Londres, 1839
Elizabeth
O frio da manhã me alcança antes mesmo que eu abra os olhos. Sinto-o deslizar pelas frestas das janelas altas do convento, como dedos invisíveis que tentam me despertar antes da hora. A luz ainda é cinzenta, pesada, e paira sobre as paredes de pedra como um manto velho e úmido. Aqui dentro, o tempo nunca corre. Ele escorre, lento e sufocado, como os sussurros entre as freiras ao entardecer.
Levanto-me com a roupa de cama ainda colada ao corpo. Minhas costas doem. O colchão de palha nunca foi gentil, e nem deve ser. O sacrifício, dizem, é um caminho de luz. Eu apenas respiro fundo e amarro os longos cabelos num coque apertado, cobrindo-os com o véu de tecido grosso e escuro. Tudo em mim precisa ser apagado. É essa a regra aqui: não existir mais como indivíduo, apenas como serva de Deus.
Desço pelas escadas de pedra com as mãos juntas, já sentindo o cheiro do pão recém assado e do incenso queimado nos corredores. A Madre Superiora caminha adiante com seus passos rígidos, e todas nós seguimos como sombras silenciosas atrás dela.
Ninguém pergunta como estou. Nem eu mesma me pergunto mais.
Foram-se dois anos desde que fui deixada neste lugar. Ainda me lembro do cocheiro empalidecido, do silêncio cortado apenas pelo ranger da porta da frente ao se fechar atrás de mim. Ninguém explicou o porquê. Só disseram: "É o melhor para você, Elizabeth."
Nunca é o melhor. Nunca foi.
No convento, os dias se repetem como ecos de uma vida que não vivi. Orações às seis. Trabalho às sete. Refeição em silêncio. Limpeza. Ensino com as irmãs. Mais oração. E à noite, o peso do mundo recai sobre meu peito, quando me deito e não consigo dormir. Não sem sonhar com o que perdi.
Há momentos em que o cheiro da chuva me leva de volta para casa. Onde o céu é tão vasto que assusta, e tão bonito que consola.
Minha infância foi feita de neblina e orvalho, de pés descalços sobre a relva e cabelos embaraçados de tanto correr contra o vento. Éramos pobres, sim, mas não infelizes. O calor vinha do forno a lenha e dos abraços apertados da minha mãe, que cheirava a lavanda seca e pão recém-saído do fogo. Havia sempre música em casa, mesmo quando não havia som. Meu pai assobiava enquanto cortava lenha, e eu acreditava que aquilo bastava para espantar os males do mundo.
Não havia livros em casa, mas minha mãe contava histórias como ninguém. Histórias de sereias no lago, de fadas que se escondiam entre os arbustos, de reis tristes e rainhas encantadas. Eu ouvia com o queixo apoiado nas mãos e os olhos brilhando à luz do fogo. Nessa época, eu ainda acreditava que tudo podia ser mágico, desde que se olhasse com ternura o suficiente.
Lembro do cheiro da terra depois da chuva, do som dos sinos da igreja ao longe, das manhãs em que acordava com o canto das ovelhas. E lembro da última noite, com mais clareza do que deveria. O céu estava vermelho, e minha mãe chorava sem fazer barulho. Ela me vestiu com o vestido azul de domingo, aquele com os botões de madrepérola, e trançou meu cabelo com as mãos trêmulas.
"— Tu és feita de luz, minha menina... Onde fores, leva a bondade contigo."
Depois disso, tudo se desfez. Fui levada embora, colocada numa carruagem com estranhos olhos sérios, enquanto minha vila se apagava atrás de mim como uma vela ao vento.
Agora, quando me olho no espelho, tento ver nela aquela menina de olhos cheios de céu. Às vezes consigo. Outras, só vejo uma sombra tentando se lembrar do que era paz.
[...]
Hoje é domingo. O dia do Senhor.
O sino toca e ecoa por todo o bairro, acordando até os mortos do cemitério ao lado. As fiéis logo começarão a chegar para a missa das dez. Tenho tarefas a cumprir. Carregar a água benta. Preparar os bancos. Ajudar as irmãs mais velhas a ajeitarem o altar. Observo cada gesto com precisão, pois não posso errar. Um deslize é castigo. E já aprendi que os castigos não são apenas orações extras.
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+18 | CASO Nº 44 | Dark Romance
Romance~Livro com ilustrações~ DARK ROMANCE +18 "Eu entreguei minha alma ao Diabo e ele tomou-me como sua..." 1842... Início do século XIX... Nos corredores plúmbeos do Hospital Bethlem Royal, Elizabeth exerce o ofício de enfermeira com a serenidade de que...
