IX.

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- Você disse que nada mudaria.

Barry acusou em tom baixo assim que adentrou seu laboratório naquela tarde. Depois de anos, se acostumara às entradas repentinas e, por isso, nada voava para fora do lugar, exceto seus cabelos. Fechando os olhos em um suspiro, tentou pensar em uma resposta adequada, afinal sabia que o momento em que ele a questionaria estava próximo. Haviam voltado na Casa no Lago há uma semana, de forma inacreditavelmente silenciosa, se estivesse comparando a Cisco e Ralph no domingo. Eles passaram a viagem toda de bom humor, enquanto Barry e Caitlin só falavam o estritamente necessário e se evitavam.

Ele tentara remediar isso nos dias subsequentes, no entanto. Falava com ela, a encarava demais, a incluía nos planos, ainda que não quisesse estar neles, sempre encontrava uma brecha para tocá-la. Caitlin somente permitia, mas não o tratava da mesma forma de antes, pois antes tudo isso era natural e agora... Bem, não sabia como reagir àquele tipo de atenção por parte de Barry.

Estava acostumada com o fato de ele estar sempre atrás de Iris, de ser apaixonado pela mulher desde sempre, ainda que isso fosse completamente estranho, de não enxergar um palmo à sua frente no que dizia respeito às outras chances. Não sabia reagir, entretanto, a um Barry que não condizia com nenhuma dessas coisas.

- Eu sei, mas... – Ele aproximou-se, pois não se afastara da bancada onde estava concentrada em algumas amostras de pele meta para análise. Arrependeu-se no instante em que o encarou, percebendo os cabelos bagunçados ao tirar a máscara do traje, pois eles ficaram praticamente daquela forma sob o efeito de seus dedos, naquela madrugada. – Não devia ter dito.

- Não podemos fingir que nada aconteceu naquela noite. – Abaixou os olhos, os dedos ansiosos sob as luvas cirúrgicas brancas.

- Não estamos fingindo, estamos... Deixando para trás, voluntariamente. – Encarou-o novamente, mais firme, vendo-o franzir o cenho hesitante. – Não devíamos ter feito aquilo.

- Sim, mas fizemos e... – Ele sorriu amargo enquanto Caitlin engolia em seco. Parecia-lhe o mesmo tipo de inconformidade que vira nele após o divórcio, mas... Jamais seria, era o que deveria ter em mente. – Qual é, Caitlin, não somos nada um sem o outro!

- Eu disse que estaria aqui sempre que precisasse e isso continua sendo verdade. – Defendeu-se, sentindo-se encolher-se por dentro, sem qualquer coragem para encará-lo. – Não irei a lugar nenhum, Barry.

O silêncio pesou no laboratório como há muito não fazia. Quando as coisas ainda não estavam ditas era desconfortável, mas não passava disso, embora soubesse que seria temporário. Entretanto, encarar a realidade era mais dolorido do que poderia mensurar. Respirou fundo, finalmente afastando-se da bancada, afinal um deles deveria. Apertou as mãos em punho, concentrando-se em segurar sua respiração linear enquanto estivesse ali ao mesmo tempo em que sentia tudo desmoronar dentro de si.

- Não consigo parar de pensar naquela noite. Em você. – Afirmou Barry, do lugar onde o deixara. Sentiu os lábios tremerem. – Durante toda aquela madrugada, eu esperei chegar o arrependimento e o medo de estragar tudo o que temos, mas... Não chegaram. Não me arrependo nem por um segundo de tê-la beijado e... Se não estivesse agindo assim, continuaria a fazer isso por muito tempo.

Apoiou-se contra o portal de vidro do laboratório, sentindo os olhos marejando, mas fechando-os para se controlar. Caitlin também não se arrependera, nem mesmo enquanto sentia-se quebrar voltando à realidade. Nada poderia continuar a acontecer, pois seria a única que sairia machucada no final. Não queria sacrificar-se e nem sua amizade com ele. Deus, nunca deveriam ter se beijado!

- Eu gostaria que pudesse beijá-lo sempre que quisesse, mas você... Você não é meu para cobiçar, Barry. Nunca será.

- Cait... – A voz dele soou mais próxima, mas não conseguiria seguir em frente se o encarasse.

- Seu destino é Iris. – Continuou, sentindo o frio instalar-se no ambiente, subindo pelo vidro em que apoiava uma das mãos. – Está amarrado a ela, em todas as linhas de tempo alternativas possíveis, em todos os mundos, em todas essas realidades paralelas. Isso nunca vai mudar e eu não estou disposta a... Competir com alguém que sempre sairá ganhando, independente do que aconteça.

Não deu tempo para que ele retrucasse e saiu do laboratório, seguindo pelo córtex em direção a saída enquanto o ruído de seus saltos ecoavam contra o chão mascarando a respiração fora de controle e as lágrimas que já desciam quase silenciosamente por seu rosto. Ralph passou por ela, perguntando o que acontecera, mas somente levantou uma das mãos, dispensando qualquer cuidado e seguiu em direção à saída. Trabalhar pelo resto daquele dia seria impossível, só queria estar embaixo de seu edredom na versão mais escura de seu quarto. 

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