DE VOCÊS!
Gritei, gritei até minha garganta queimar. Sacudi as barras da cela como se pudesse fazê-las evaporar com a força do ódio. Mas ninguém me olhou. Ninguém se importou.
A porta se fechou.
Ela foi embora.
"Agora ela sabe. Agora ela tem medo. Agora ela jamais voltará."
"Você rasgou o laço, como quem morde a mão que alimenta."
"Você é o próprio erro. O que ela viu em você foi o que restou da podridão."
— Cala a boca... — rosnei, encolhido no canto da cela.
"Mas você queria, não queria? Ver ela frágil. Sentir o pulso dela descompassar por sua culpa."
"Você queria tocar... e tocar... até não restar mais som... até o silêncio ser o único grito."
Comecei a bater as mãos contra a cabeça, tentando afastar o demônio que sussurrava para mim. Mais e mais forte. Precisava silencia-lo.
— Ela me tocou primeiro... Foi ela quem atravessou as grades, quem invadiu o labirinto doente da minha mente. Foi ela quem acendeu algo onde eu achava jamais poder ver qualquer resquício de sentimento. Então por que agora recua? Por que se esconde? A culpa é dela... por ter acendido o fogo e dar as costas para a fumaça.
"Não... a culpa é sua."
"Você tocou o que não sabia cuidar. E agora tudo fede a arrependimento."
"Ela era o fio. E você cortou com os dentes."
A porta se abriu. Três homens entraram.
Por um segundo, meu coração se acelerou — como se, quem sabe, fosse ela, voltando para mim. Com medo, sim. Mas voltando.
Mas não era ela.
Um dos médicos me encarou com certo desprezo. Depois se virou e ordenou:
— Levem-no para a sala de eletroconvulsoterapia.
E então eu ri.
Baixo, rouco.
Porque, por um instante, desejei que o choque me fizesse esquecer o som da respiração dela.
Mas sei que nem mil descargas arrancariam Elizabeth de dentro de mim.
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+18 | CASO Nº 44 | Dark Romance
Romansa~Livro com ilustrações~ DARK ROMANCE +18 "Eu entreguei minha alma ao Diabo e ele tomou-me como sua..." 1842... Início do século XIX... Nos corredores plúmbeos do Hospital Bethlem Royal, Elizabeth exerce o ofício de enfermeira com a serenidade de que...
