TRÊS

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Ter pego no sono melhorou meu humor. Toda a raiva e frustração ficaram na noite passada e agora espero que comece tudo de um jeito melhor. Acordei com tempo de sobra para tomar um banho e fazer o café da manhã para mim e para o Soobin. Não estamos ainda nos dando bem da forma como eu queria, mas acredito que as coisas estão se encaminhando para isso e não perco as esperanças.

     Depois do banho, deixo as roupas sujas para lavar no cesto da lavanderia e vou até a cozinha preparar o café. Já estava uniformizado.

     Isso foi a primeira coisa que pedi à minha mãe que me ensinasse; Como fritar os ovos e o bacon. No começo, eu tinha muito medo da frigideira, mas ela foi me ajudando a superar. Não sou muito de beber café e não sei quanto ao Jihoon, mas espero que ele também não goste.

     Enquanto eu cozinhava, olho para a sala que por alguma razão estava bagunçada com algumas camisas que obviamente não eram minhas. Soobin deixou umas quatro no sofá e não sei porquê não guardou e deixou ali. Se é para me provocar, ele está conseguindo.

     Tiro a frigideira do fogo quando estão prontas e desligo o fogo. Vou até lá para arrumar a bagunça dele.

     Devemos colaborar um com o outro, lembro das palavras que estavam na folha. Eu estava certo quando pensei que ele não cumpriria as regras que ele mesmo impôs. É fácil ele querer mandar, mas difícil de obedecer.

     Bato à porta dele com força.

    — Soobin, acorda. Já amanheceu.

     Ele abre a porta logo depois que eu termino de falar. O que me faz entender que já estava acordado há muito tempo.

     — Se bater na minha porta de novo… — ameaça ele, mas eu o interrompo estendendo a roupa.

     — Estavam no sofá quando acordei — explico. Poderia pegar todas elas para mim, pois gosto de roupas largas por serem mais confortáveis e estilosas.

     Ele as puxa da minha mão.

     — Foi mal. Esqueci de guardar.

     Sei. A resposta dele não me convence.

     — Só tome cuidado da próxima vez. E você acabou descumprindo a regra três que fala sobre organização.

     Ele franze a testa tentando lembrar, mas sei que está pouco se fodendo. Aproveito a porta dele aberta e inclino minha cabeça para o lado para conseguir ver alguma coisa, mas ele tampa a minha visão.

    — Você ia gostar se eu bisbilhotasse seu quarto também? — Ele fecha a porta. — Eu já estou indo comer.

     Volto para a cozinha e preparo os pratos para nós dois. Engraçado como faço tudo por ele e ele não faz nada por mim.

     Soobin se senta à mesa. Assim como eu, ele também estava arrumado e pronto para sair. Da maneira que come, pelas expressões faciais percebo que a comida está boa.

     — É a sua mãe que paga a escola? — ele pergunta repentinamente depois de um longo silêncio.

     A escola em si é particular. Não que tenhamos todo o dinheiro do mundo, mas nossas famílias estão bem financeiramente para que a minha mãe pudesse pagar por um bom colégio. Talvez seja o mesmo caso com o Soobin.

     — Sim, mas ela não banca tudo para mim. — respondo.

     Ele faz uma cara como se uma lâmpada tivesse se acendido em cima da sua cabeça, como nos desenhos animados.

     — A minha mãe também paga. — diz ele. — Então deixamos a mensalidade do colégio com elas e aí nós dois poderíamos procurar por um emprego para sustentar as coisas dentro de casa. A gente se vira.

     A ideia não é ruim. Muito pelo contrário. Poderiam os dois trabalhar em meio período e assim fazemos as compras para casa e não faltaria nada. Se eu quisesse, poderia até sair com os meus amigos.

     — Gostei da ideia — opino.

     Ele assente com o bacon na boca e mesmo assim fala de boca cheia:

     — Depois da aula eu vou começar a procurar pelas redondezas. Acho que você devia fazer o mesmo.

     Balanço a cabeça em concordância. É isso mesmo que farei e não vou descansar enquanto não achar.

             ***

À tarde, aproveito para lavar as roupas sujas que estavam no cesto. Lavei algumas antes e tinha colocado no varal para secar. Entre as minhas é claro que também tinha as do Soobin. Não resisto à tentação de cheirá-las para saber se estão com o perfume do amaciante. O cheiro da roupa dele é divino. Muito bem perfumado e ainda está com o cheirinho dele.

     Coloco as roupas limpas dele num cesto separado das minhas e as levo para o quarto dele. Quando abro a porta, me surpreendi pelo fato dela não estar trancada como sempre costumava estar. Ele pode ter se esquecido. Um erro talvez.

     Entro no quarto e fecho a porta logo atrás de mim com o pé. Ao contrário do que eu pensava, não era tão bagunçado assim. A cama estava bem organizada, mas em cima estavam algumas roupas que ele tinha vestido antes. Me aproximo um pouco mais e ao lado da cama tem um criado-mudo. No porta-retrato logo em cima tem uma fotografia do Soobin com um homem e uma mulher. Soobin se encontra no meio dos dois. Devem ser os pais dele. A foto foi tirada há uns três ou quatro anos. Isso porque Soobin está bem diferente do que é agora.

     Dou um passo para trás e piso em alguma coisa. Olho para baixo e percebo que é uma fotografia. Uma não, mas duas. Deixo o cesto de roupas ao lado da cama e pego elas com as duas mãos e as seguro diante do meu rosto. À esquerda é uma garota que não sei quem é. Ela é muito bonita, tem os olhos castanhos e os cabelos ruivos, e está com um meio sorriso. À direita, em outra mão, está Soobin. Presumo que a foto é recente e não deve ter menos de um ou dois anos. Ele sorri de canto, mas parece feliz. Observo as fotos com mais atenção e junto elas botando uma ao lado da outra. Elas se completam. Percebo que a foto foi partida bem ao meio separando os dois.

     Seja lá o que for, fico pasmo com isso que acabo de encontrar. Só não foi uma descoberta porque não sei nada a respeito disso. Tentaria perguntar ao Soobin sobre a foto, mas é claro que ele não me responderia. Vejo a estante de livros e estava certo sobre ele gostar de ler. Havia alguns mangás que não posso ver de longe. Mas antes que eu pudesse me aproximar, Soobin entra pela porta e me pega aqui dentro.

     — O que você faz aqui? — ele pergunta furioso.

     Não tive tempo de responder. Ele olha para as minhas mãos e vê a fotografia. Sua expressão que antes estava séria agora se torna em algo ainda pior.

     — E essa foto? — ele puxa elas da minha mão abruptamente, olhando para a foto com tristeza e desgosto. — Você ia gostar se eu invadisse seu quarto assim, Yeonjun?

     — Eu só vim trazer as suas roupas, mas não imaginava que a porta estaria aberta — justifico rapidamente.

     — Mesmo assim, isso não te dá o direito de entrar no quarto dos outros sem pedir. Nem te dei permissão.

     Ele se aproxima para perto de mim. Por um instante até penso que vai me bater, mas ele não o faz e duvido que fosse fazer. Ele olha para o cesto de roupas ao lado dele e depois olha para mim.

     — Deixa que com as roupas eu me viro — ele diz. — Agora sai daqui!

     Ele não levantou a voz. Apenas pronunciou cada palavra com firmeza e seriedade medindo cada uma delas.

     Solto o ar que nem sabia que estava preso e me retiro do quarto. Assim que saio, ele bate a porta com tudo atrás de mim, o som ecoando pelo apartamento. É a primeira vez que o vejo bravo e por pouco não explode.

Dois Sob o Mesmo TetoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora