Elizabeth
O som do crepitar.
Não é apenas fogo. Não é apenas a madeira sendo consumida. É algo maior, mais profundo e mais cruel. Parece o som de ossos se partindo, um eco de lembranças que não quero que me assombre, o ranger de correntes invisíveis arrastando-se pelo chão. É suave demais para me ferir, mas intenso demais para que eu possa ignorar.
Fecho os olhos e o som parece se multiplicar. Parece o ruído de passos cautelosos, caminhando pelo assoalho, como se alguém estivesse dentro da casa. Parece a batida da chuva contra os pinheiros durante a noite, insistente, interminável, quase hipnótica. Parece o vento cortando as janelas de vidro da casa, tentando entrar, tentando me alcançar. Mas não é nada disso. É o fogo. É apenas o fogo.
O calor cresce, se infiltra nos meus ossos. Não me queima. Não me fere. Ele me toca como se sempre tivesse me pertencido, como se fosse carne da minha carne, alma da minha alma. As chamas não me destroem — elas me aceitam. Elas me reconhecem. E eu as reconheço de volta. Eu as sinto como se fossem uma extensão de mim, uma parte que sempre esteve aqui, mas que agora enfim desperta.
— Elizabeth...
A voz dele. Tão familiar. Tão necessária. E ainda assim... tão distante.
Eu tento responder. Tento me mover. Mas os lençóis da cama se transformam em correntes, me prendendo, me imobilizando. Eles me mantêm presa como se fossem raízes crescendo sobre meu corpo. Tento falar, mas minha voz é apenas um sopro frágil, um murmúrio que mal corta o ar carregado.
— Eu estou aqui... — tento dizer, mas a frase morre antes de alcançar as chamas.
Ele não me ouve. A voz dele se dissolve no crepitar, como se o fogo a devorasse também, como se quisesse que eu jamais o encontrasse.
Olho ao redor. As chamas não são pequenas. Elas sobem, rugem, devoram as paredes, lambem o teto. O fogo se espalha pela madeira como se esta tivesse sido embebida em gasolina, como se a casa tivesse sido construída para arder, como se todo este lugar fosse um altar destinado a se consumir. E ainda assim... eu não tenho medo.
Por quê?
Por que não sinto a necessidade de correr, de gritar, de pedir socorro? Por que não sinto a urgência que deveria me dilacerar por dentro?
Meu coração bate firme, mas não há pânico nele. Há algo quase doce no calor que me envolve, como um abraço há muito tempo esperado. Um abraço que me consola, que me diz que não estou sozinha. Pela primeira vez em tanto tempo, o vazio que me assombra parece ter sido preenchido.
"E quem não for achado no Livro da Vida será lançado no lago de fogo..."
E eu me pergunto... com a voz embargada pela própria estranheza do pensamento:
Foi assim que você se sentiu, mamãe? Quando o fogo te encontrou, quando ele te abraçou até não sobrar nada além de cinzas... foi isso que você sentiu? Essa paz distorcida, esse calor que parece um colo, esse fim que parece libertação?
Não há resposta. Apenas o fogo.
[...]
A batida da porta me rasga em dois. Um estrondo vindo do andar de baixo corta o transe como uma lâmina afiada. Eu desperto.
Meu corpo se ergue num salto, o suor escorrendo por minha pele como se eu tivesse emergido de um lago noturno. Estou encharcada, respiração descompassada, coração aos socos contra meu peito. O quarto está mergulhado na escuridão, mas não é o mesmo breu do sonho. Este é pesado, opressivo, real.
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+18 | CASO Nº 44 | Dark Romance
Romansa~Livro com ilustrações~ DARK ROMANCE +18 "Eu entreguei minha alma ao Diabo e ele tomou-me como sua..." 1842... Início do século XIX... Nos corredores plúmbeos do Hospital Bethlem Royal, Elizabeth exerce o ofício de enfermeira com a serenidade de que...
